Sexta, 18 de Maio de 2012
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Múltiplas faces de Deus

Vivemos um tempo em que cada um escolhe seu próprio pacote religioso, completa-se em várias crenças, busca a divindade sob espectros diferentes

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Nélio Rodrigues


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Do tetragrama hebreu YHWH originam-se os nomes de Deus. Do alfabeto hebraico, as 22 letras que, para nós, ocidentais, muitas vezes são impronunciáveis nas composições que formam os 72 nomes conhecidos de Deus. Elohim (Elevadíssimo), El Shaddai (Deus Todo Poderoso), Ehyeh-Asher-Ehyeh (Eu sou o que sou), El (Deus), Adonai (Senhor Absoluto), Kadosh (Santo), Jeová-Jiré (Deus Pro­vê), HaShem (O Nome), Theos ho Pater (Deus o Pai), Ema­nuel (Deus Conosco), Jeová-Shalom (O Senhor nossa paz); Ungido, Verbo, Cristo, enfim, muitos são os nomes para designar Deus. O profeta israelita Moisés chegou a dizer que é “O Nome sobre o qual estou proibido de falar”, ressaltando o necessário respeito ao se referir à Divindade. Dos dez mandamentos bíblicos, o ter­ceiro enfatiza a preocupação com a pronúncia aleatória do nome Deus. “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”, (Êxodo 20:7).

Não importa qual seja o título: a humanidade chegou ao século XXI imersa em uma rede intrincada de credos, seitas, e também de significados para Deus, o que independe da raça, nacionalidade, status social ou econômico. Apesar de tanta evolução tecnológica, o homem ainda padece dúvidas existenciais, e a maioria busca, na divindade, um bálsamo para curá-las, como se fosse uma saída terapêutica. No Brasil, a religião tem papel importante no tecido social, bem como a pluralidade de credos, defendida no artigo 5º da Constituição. Herdamos o catolicismo dos portugueses, imposto como religião oficial do Estado até a constituição republicana de 1891, que determinou o Estado laico. De lá para cá, hou­ve mobilidade entre as religiões, mas o brasileiro ainda é majoritariamente cristão, ou seja, 89%, de acordo com o último censo do IBGE, de 2000. Daí que se justifica o ditado popular que “Deus é brasileiro”. No atual censo, que ainda não foi finalizado, será levantada a realidade da evolução de religiões (veja quadro), mas números anteriores apon­tam que o brasileiro é um povo crente, cheio de fé.

Para o professor e doutor em filosofia Flávio Senra, coordenador do mestrado em ciência da religião na PUC Minas, o brasileiro é um povo sincrético por natureza. Em sua opinião, a religião funciona como um horizonte articulador de sentido. “É uma maneira de as pessoas se organizarem, da compreensão do porquê e do para que somos. Ela regula e determina padrões que contribuem para a formação de princípios morais e éticos. Qualquer metáfora religiosa não é explicativa, apenas dá sentido”, diz. Segundo o pesquisador, há no país uma privatização do sagrado, na qual cada um faz seu pacote religioso. É o católico que gosta de tarô, que vai ao centro espírita receber passes, que acredita em horóscopo, que põe oferendas a orixás. No último cen­so, mais de 8% da população declaram-se sem-religião, o que não significa que se trate de ateus. São pessoas que não têm vínculos religiosos, mas que usufruem de múltiplas religiões. “ É um produto da contemporaneidade, fruto de um processo de hiper valorização do autônomo”, diz Senra.

De acordo com o filósofo e doutor, atualmente vigora um discurso religioso, católico e evangélico, que poderia ser chamado de neo-pentecostalismo. “As pessoas buscam as igrejas nem sempre para a contemplação ou para crescimento intelectual ou espiritual. Agora o engajamento religioso, de matriz muito individualista, é: que jogo estabeleço com o sagrado para vencer a batalha que o mercado me impõe? O que faço para ganhar aquela Ferrari ou melhorar de emprego? É uma interpretação livre da matriz calvinista, da prosperidade. A parte negativa seria fazer de Deus um office-boy para assuntos mercadológicos. O lado positivo seria ajudar muitas pessoas a organizar a vida, inclusive o lado econômico.

