O ditado popular que apregoa que as crises geram oportunidades está em voga. A crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos, que atingiu o mundo de diversas maneiras, poderá ser uma grande oportunidade para os países emergentes ganharem força política e passarem a participar das decisões econômicas mundiais. Ainda é cedo para se falar na criação de uma nova ordem econômica mundial, como o Bretton Woods (quadro final), após a II Guerra, cujo objetivo foi o de restaurar a quase destruída economia do planeta. A situação atual é diferente porque a crise instalou-se em uma economia globalizada, atingindo em cheio grandes potências, como os Estados Unidos e países da Europa.
O professor de Mercado Financeiro da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite, acredita que processos de mudanças são demorados, e que neste caso, não será diferente porque envolve re-divisão de poder e quebra de hegemonia. “Apesar da resistência do G-7 (grupo das maiores economias mundiais), acredito que haverá crescente participação dos países emergentes nas decisões internacionais. A princípio, os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) seriam convidados a participar do G-7, depois se tornariam membros efetivos.” Para Leite, a eleição de Obama nos Estados Unidos dá abertura para isto ocorrer.
Na avaliação do chefe do Departamento de Economia da UFMG, Frederico Gonzaga, o Democrata, partido de Obama, tem posições multilateralistas, ao contrário do Partido Republicano, e é possível que ele coloque em prática esta forma de política. “Mas império é império e o Obama foi eleito presidente de um império, e o papel dos EUA como potência econômica tem de ser mantido”, ressalta. O empresário e economista Murilo Prado Badaró diz que é preciso entender o que provocou a crise econômica, mas não tem dúvidas de que a nova ordem mundial vigora desde a década de 1980, com o surgimento da internet. “Vivemos na era do conhecimento e da informação, e isso por si só é suficiente para criar novas premissas. A velocidade, a intangibilidade e a conectividade são responsáveis pelas mudanças”, analisa. Badaró acredita que com a nova ordem haja reorganização com base nas experiências passadas. “Aprendemos com todas as crises mundiais, principalmente com a de 1929. Hoje, a hegemonia americana é relativa. Em termos financeiros, Londres é tão importante quanto Nova Iorque. A força dos EUA está na sua liberdade, democracia e na intensidade de seu consumo interno”, analisa o economista. Para ele, a nova ordem passa pela liberdade de mercado com a atenção na fiscalização de organismos reguladores, como os bancos centrais e os governos.
Badaró considera fator importante a queda da participação da economia americana no PIB global, que na década de 1970 representava 60% da riqueza gerada no mundo, e está em 28%, segundo o Banco Mundial. Levantamentos da instituição concluíram que em 2005, o mundo produziu 55 trilhões de dólares em mercadorias e serviços e 40% deste montante foram oriundos dos países em desenvolvimento, sendo 20% gerados pelos Brics mais o México. “Isoladamente, a China representa 10%, e em 2015 seu PIB total deverá ultrapassar o dos Estados Unidos. Isto prova que os atores mudam e a locomotiva ainda é importante, mas menos influente”, assevera o empresário.
“A China, que está em ascensão, terá importância fundamental para o mundo, bem como a Rússia, e a Índia tem a bomba atômica”, ressalta Frederico Gonzaga. Ele diz que em uma possível nova ordem mundial o Brasil teria papel secundário em relação a estes países. O economista considera prematuro pensar na criação de nova ordem em meio a uma crise da magnitude da atual porque os EUA perderiam sua hegemonia e isto é um dos dificultadores deste processo. “Pensar em nova ordem, neste momento, é pura especulação. A crise coloca novas questões, mas não sei se uma delas seria a nova ordem, apesar de existir espaço para isto”, explica.
Na avaliação do coordenador do curso de relações internacionais da PUC Minas, Javier Vabell, tudo vai depender dos rumos da crise econômica. “Se ela se estabilizar, a nova ordem ficará apenas na conversa, mas se se aprofundar poderá ser concretizada”. Um dos complicadores, em sua avaliação, é que não se sabe se a crise chegou ou não ao seu ápice e, por isto, a tendência é de que os EUA façam mais acordos com a União Européia e a China, não abrindo mão de seu jogo na política econômica doméstica, mas contribuindo externamente no combate à crise. Um dos trunfos dos EUA é que sua moeda, o dólar, continua muito forte.
Para Helga Hoffmann, do Grupo de Análises da Conjuntura Internacional da USP e economista da ONU por 17 anos, não há o menor sentido em falar na criação de uma nova ordem econômica mundial neste momento. Ela acredita que haverá adaptações para que as economias enfrentem a instabilidade do sistema financeiro mundial. “Uma das alternativas será o estímulo fiscal, mas nem todos os países poderão adotá-lo devido ao grau de endividamento”, ressalta a economista. Ao longo de sua experiência na ONU, Helga considera o G-20 um fórum grande demais para solucionar problemas. “Não há a força da execução por trás dele. Tudo é retórica”, alfineta.
Já Badaró lembra que depois de um ciclo de crescimento mundial, chegou a hora do ajuste necessário, pois os ciclos econômicos são fato. Neste momento, pelas suas próprias características econômicas, os países emergentes podem estar menos expostos, mas não imunes à crise. “No possível novo grupo que está surgindo, G-20 ou G qualquer coisa, a força ainda estará com quem comanda, no caso os países do G-7, mas os emergentes terão importante papel no futuro. E é bom sempre lembrarmos que crise pode ter sinônimo de oportunidade”, finaliza o empresário.