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BrasilMinha vida em suas mãosProcessos judiciais por erros médicos 1.465% maiores nos últimos sete anos, somados à proliferação desordenada de escolas de medicina e baixa qualidade no ensino: equação que deixa um rastro de questionamentos (e medo) na população
Texto: Janaína Martins | Fotos: Keystone, Daniel de Cerqueira e Sérgio Henrique
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A professora Silvana Alves Pinto, 44 anos, recorreu à Justiça para tentar reparar, pelo menos parcialmente, os danos provocados por uma cirurgia plástica que ela considera malfeita. Em 2002, procurou uma clínica da capital mineira para fazer uma intervenção nas mamas. Silvana pagou 11,3 mil reais pelo procedimento. Mas o resultado a levou a uma depressão profunda. O umbigo ficou necrosado, a cicatriz, segundo conta, é assustadora e a mama não teve melhoria alguma. Ela tentou negociar com o cirurgião plástico uma correção. Mas ele se negou. Há dois anos o processo corre na Justiça, e, em novembro, um dos sócios da clínica procurou a professora e disse que se ela retirasse o processo ele faria a cirurgia reparadora. “Não aceitei, porque isso é um absurdo. Além disso, não me submeteria novamente aos profissionais dessa clínica”, afirma. Há um ano Silvana passa por sessões de terapia para procurar driblar a depressão – que já a levou a tentar o suicídio. Não consegue trabalhar e, muito menos, se despir na frente de ninguém. “O que fica dentro da gente é uma insatisfação tão grande, difícil de ser administrada”, diz a professora. Insatisfação refletida em parte no Congresso Nacional. Existem quatro projetos de lei tramitando na Casa que exigem a obrigatoriedade do exame de habilitação para o exercício da medicina. Caso fossem aprovados, o formando teria que se submeter a uma prova, como acontece hoje com os bacharéis em direito, que devem fazer o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Mas essa posição divide opiniões. Para o presidente do CRM/MG, João Batista Gonçalves Soares, uma vez que o aluno consegue o diploma, ele já deveria estar apto a exercer a profissão. “Caso contrário estaríamos tapando o sol com a peneira e ainda criando o médico descalço: formado, sem autorização para atuar e, provavelmente, atuando de forma irregular. Precisamos de uma reformulação no sistema de ensino e de valorizar mais o profissional. A grande maioria trabalha em quatro locais diferentes, vive correndo e não tem tempo de conversar com o paciente”, enumera. E a preocupação está apenas começando. Por volta de 2010, 2012, quando as novas escolas colocarem no mercado seus formandos, o número de novos médicos em Minas Gerais vai saltar dos atuais 1,1 mil para 2.693. E as vagas de residência continuarão as mesmas (850), ou seja, apenas 31,56% dos médicos recém-saídos da faculdade conseguiriam aprimorar seus conhecimentos e prática sob supervisão. A Associação Médica de Minas, juntamente com outras entidades, entrou na Justiça contra a abertura de sete escolas de medicina no estado sem a autorização do Ministério da Educação (MEC). Elas foram criadas apenas com autorização do Conselho Estadual de Saúde. As entidades ganharam e a sentença do Supremo Tribunal Federal (STF) é de que, ou essas escolas privadas se ligam ao MEC, tendo que cumprir várias exigências, ou terão de fechar. Já as públicas estaduais poderão continuar funcionando. “O que podemos fazer é pressionar o poder público para que não sejam abertas novas escolas e que as ruins sejam fechadas”, afirma José Carlos Collaris Filho. O MEC informou que, neste ano, os cursos de medicina que tiveram conceito 1 e 2 no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) e no Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD) estão sob supervisão. São 17 cursos, em todo o país, sendo quatro de instituições federais, do total de 103 avaliados (públicos e privados), que estão passando pelo crivo da Comissão de Supervisão dos Cursos de Medicina, presidida pelo médico e ex-ministro da Saúde, Adib Jatene. O relatório está para sair a qualquer momento, com as medidas que as escolas terão que tomar, no prazo de um ano, para poderem continuar funcionando. À época da divulgação do resultado e do anúncio da supervisão, em abril deste ano, Jatene disse que o crescimento do número de cursos de medicina – que saltou de 80, em 1994, para 175, em 2008 – fez com que os mecanismos de autorização e avaliação de cursos tivessem de ser revistos. Ele citou, por exemplo, que no documento que dispõe sobre a autorização, foi acrescentado um item eliminatório: instituição que não tenha um complexo médico-hospitalar ambulatorial que seja referência regional há pelo menos dois anos não pode ter um curso de medicina. No dia 25 de novembro foi realizada, em Brasília, uma sessão plenária da Comissão Nacional de Residência Médica, da qual o ministro da Educação, Fernando Haddad, participou. Ele ressaltou a necessidade de se debater mais o papel da residência médica e as melhorias neste nível de ensino entre os docentes, profissionais, conselhos e, principalmente, com o governo. “Temos avançado no debate sobre a área da medicina. O maior rigor na supervisão dos cursos mostra isso”, diz o ministro. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Promotoria de Direitos de Saúde, em Belo Horizonte, foram procurados pela reportagem, mas não deram retorno. Nestes casos, o silêncio prevaleceu, como nas mensagens dos cartazes expostos em corredores de hospitais. |
Nota VermelhaResultados do exame aplicado pelo Cremesp Índice de reprovação nos últimos anos |
ProcessosPROCESSOS DE ERROS MÉDICOS NO STJ Fontes: Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM/MG) e Associação Médica de Minas Gerais (AMMG) |
ProliferaçãoCrescimento de escolas de medicina em Minas Gerais Total de vagas/ano em MG*: 2.693 * Quando as novas começarem a formar os alunos |