Desde Platão, a humanidade tem obsessão pela verdade e as religiões buscam o monopólio da verdade. Hoje Deus tem múltiplas faces, diante desse vasto coquetel religioso. É o caleidoscópio do Divino, com fragmentos do divino. Quem saberá o que é Deus? Vivemos confusamente aquilo que, como fundamento, pode ser uma verdade bonita: que de Deus não se tem imagem, não se tem nada definido, é o numinoso, é o mistério que escapa, aterroriza e dá sentido. Para Senra, a humanidade vive hoje na busca de sempre. Não está melhor nem pior. Está confusa, porque o cardápio religioso é farto e acessível na ponta dos dedos, via computador. Maximizou-se uma pluralidade que sempre existiu. É o que o teólogo alemão Rudolf Otto (1869-1937), um dos pais da fenomenologia religiosa denominou numinous (do latim numeN=divino), que é a sobreposição do racional ao aspecto não-racional. “O que não se pode dizer não se pode entender. Sentimento é tudo. O nome é nada”, pregava Otto.

Neste fim de ano, quando muitos cristãos celebram o Natal e normalmente há maior proximidade com o Sagrado, a Viver Brasil conversou com líderes e fiéis das mais representativas religiões (em números absolutos, baseados no censo do IBGE) para saber como é essa relação de fé. Como as pessoas lidam com Deus ou com o sagrado (para aquelas que não cultuam divindades) e também como interagem com sua religião. O resultado é um exercício que passa pela mesma origem: o amor, o respeito ao próximo, a defesa da ética e principalmente, da tolerância religiosa.


Budismo

“Muita gente acha que budismo é filosofia, é religião, é modo de vida. É tudo isso”, afirma Salim Zaidan, psicólogo, aluno de budismo e coordenador do Centro de Budismo Tibetano Chagdu Dawa Drolma (que significa Lua de Tara), em Casa Branca (Brumadinho), região metrpolitana de Belo Horizonte. É filosofia porque questiona tudo e todos os aspectos da existência. Como religião, propõe mudança na maneira de ser, em nível espiritual, que faz com que amadureçamos a mente e consigamos adquirir condições de uma vida mais saudável nesse caminho; e é também uma ciência porque na medida em que se repetem os métodos que Buddha deixou alcança-se o mesmo resultado, ou seja, chega-se à Iluminação. E é um modo de vida, já que a proposta do budismo é a ecologia universal, em que todos têm os mesmos direitos e merecem ser felizes. “A vida é um processo. A verdade fundamental do budismo: tudo é impermanente.” Zaidan explica que o budismo é uma religião muito dura, porque não tem consolo, ela não alivia em nada, nem joga a culpa em terceiros. Tudo é baseado em mérito, não há sorte, não existem coincidências. Não existe certo ou errado, existe equívoco, que é a ignorância. Deus, no sentido simbólico, quase uma personificação humana, não existe no budismo. Deus é a realidade plena, tudo aquilo e qualquer mente que tiver qualidades de compaixão, amor pleno e indiscriminado é uma mente divina, perfeita.

Renata Guimarães Alvarenga (foto), 25 anos, publicitária e formanda em artes plásticas, pratica budismo há seis anos. Ela nasceu em uma família católica, mas não havia uma conexão que a prendesse. Em seu quarto há imagens de Santa Rita, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida, santos que sua mãe também cultua. Foi sua irmã Fernanda quem começou a freqüentar aulas de meditação, com um grupo budista. Um dia, Renata resolveu acompanhá-la. “Foi uma sintonia intensa, que ocorreu de forma gradual. Do que mais gostei é que não há pressões, nem obrigações”, diz. A meditação funciona para ela como excelente ferramenta. Nos dias em que está mais ansiosa, pega um CD, recita mantras, e com isso se acalma.

