Segunda, 21 de Maio de 2012
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Entrevista

Depressão na balança

Estudo mostra que as brasileiras são as que mais abandonam o tratamento contra depressão na América Latina por medo de engordar. A psicanalista Luciana Sarin fala sobre as conseqüências disso e do estereótipo equivocado atribuído aos que sofrem com a doença

Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Robson Regato


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As brasileiras são, na América Latina,  as que mais abandonam o tratamento da depressão por medo de ganharem peso. Esse é um dos resultados do estudo Depresión em Latinoamérica (Dela), realizado com 1,1 mil mulheres, entre 35 e 55 anos, de cinco países da região – Brasil, Chile, México, Colômbia e Venezuela. Iniciativa da Associação Latino-Americana de Psiquiatria (Apal), e patrocinada pela Wyeth Indústria Farmacêutica, a pesquisa traz informações importantes sobre a percepção que as mulheres têm sobre a depressão e pode ajudar médicos no desafio de manterem suas pacientes envolvidas com o tratamento da doença. “O aspecto mais importante é diminuir o estigma do transtorno por meio da educação da sociedade. Os pacientes com depressão sofrem um julgamento moral que, além de ser inadequado, dificulta a adesão ao tratamento. Infelizmente a depressão ainda é associada à falta de força de vontade, fraqueza de caráter, falta do que fazer”, observa a médica psiquiatra Luciana Sarin, professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A médica divulgou os dados da pesquisa no XXV Congresso da Associação Latino-Americana de Psiquiatria, realizado em novembro último, em Isla Margarita, na Venezuela, e conversou com a Viver Brasil sobre os principais resultados.

A pesquisa aponta as brasileiras como as que mais abandonam o tratamento contra a depressão, por medo de engordarem. Isso a surpreendeu?
Essa informação não causa surpresa, pois uma das maiores causas de abandono de tratamento na depressão são os efeitos colaterais, e o ganho de peso para as mulheres brasileiras sem dúvida é intolerável. O temor de engordar ou a percepção de que o tratamento está causando ganho de peso pode levar ao seu abandono. Essa tirania de um padrão de beleza próximo à anorexia leva à inversão da relação custo-benefício, isto é, ainda que seja a melhora da depressão, não vale a pena se o custo a ser pago for o ganho de peso.

E que outros motivos têm levado as brasileiras a abandonar o tratamento para a depressão, de acordo com o estudo?
A melhora dos sintomas e a crença de que o tratamento não é mais necessário aparecem no estudo como causas freqüentes de abandono. Por outro lado, a falta de confiança na melhora também é uma causa freqüente, além de perda do desejo sexual e náuseas.

Além do ganho de peso, que outros efeitos colaterais indesejáveis as pacientes relatam?
O ganho de peso é um efeito colateral freqüente no tratamento com antidepressivos, mas não é obrigatório. São muitos os fatores envolvidos no ganho de peso, e nem todas as mulheres tratadas com antidepressivos têm necessariamente esse ganho. Outros efeitos  freqüentes são os gastrointestinais e a diminuição ou perda do desejo sexual.

Alguns desses efeitos podem ser atribuídos aos próprios quadros depressivos em si, e não aos medicamentos?
É claro que sim. As alterações do apetite (aumento ou redução) e conseqüente ganho ou perda de peso, a perda do desejo sexual, as alterações gastrointestinais também fazem parte dos sintomas da depressão, tanto quanto a tristeza, o desânimo, a perda de prazer e interesse pelas coisas.

Há uma nova geração de remédios, hoje, que podem minimizar esses efeitos indesejáveis?
Sim. A nova geração de medicações antidepressivas sem dúvida tem menos efeitos colaterais do que os antidepressivos clássicos. Os mais modernos têm a eficiência das medicações convencionais, porém apresentam menos efeitos colaterais e maior segurança.

