Segunda, 21 de Maio de 2012
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Personagens

A vez do morro

Com acesso à universidade, jovens do Aglomerado Santa Lúcia, em BH, querem reescrever a história de sua comunidade

Texto: Márcia Queirós | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Aos 12 anos, a historiadora Josemeire trabalhou como doméstica para prosseguir os estudos

Há pelo menos dez anos, profissionais com curso superior no Aglomerado Santa Lúcia eram exceção no complexo das quatro favelas na zona sul de Belo Horizonte. Gente com diploma por ali, só os médicos dos postos de saúde e os professores de escolas públicas. Hoje, eles estão nos lares das vilas. O acesso à universidade, restrito às classes média e rica, aos poucos vai subindo o morro. De dez universitários em 2001, o complexo conta hoje com 200.

Políticas governamentais como o aumento de vagas no ensino médio permitiram maior acesso aos cursos superiores. Dados da Unesco revelam acréscimo de quase dois milhões de alunos no antigo segundo grau em 2007 comparado a 1999. No entanto, apesar dessa democratização, ultrapassar os muros da universidade significa batalha à parte no aglomerado.

Muito antes de começarem as discussões sobre programas de cotas raciais ou que garantem vagas a alunos oriundos de escolas públicas, Josemeire Alves Pereira, 30 anos, travou imensa luta até formar-se em história. Ela estudou em escolas públicas até a 7ª série. Aos 12 anos, começou a trabalhar como empregada doméstica porque a mãe precisou se ausentar temporariamente do trabalho. “Se naquela época pudesse fazer cursos que colaborassem para a minha formação, seria ótimo, mas a minha realidade era outra. O trabalho foi positivo”, reconhece.

 


Foi na casa dos patrões da mãe que Josemeire conseguiu bolsa de estudos em uma escola filantrópica mantida pelo Colégio Marista Dom Silvério. Com trabalho de dia e estudo à noite, terminou o ensino médio e, em 1998, passou no vestibular para história na UFMG. Devido às carências financeiras, o curso que completaria em quatro anos se estendeu para seis.  “Precisei trancar por uma série de problemas. Era difícil dinheiro para lanche e passagem”, lembra Josemeire, que não desistiu do sonho. Hoje, ela é professora de história concursada  da Fundação de Ensino de Contagem (Funec).

Na trajetória para se formar, ela conta ter tido decepções e encarado preconceitos. “Pensei que entrando numa universidade pública, a minha origem não fosse limite. Só fui encontrar acolhida ao me engajar nos programas da universidade de cunho racial e social. Lá havia pessoas mais parecidas com o meu perfil”, avalia.

Barreiras também enfrentou Eliane Gonçalves da  Costa, 26 anos, moradora do aglomerado, que se formou em psicologia na PUC. “Não havia preconceito explícito, mas virei um troféu. Para muitos, era sedutor ver uma pessoa do morro fazendo universidade, algo como um fenômeno”, descreve Eliane. Filha de uma costureira e um pedreiro, ao contrário de Josemeire, ela teve apoio financeiro da família. Os pais canalizavam todos os recursos e sacrifícios para os três filhos. “Minha mãe dormia na fila das escolas públicas para conseguir vagas”, lembra.

Mas mesmo tendo apoio em casa, foi preciso buscar forças para  enfrentar os obstáculos do “asfalto”. Em 2001, Eliane e colegas formaram a Associação dos Universitários do Morro. “Primeiro como um local para partilha de angústias. Depois, conseguimos nos organizar politicamente e conseguir benefícios por meio da Associação”, recorda Eliane.

O geógrafo Daniel de Souza Ribeiro, 26 anos, foi um dos favorecidos por esse movimento. Em 2002, conseguiu bolsa para cursar o pré-vestibular por meio da parceria entre a Paróquia Nossa Senhora do Morro, os Maristas e a PUC.  Foi aprovado no vestibular da PUC para geografia. Hoje, leciona em escolas estaduais e se prepara para cursar a pós.  “É um caminho penoso, mas vale a pena”, avalia Daniel, que durante o curso trabalhou de dia e estudou à noite.

Indagados se querem deixar o morro, Eliane, Jo­se­meire e Daniel são unânimes: “não”. Com o conhecimento, pretendem reescrever a história do aglomerado, cada vez mais engajados nos movimentos que garantam vida melhor aos moradores.“Todos aqui são capazes, basta terem oportunidades”, garante Daniel. Prova de que, como desejou o poeta Vinicius de Moraes, é só dar vez ao morro, para o mundo inteiro cantar.


 
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