Candomblé

Sandra D’Oiá, 55 anos, mãe-de-santo há 35, e Ogã Aldair de Odé, 55 anos,
pai-de-santo e praticante há 40, pertencem à Nação Jeje Mahim, da casa Seja-Hunde. Eles explicam que no candomblé os orixás têm relação direta com o ser humano. “Para nós, a Terra é um grande berçário espiritual, para onde viemos em sucessivas reencarnações para nos aprimorarmos. Nosso Deus maior é Olorum (Deus Criador), representado por uma luz branca”, diz Sandra. Outros seres divinos são: Exu, “que muita gente infelizmente associa equivocadamente ao demônio, e que é, na verdade, um deus puro.” Ogum é o deus das Guerras; Ossanhe, das Folhas; Obaluauê, da doença; Oxóssi, das matas e da caça; Oxumarê, senhor do arco; Íris, deus das serpentes; Xangô, o senhor dos trovões e da justiça; Iansã, rainha da tempestade e de raios; Oxum, rainha das águas doces e do amor, da vida; Iemanjá, rainha dos mares e águas salgadas; Nanã, senhora dos pântanos e da areia movediça. O professor e cabeleireiro Nilsilva Dias da Silva, 42 anos, está no candomblé desde que nasceu.

Seu ritual diário é meditar bastante. “Cuido do meu santo, coloco canjica em oferenda para ele, acendo velas. Vivo para o meu santo, mas não há nada de fanatismo.”

Catolicismo

Padre João Batista Libânio é mestre em filosofia e doutor em teologia, professor emérito da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Para ele, Deus é a projeção dos desejos do ser humano, seria uma alienação. A modernidade é atéia, tanto em sua natureza quanto em sua concepção filosófica. Já a pós-modernidade é uma certa radicalização de conceitos da modernidade, mas que valoriza muito a subjetividade. “É a pós-modernidade que favorece o excesso do fenômeno religioso. Vivemos uma explosão religiosa. Agora hirpervaloriza-se o subjetivo.” Ou seja, cada pessoa, de certa maneira, pode forjar sua própria religião. Constrói sua religião pegando pedaços de outras sem se importar com a coerência entre elas, há uma justaposição não-coerente das partes. “O que de fato diminuiu foi a força das instituições religiosas como poder, como era no passado. Nesse sentido, a socióloga francesa Danielle Hervieu-Léger fala em ‘peregrinos convertidos’. Numa metáfora simples, Deus virou um cabide no qual se pode pendurar muitas roupas”, afirma Padre João. Segundo ele, para os cristãos, isso significa uma fluidez de Deus. Ocorre perda de consistência. Há certo vazio de sentido na sociedade, que está muito hedonista, materialista e individualista. O religioso preenche esse vazio. No século passado, o ponto de referência entre o homem e Deus era mais claro. Hoje, perdeu-se essa referência, mas o imaginário religioso ainda persiste. “Outro dia, fui a uma missa de sétimo dia que estava lotada, em pleno cemitério. São coisas que vão se perpetuando, e acabam unindo pessoas de diferentes credos.” Dietrich Bonhoffer, um pastor alemão protestante luterano que participou de um complô contra Hitler, escreveu uma carta onde previa que iríamos entrar em uma época a-religiosa. Ele anunciou a morte da religião. Errou em sua previsão, mas acertou em visualizar a perda de poder e força das instituições religiosas. Há uma espécie de difusão do religioso. “A clareza de um Deus, que reúne a Trindade, começa a ficar diluída”, ressalta Padre João.

Protestante

O pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Paulo Cézar Ferreira, fala da crença em um Deus pessoal. “No Gênesis, vemos que Deus criou Adão e que estabeleceu com ele um vínculo pessoal, rompido a partir do pecado original. Em todos os tempos, o que o homem buscou foi restaurar, refazer esse contato. Daí a origem da palavra religião, que quer dizer religar”, afirma. Segundo o pastor, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens, já que ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’. Deus é justo, Deus é amor, e o maior símbolo é a cruz, pois é a prova do amor supremo de Deus, que entregou seu filho único aos homens. Deus abomina o pecado. A metáfora da ovelha desgarrada, cujo pastor sai em sua busca, a encontra e faz festa entre amigos, é uma alusão ao pecador que se distancia de Deus. Para ele, arrependimento é algo que todos precisam experimentar, é um dos maiores milagres, pois destaca a comunhão com Deus. “Cremos na ressurreição dos mortos, pois a Bíblia diz que Jesus irá voltar para liderar seu povo. É fundamental também a presença nos cultos, como também é essencial a oração diária. O cristão genuíno é alguém que renasceu para a comunhão com Deus”, finaliza o pastor Paulo.