As mulheres, mais de que os homens, estão sujeitas à depressão? Por quê?
Para cada homem com depressão há em média duas mulheres deprimidas. Isso se deve às oscilações dos hormônios femininos que ocorrem ao longo do ciclo reprodutivo. Toda vez que a mulher tem uma oscilação hormonal, aumenta a chance de ocorrerem alterações do humor.

Avaliando as causas da depressão, especialmente entre o público feminino adulto, aparecem o medo do envelhecimento, da insatisfação com o corpo. Essas questões são suficientes para levar uma mulher à depressão?
Não. Na realidade, a causa da depressão é multifatorial. São fatores biológicos, psicológicos e sociais que estão envolvidos nesse processo. É importante diferenciar tristeza com situações da vida, como perdas e envelhecimento, de depressão, que é um conjunto de sintomas relacionados a alterações da química cerebral.

É difícil enfrentar um tratamento contra a depressão? 
Hoje em dia já não é difícil, pois, como eu disse, as novas medicações são eficazes e seguras. A duração é um aspecto muito importante: a partir da remissão completa dos sintomas o tratamento deve ser mantido durante o período de pelo menos 6 a 12 meses. Caso a pessoa já tenha tido três ou mais episódios de depressão, a medicação deve ser mantida em longo prazo. Além do tratamento com antidepressivos, pode-se associar psicoterapia quando necessário. Outros aspectos importantes no tratamento são a manutenção de dieta adequada, atividade física e sono restaurador.

O estudo aponta uma contradição, ao indicar que 95% das brasileiras pesquisadas têm consciência de que é importante tratar a depressão, mas são as que mais abandonam os tratamentos.
Acredito que ainda exista falta de informação adequada sobre a importância do tempo de tratamento, que não é suficiente apenas melhorar os sintomas, que o tratamento de manutenção é protetor de uma eventual recaída.

A percepção de que depressão é temporária – 68% das brasileiras pensam assim, chegando a 84% entre as venezuelanas – está correta? Ou ela deve ser considerada uma doença crônica?
Quando a depressão não é tratada adequadamente existe o risco de cronificação da doença. Cada episódio depressivo facilita a ocorrência do próximo e após três episódios consideramos que a chance de recaída é de 90%; a partir daí estamos diante de uma doença que deve ser tratada cronicamente. 

Como vencer o desafio de fazer as mulheres se manterem nos tratamentos contra a depressão?
O aspecto mais importante é diminuir o estigma da doença mediante a educação da sociedade. Informações sobre a depressão, sua natureza química, potencialmente crônica e tóxica para o cérebro. Informações sobre os antidepressivos, que não são danosos para o organismo, mas sim protetores de recaída de uma doença potencialmente crônica. Não apenas os pacientes devem receber esse tipo de informação, mas também seus familiares, cujo apoio é fundamental. Os pacientes com depressão sofrem um julgamento moral que, além de ser inadequado, dificulta a adesão ao tratamento. Infelizmente a depressão ainda é associada à falta de força de vontade, fraqueza de caráter, falta do que fazer. As pessoas sentem-se envergonhadas ao receberem esse diagnóstico, como se seus sintomas fossem inventados e não legítimos, como se tivessem a função de chamar atenção ao invés de serem a conseqüência de uma alteração da química cerebral. Através do tratamento da depressão as pessoas podem, aí sim, voltar a fazer uso de sua força de vontade, e viver de forma integrada todos os aspectos de uma vida saudável.


Dados do estudo

- Realizado entre os dias 16 de setembro e 16 de outubro de 2008
- Público-alvo: Mulheres de 35 a 55 anos
- Países: Brasil (classes A e B); Chile (classes C1 e C2); Colômbia
(classes A e B); Venezuela (classes A e B); México (classes A, B e C)
- No total, foram entrevistadas 1100 mulheres, nos cinco países pesquisados
- A pesquisa ouviu 300 mulheres em três capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre)
- São as brasileiras também que mais relatam a perda do desejo sexual como fator determinante para desistir do tratamento (17%) contra 10% das chilenas, 5% das mexicanas e 8% das colombianas e venezuelanas

 
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