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PersonagensA vez do morroCom acesso à universidade, jovens do Aglomerado Santa Lúcia, em BH, querem reescrever a história de sua comunidade
Texto: Márcia Queirós | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Foi na casa dos patrões da mãe que Josemeire conseguiu bolsa de estudos em uma escola filantrópica mantida pelo Colégio Marista Dom Silvério. Com trabalho de dia e estudo à noite, terminou o ensino médio e, em 1998, passou no vestibular para história na UFMG. Devido às carências financeiras, o curso que completaria em quatro anos se estendeu para seis. “Precisei trancar por uma série de problemas. Era difícil dinheiro para lanche e passagem”, lembra Josemeire, que não desistiu do sonho. Hoje, ela é professora de história concursada da Fundação de Ensino de Contagem (Funec). Na trajetória para se formar, ela conta ter tido decepções e encarado preconceitos. “Pensei que entrando numa universidade pública, a minha origem não fosse limite. Só fui encontrar acolhida ao me engajar nos programas da universidade de cunho racial e social. Lá havia pessoas mais parecidas com o meu perfil”, avalia. Barreiras também enfrentou Eliane Gonçalves da Costa, 26 anos, moradora do aglomerado, que se formou em psicologia na PUC. “Não havia preconceito explícito, mas virei um troféu. Para muitos, era sedutor ver uma pessoa do morro fazendo universidade, algo como um fenômeno”, descreve Eliane. Filha de uma costureira e um pedreiro, ao contrário de Josemeire, ela teve apoio financeiro da família. Os pais canalizavam todos os recursos e sacrifícios para os três filhos. “Minha mãe dormia na fila das escolas públicas para conseguir vagas”, lembra. |
Mas mesmo tendo apoio em casa, foi preciso buscar forças para enfrentar os obstáculos do “asfalto”. Em 2001, Eliane e colegas formaram a Associação dos Universitários do Morro. “Primeiro como um local para partilha de angústias. Depois, conseguimos nos organizar politicamente e conseguir benefícios por meio da Associação”, recorda Eliane. O geógrafo Daniel de Souza Ribeiro, 26 anos, foi um dos favorecidos por esse movimento. Em 2002, conseguiu bolsa para cursar o pré-vestibular por meio da parceria entre a Paróquia Nossa Senhora do Morro, os Maristas e a PUC. Foi aprovado no vestibular da PUC para geografia. Hoje, leciona em escolas estaduais e se prepara para cursar a pós. “É um caminho penoso, mas vale a pena”, avalia Daniel, que durante o curso trabalhou de dia e estudou à noite. Indagados se querem deixar o morro, Eliane, Josemeire e Daniel são unânimes: “não”. Com o conhecimento, pretendem reescrever a história do aglomerado, cada vez mais engajados nos movimentos que garantam vida melhor aos moradores.“Todos aqui são capazes, basta terem oportunidades”, garante Daniel. Prova de que, como desejou o poeta Vinicius de Moraes, é só dar vez ao morro, para o mundo inteiro cantar. |