Daniela Janaína Souto Silva, 32, jornalista, converteu-se à religião evangélica há 5 anos. Ela acredita que antes de tudo a Palavra (as verdades bíblicas) tem de falar ao coração. Não pode ser uma relação forçada. “É a minha fé que me põe nos trilhos, diante das dificuldades da vida. Não acredito que seja correto lotar as igrejas, como vejo, de gente sem propósito algum, que vai ali movida mais pelo desespero do que em busca de amor ou de autoconhecimento. As pessoas perderam a noção do que é realmente cultuar Deus”, afirma. Foi só depois de achar que estava realmente amadurecida religiosamente é que Daniela optou pelo batismo. “Ao contrário do católico, o evangélico tem uma decisão pessoal, instransferível.”

Espiritismo

A reencarnação é um dos pontos fundamentais da Doutrina Espírita Kardecista. O espírito é imortal, pré-existe à vida atual e sobrevive à morte do corpo físico. Marta Antunes Moura, diretora da Federação Espírita Brasileira, afirma que pela lei de causa e efeito (ação e reação) o espírito tem liberdade para fazer as escolhas que assinalam o seu processo evolutivo. Como evolui nos planos físico e espiritual, colhe sempre os frutos das ações: bons se a pessoa se esforçou em fazer o bem, ruins se cultivou ou alimentou o mal. “Deus sempre é a manifestação de justiça, amor e misericórdia. Não existe diabo ou demônio, que seria simbolismo do estado de ignorância ou de imperfeição. Pelas reencarnações sucessivas tais espíritos progredirão e conquistarão virtudes”, diz Marta. Os princípios do espiritismo são: Deus como Pai e Criador Supremo; Jesus – guia e modelo da humanidade; Espíritos: seres inteligentes da criação que povoam os mundos como encarnados e desencarnados.

Fátima Carretero (foto), empresária e bailarina, é católica, devota da Virgem del Rocío, santa cultuada na região espanhola de Andaluzia, no sul do país basco. Seu primeiro contato com o espiritismo foi quando teve diagnóstico de endometriose, ainda recém-casada. “Fiz uma cirurgia espiritual. Naquela época, fiquei ali, no centro espírita, curiosamente observando tudo. Nunca mais tive dor de estômago e fui curada do problema no útero”, afirma Fátima. “Minha vida mudou para melhor depois que passei a freqüentar toda semana esse centro espírita.”

Judaísmo

O Rabino Leonardo Alanati, da Sinagoga e Congregação Israelita Mineira Tiferet Israel, diz que entre os vários nomes de Deus, é usado, no culto religioso, Adonai e Elohim. Os judeus mais observantes usam também o HaShem. Porém, entre o pessoal mais moderno usa-se apenas o nome Deus. “Sou de uma linha mais moderada, há colegas rabinos que ficam chocados, pois mantemos na sinagoga cursos abertos a qualquer pessoa, temos alunos de diferentes denominações religiosas, inclusive de Cabalá. O Brasil é um exemplo de convivência inter-religiosa pacífica”, afirma o rabino. Para a religião judaica, Deus é abstrato, não existe figura nem nada que O represente. “Não cremos em destino, e sim no livre-arbítrio. Deus pode planejar que alguns eventos bons ou ruins ocorram em nossas vidas, e esses eventos podem ser também conseqüência de nossos atos e escolhas.” Os dez mandamentos são muito importantes, porque ligados à justiça, algo que os judeus sempre buscaram. “Também praticamos muito a caridade, mas não essa que o brasileiro conhece, e sim o que chamamos de justiça social, para corrigir disparidades econômicas”, completa o Rabino Leonardo.


 
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