Terça, 21 de Maio de 2013
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Economia

Consumir ou não consumir?

Eis a questão. Esse e outros dilemas fazem parte das reflexões dos brasileiros após os primeiros efeitos da crise na economia do país

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: SXC, Pedro Vlela, Nélio Rodrigues


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Nem um tsunâmi, tampouco uma marolinha. A crise financeira internacional que atingiu o mundo chegou à economia brasileira como uma profecia auto-realizável: basta lembrar que a discussão, nos últimos me­ses, era quando e como chegaria. Já não há dúvidas. Em meio a notícias de demissões, desaceleração do emprego industrial, queda nas exportações, uma das grandes preocupações seria o efeito desta crise na população: como ela reagiria? 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a falar em campanha nacional para incentivar o consumo, anunciou um pacote anti-crise com redução das alíquotas do imposto de renda. O banco Morgan Stanley cogitou uma recessão técnica para o país nos próximos meses. Na prática, dizem os economistas, a recessão ainda passa longe e o incentivo ao consumo é um tanto precipitado. Alguns consumidores, no entanto, preferem, por cautela, deixar algumas decisões para os próximos meses.

O publicitário Khacyos Rezen­de, 37, engavetou, de uma só vez, dois projetos por causa da crise. Dono de um apartamento, os planos eram até o final de 2008 transformar parte do valor da venda desse imóvel em novo apartamento e complementar, com um financiamento, a compra de uma sala comercial para sua agência de publicidade. “Já estava com uma boa proposta e cheguei a redigir um contrato para a compra do meu apartamento, mas resolvi esperar um pouco porque não queria ficar endividado com tantas incertezas na economia”.


Por cautela, o publicitário Khacyos Rezende engavetou dois projetos
Por cautela, o publicitário Khacyos Rezende engavetou dois projetos

Foi uma decisão acertada, na opinião do economista da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Fábio Gallo. Primeiro, ele remete à economia macro para falar que, sim, seria catastrófico para o país não haver consumo. “As empresas produziriam menos, haveria menos postos de trabalhos, menos vendas. É um ciclo complicadíssimo que pode trazer  uma estagnação com deflação de preços”, diz. Por outro lado, quando o caso são as finanças pessoais, Gallo diz que a hora para os consumidores é de cautela, se querem ir ao consumo. “O momento é o de fazer a ve­lha pergunta ao ir às compras: eu preciso, ou eu quero isso? Se for preciso, então tudo bem. Mas se não for, que o gasto seja com muita consciência e dinheiro no bolso”, diz.

O engenheiro civil Marco Antônio Cou­ti­nho, 55, integra esse perfil de consumidor. O sonho para o réveillon era sete dias em Paris com a esposa, com uma passagem rápida pela bela e histórica Bruxelas. Tudo se encaixava perfeitamente nos planos, mas Cou­tinho sentiu que a viagem poderia virar um pesadelo. Não pelo preço das passagens, hospedagem, já fechados aqui no Brasil; tudo por causa da crise e seu impacto no câmbio. “Só imaginava os gastos da viagem e a minha surpresa quando voltasse das férias”, diz.

Com o impacto da crise no câmbio, o engenheiro Marco Antônio Coutinho preferiu adiar viagem à Paris
Com o impacto da crise no câmbio, o engenheiro Marco Antônio Coutinho preferiu adiar viagem à Paris

Por enquanto, uma crise potencial no consumo é descartada pelo professor de economia da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite. Para ele, o grande problema do país, neste momento, é outra retração, a do crédito. É nesta hora que uma bola de neve pode se formar, afetando diretamente o crescimento da economia, já que com menos capital disponível há diminuição de investimento, desaceleração das contratações e redução do consumo pela população.Para Leite, os primeiros passos para 2009 incluem uma recomposição do crédito, que levará pelo menos três meses trazendo, sim, uma retração no consumo, com impacto no PIB. “Mas no segundo semestre do ano acredito que o crédito será restabelecido.”

O professor de economia do Ibmec, Eduardo Coutinho, reforça que para os empresários que comercializam bens de consumo e necessitam da concessão de crédito, a crise está sendo pior. “Há de fato uma precaução por parte dos consumidores, a da compra a prazo.” Coutinho acha desnecessária a idéia de uma interferência como a sugerida pelo presidente, com uma campanha estimulando o consumo. “Qual seria o benefício disso? É preciso pensar. A decisão de compra é individual e, neste momento, varia de caso a caso, de acordo com a condição do consumidor”, analisa.

A verdade é que os economistas evitam a futurologia para o país em 2009. É cedo para falar em recessão ou para descartá-la completamente. Do lado dos consumidores, o publicitário Khacyos Rezende espera que em março todas as previsões positivas possam se concretizar e finalmente o sonho de ter uma sede nova de sua agência e mudar-se para um novo apartamento se transformem em realidade. “A crise atrapalhou o processo de expansão da minha empresa, mas estou otimista. Em março já estarei em nova sede”, diz. O engenheiro Marco Antônio preferiu não esperar tanto: trocou Paris por Fortaleza. A crise trouxe boas notícias pelo menos para o filho do casal: o réveillon, antes restrito aos pais na capital francesa, agora está liberado para o garoto nas praias brasileiras.


 
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