A busca do ser humano por respostas espirituais e questões existenciais tem impactado diretamente o mundo dos negócios. Seja para superar a dor de uma perda ou simplesmente difundir mensagens de fé, esperança e amor, é cada vez maior o número de pessoas de diferentes crenças que consomem artigos de caráter religioso. Estima-se que a venda de produtos direcionados somente a católicos e evangélicos no Brasil gire em torno de 11 bilhões de reais por ano. Mercado bastante promissor, uma vez que, em 2000, adeptos das duas religiões representavam 89,2% da população brasileira, conforme o último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A variedade de itens impressiona. Só para se ter uma idéia, as tradicionais bíblias católicas e protestantes – ainda hoje, campeãs de vendas nas lojas especializadas – ganharam nova roupagem. O público infanto-juvenil, por exemplo, pode escolher entre capas com design moderno e temas específicos, enquanto as mulheres podem optar por bíblias cor-de-rosa ou que destacam a participação do público feminino na história judaico-cristã.
Até aí, pouca novidade. Mas o que dizer de um refrigerante chamado Leão de Judá – um dos codinomes do próprio Jesus Cristo – cuja embalagem traz mensagens bíblicas? A bebida existe e já está sendo comercializada na Grande São Paulo. O autor da idéia é o empresário evangélico Moisés Novais de Magalhães, dono da Consultoria Alfa Gold. Ele afirma que sempre quis fazer algo para levar a mensagem de Deus a todas as pessoas. “Tive uma orientação divina para criar o refrigerante.” O objetivo de Magalhães é criar uma rede com sete mil distribuidores em todo país e, até o final de 2009, abocanhar 3% do mercado brasileiro de refrigerantes. Só em 2007, este mercado movimentou cerca de 19 bilhões de reais. Inicialmente, 10% dos lucros serão destinados a igrejas evangélicas de denominações variadas e outros 10% a projetos sociais diversos, não necessariamente ligados à religião. “Minha intenção é, um dia, doar 90% da nossa receita para fins sociais”, sonha.
O mercado de produtos direcionados aos evangélicos é, por sinal, um dos mais rentáveis e prósperos. Uma das explicações para o fenômeno é que, em geral, os protestantes gostam de, literalmente, vestir a camisa da fé que professam, o que os torna consumidores ávidos por esses artigos. É 8
o que afirma Renato Reis, gerente de vendas da Distribuidora El Shadai, empresa de Belo Horizonte que dispõe de cerca de 10 mil itens direcionados aos protestantes. Os artigos vão desde bíblias e livros de teologia, até camisetas, chaveiros, brinquedos, entre outros produtos. “O propósito é levar a mensagem de Cristo para o maior número possível de pessoas.” A consolidação desse segmento é inegável. A maior feira evangélica de negócios do país, a Expocristã 2008, por exemplo, reuniu 300 empresas, 144 mil visitantes e gerou negócios da ordem de 100 milhões de reais, volume 40% superior ao registrado no ano anterior.
Outra prova do potencial desse setor é que algumas marcas se tornaram verdadeiros ícones entre os evangélicos. Exemplo é a Smilingüido, a turma de formiguinhas da Editora Luz e Vida que hoje está presente em mais de 700 produtos entre cadernos, mochilas escolares, agendas, cartões, brinquedos, bíblias, DVDs, entre outros. Atualmente, os itens são exportados para países como Nova Zelândia, Japão, Estados Unidos, Costa Rica, México, Chile, Porto Rico, Argentina, Uruguai e Holanda. No Brasil, são cinco mil pontos de venda.
De mãos dadas com os evangélicos estão os católicos, que também representam fatia expressiva do público consumidor de artigos religiosos. A estimativa é que o comércio de produtos ligados à religião católica movimente algo em torno de oito bilhões de reais por ano. Sinal claro da força desse segmento é que o líder de venda de CDs no Brasil é o padre Marcelo Rossi. No último mês de agosto, o volume 2 do CD Paz Sim, Violência Não somava 150 mil cópias vendidas no sistema de pré-venda, enquanto o volume 1, em apenas dois meses, havia conquistado disco de platina duplo, com 200 mil unidades comercializadas. As feiras de negócios também têm se mostrado ferramenta de vendas importante no mercado de artigos católicos. O volume global de negócios da sexta edição da ExpoCatólica foi de 25 milhões de reais. “É bem provável que a próxima edição da feira, em 2010, nos exija uma área, no mínimo, 50% maior no Expo Center Norte”, prevê Fábio Castro, presidente da Promocat, empresa organizadora do evento.
Os bons ventos também têm soprado para a editora Ave Maria, uma das maiores fabricantes de bíblias católicas do país, com lo–jas instaladas em dez estados. De acordo com Bruna Lasevicius Carreira, do setor de marketing da empresa, a expectativa é fechar 2008 com aumento de 11% nas vendas em relação ao ano anterior.
A internet é outro canal de compras bastante procurado pelos consumidores que professam a fé católica. Lançado em 1999, o portal CatólicaNet possui cerca de mil itens à venda. Segundo Belchior Antônio, presidente do portal e fundador do Instituto Missionário CatólicaNet, CDs e DVDs são os produtos mais procurados, seguidos por livros e terços.
Mas o mercado de artigos religiosos não está limitado a católicos e evangélicos. Terceiro maior grupo religioso no país, os espíritas somavam 2,26 milhões de adeptos em 2000, segundo o IBGE. Entretanto, o número de simpatizantes da doutrina gira em torno de 30 milhões. Em todo o mundo, o Brasil é o que concentra o maior número de espíritas.
A variedade de produtos destinados a esse segmento, porém, é menor. Os livros são os itens mais buscados pelos seguidores da doutrina de Allan Kardec. Segundo o diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Geraldo Campetti, somente o departamento editorial da instituição possui catálogo com mais de 400 títulos, que totalizam mais de 40 milhões de volumes vendidos. Os números impressionam e são prova de que cada vez mais pessoas têm buscado na fé a resposta para problemas, formando mercado consumidor comparado a um imenso rebanho.