|
CapaPra que tanta pressa?Filho, escola, trabalho, telefone que toca, compromisso, agenda cheia, trânsito, horas que passam. Alguns pedem licença: pára o mundo que eu quero descer
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues, Daniel de Cerqueira, Pedro Vilela, Robson Regato, Mauricio Martins
|
O telefone se soma à internet, à TV: faz tudo ao mesmo tempo. Olha a produtividade! Até ficar no elevador é desperdício de tempo. O estudante de computação Maurício Klamt, da Unicamp, está no bate-papo virtual, ao telefone, de olho no sobe e desce das ações das bolsas de valores mundo afora, nas aulas que dá para investidores. As letras das conversas on line são reduzidas, fala rápido ao telefone, quase é preciso ligar a tecla SAP. “Estou conectado ao mundo. Sempre foi assim”, diz ele, 21 anos, desde os 16 com investimentos na bolsa. Acostumou-se a essa vida efêmera, do momento, de ganho e perda de dinheiro rápido. Desconectou-se foi do hábito de leitura de jornais e livros, dos namoros. “Está difícil.” As sensações são imediatistas. Os relacionamentos instantâneos, de horas, porque amanhã é outro dia. Não há tempo para conquistar, cultivar raízes de amizades profundas. Tem conhecidos, colegas de trabalho. O afeto fica para o futuro, quando estiver rico. Há pílulas para amenizar as angústias, a solidão, que fazem efeitos rápidos. Se persistir, deixa para depois, há a vida alongada pela ciência à frente. “As pessoas têm dificuldades de convivência. Querem conhecer o outro num jantar”, afirma o psicólogo Milton de Oliveira, autor do livro Energia e Emoção. |
Aprender rápido, ter informações na hora, fazer cursos instantâneos numa velocidade impraticável para o cérebro humano. Aí, fica superficial, sem se aprofundar, amadurecer. “No movimento de inovar sempre, muitas decisões são tomadas sem a maturação necessária”, avalia o cientista social. O mundo quer respostas imediatas, não há o que pensar, mas fazer, entrar neste compasso acelerado. “Eu gosto deste ritmo, porque faço o que gosto”, diz a arquiteta Graziella Nicolai. Adaptou-se, já convive com a pressa desde criança e sabe ser prática: escova os dentes pela casa, associando isso a outra atividade, fala ao telefone só o necessário e usa roupas fáceis de vestir. Nada que prejudique a agilidade da vida, co-participada com bons funcionários no escritório e em casa para cuidar do filho. Pensa em ter outro? “Não, a gravidez é muita lenta.” Vamos, rápido. Não há como frear o planeta, cada dia menor com a tecnologia de informação. “Todo mundo pede as coisas para ontem”, diz a empresária e designer de bolsas e sapatos Elisa Atheniense, que está tentando impor limites à pressa. Cada dia está num lugar por força da profissão, tenta se programar e mudanças são inevitáveis. Delega mais poderes, mas há situações em que é insubstituível. “Tenho consciência que é até um vício.” O problema é parar, ir no sentido contrário ao da multidão que vem embalada rumo a não se sabe onde, sujeita a ter problemas de saúde. O corpo reclama com o estresse, mal-estar, ansiedade generalizada. “Mas o homem pós-moderno prefere ignorar, pois não tem tempo a perder se auto-observando”, afirma Marilda Lipp. Vai levando, tocado, empurrado. Há sinal vermelho a alertar que é necessário administrar, a avaliar o custo/benefício da pressa. Já não dizem que tempo é |
Ana Virgínia Azevedo Souza distendeu o seu tempo. Largou a profissão acelerada de jornalista e entrou noutra, a de professora de ioga, que exige tranqüilidade, repassada para as atividades diárias. “Quando estou cansada, desmarco as aulas. Evito sair de casa nos horários de pico do trânsito, ir a locais cheios. Meu filho estuda perto de casa”, conta. Aprendeu a não se estressar na fila dos supermercados, o que acontecia com freqüência antes, a ficar fora desta roda frenética. Não de todo. “Se vivesse numa comunidade isolada conseguiria, mas estou aqui.” Tem de conviver com a população estressada. Nem a profissão dela, ou a do restaurador Adriano Reis Ramos, que gasta meses a escamar as pinturas alheias à peça de arte, anos a recuperar os danos do passar dos anos, logo o tempo, ficam imunes à afobação generalizada. “É um trabalho moroso, cheio de nuances e as pessoas, às vezes, não entendem. Quando quebram a peça, aí é que ficam loucas para ficar pronta”, diz Adriano, que emenda com os ditos populares: a pressa é inimiga da perfeição, vai devagar que o andar é de barro. Ele mesmo é elétrico, agitado, fala rápido, mas se tranqüiliza quando começa a recuperar as obras de arte. Não há como correr, mesmo que queira, a profissão freia o ímpeto alucinado que paira no universo e produz bens e serviços duradouros. “Dorival Caymmi levou mais de dez anos para compor a música Marina Morena, que está aí até hoje.”
|
Incluem-se aí as pesquisas, que se traduziram em medicamentos, produtos tecnológicos, o telefone, a internet que, num paradoxo, aceleram a vida, num círculo vicioso. O professor Robson Augusto dos Santos, coordenador do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Universidade Federal de Minas (UFMG), se debruça há mais de 20 anos sobre o peptídeo angiotensina, que controla a pressão arterial, na busca do conhecimento. Já está na iminência de o medicamento ir para o mercado tratar doenças cardiovasculares e renais, que fazem tantas vítimas. “Entramos agora no caminho dos apressados: registrar patente, coletar provas, gerar o produto”, diz. Transferir benefícios à sociedade, hoje tão afoita, que até precisa de certa velocidade para ser impulsionada, concordam os especialistas. Não com tanta afobação. “Seria interessante que a sociedade discutisse em que ter pressa, o que fazer com a velocidade conquistada”, diz o cientista social Rafael Silva. O que planejar para este tempo adicionado, que a gente tenta reduzir com tantos afazeres. Dá o que pensar para existir bem, sem agenda cheia. |
Lento X Rápido- A Bíblia foi escrita em aproximadamente 14 séculos - A catedral de Nossa Senhora de Paris foi construída em 700 anos - Carlo Collodi escreveu Pinóquio em uma noite Fonte: Livro O som nosso de cada dia, L& PM Editores, cientista social Rafael Alves da Silva, Wikipédia |