Sexta, 18 de Maio de 2012
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Responsabilidade Social

Almas Solidárias

Eles se dedicam horas, dias, semanas, uma vida inteira a ajudar os que mais precisam

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Pedro Vilela, Marcus Pinto, Robson Regato, Divulgação, Henry Yu


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André Menezes: “Tudo que eu posso fazer, faço. Dou beijo, brinco, levo as crianças pra passear”

Como poetizou Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Seja qual fome for: de alimentos, de carinho, financeira, de trabalho e outras carências. Zilda, Selma, Raí, Jairo, Ângela, Célida, Oscar e André compartilham da mesma filosofia de vida: suprir diferentes fomes sociais. Eles integram uma legião composta por 42 milhões de brasileiros – dados da Or­ga­ni­zação das Nações Unidas (ONU) – que, sintonizados numa mesma freqüência, dedicam-se ao trabalho voluntário e de solidariedade. Doam parte de um dia, algumas horas, a vida toda para ajudar alguém, crianças com câncer, abandonadas, carentes, órfãs, idosos em dificuldades, jovens sem trabalho, populações carentes.

Há dois anos, faça chuva ou sol, o publicitário André Menezes, 36, passa todas as tardes de sábado na Casa de Apoio Aura à Criança com Câncer. Ele sabe da história de todas as crianças. Acompanha a luta diária de cada uma contra a doença. No Brasil, a cada ano, surgem 12 mil novos casos de câncer entre crianças de 0 a 14 anos. O índice de cura chega a 70% quando a doença é diagnosticada a tempo. “Tudo que eu posso fazer, faço. Quando chego à Aura, dou beijo, brinco, compro chocolate, levo as crianças para passear”, diz André. Ele acredita que a alegria de ver uma criança curada e a tristeza por lidar com a morte de outra têm de se refletir em um só gesto no voluntário: o da solidariedade. No dia da entrevista, estava com fotos de passeios com várias crianças e ado­lescentes por restaurantes, Pre­sépio Pipiripau, shoppings, pizzari­as, confeitarias. Conta a história de cada uma delas. Muitas se curaram, outras, não. Para ele, apesar de o trabalho em qualquer causa ser uma opção individual, é preciso comprometimento. “O despreparo pode levar ao abandono do compromisso. Ele passa a se dedicar a uma relação humana, rica e solidária e não a uma atividade fria, racional e impessoal”, diz.


O ex-jogador Raí: investimento de 1,2 milhão de dólares e 1,5 mil crianças e jovens atendidos
O ex-jogador Raí: investimento de 1,2 milhão de dólares e 1,5 mil crianças e jovens atendidos

Essa relação solidária ensinou o ex-jogador da seleção brasileira de fu­tebol, Raí de Oliveira, 43 anos, que a mobilização é uma das principais armas para modificar a injustiça social do país. A sua começou de forma tímida, com a participação, ainda jogador, em causas filantrópicas. A entrada definitiva foi em 1998, quando ele e o também jogador e amigo Leonardo Nascimento de Araújo investiram 1,2 milhão de dólares do próprio bolso na criação da Fun­dação Gol de Letra, que atende 1,5 mil crianças e jovens. Há dois anos, ele e mais 34 atletas, entre eles Magic Paula, Lars Grael, Ana Moser, Kaká, também fundaram a ONG Atletas pela Cidadania, para utilizar o poder de mobilização de todos para causas sociais. “Sempre tive vontade de montar um projeto e, conforme fui tendo mais sucesso, senti que o dever dessa participação também crescia”, conta.

Hoje, Raí tenta dividir seu tempo entre sua empresa, a Raí Promoções e Participações, e as duas ONGs. Ele afirma que se fosse possível colocar as várias atividades em uma balança, esta tenderia pelo menos 60% às causas sociais. No caso da Gol de Letra, ora Raí está na Vila Albertina, na zona norte de São Paulo, ora no bairro do Caju, no Rio de Janeiro. Em comum, as duas comunidades abrigam problemas como violência, desemprego e tráfico de drogas. Têm baixos índices de desenvolvimento humano (IDH). As crianças ficam no projeto quando não estão na escola. “Todo mundo na vida quer ter um retorno da energia gasta e o que posso falar é que estou satisfeito com o que conseguimos até agora”, diz Raí.

Ângela Fragoso: quase um milhão de dólares arrecadados para diversas instituições
Ângela Fragoso: quase um milhão de dólares arrecadados para diversas instituições

E fazer o bem é um dos lemas na vida da socialite Ângela Fragoso Pires. Ela é a responsável pela tradicional festa black tie Nuit de Noël, no Copacabana Palace (RJ), evento que já arrecadou, em 16 anos, quase 1 milhão de dólares para diversas instituições. Relembra os pais como primeiros exemplos de ajuda ao próximo. Ele médico, ela dona de casa, eram referência de solidariedade na pequena Conceição da Barra (ES) dos anos 30. “Meu pai não cobrava por suas consultas. As pessoas ficavam tão gratas que o presenteavam com cana-de-açúcar, abóbora, patos, galinhas.”

Tudo começou no final dos anos 70, com Ângela promovendo jantares para ajudar jovens talentos da música clássica. O dinheiro arrecadado se transformava em bolsa de estudos para os músicos. Sempre apaixonada pelo Natal, ela pensou em uma festa que pudesse reunir o charme da data com solidariedade. Nascia Nuit de Noël, que reúne diversas pessoas em uma noite black tie. O convite dá direito a apresentação clássica. Entre os convidados dos últimos anos, Arnaldo Cohen, Nelson Freire, Wagner Tiso, Arthur Moreira Lima, Bibi Ferreira, Marília Pêra, para citar alguns. O coquetel e o jantar são assinados pelos chefs do Copacabana. Neste ano, o preço do convite avulso da festa, que ocorreu no último dia 4, foi de 500 reais.

Nas doações, Ângela gosta de pensar em longo prazo. A idéia é atingir o maior número de pessoas. Assim, um hospital recebe aparelhos cirúrgicos que beneficiam milhares de pacientes; uma creche ganha uma minibiblioteca; outra, uma reforma geral. Ela não repassa o dinheiro diretamente. Faz questão de contratar o mestre de obras, fazer tomadas de custos dos materiais, acompanhar toda a obra. “Confio demais nas pessoas, mas sei que o dinheiro pode se perder em  outras necessidades das instituições. Por isso, fazemos essa supervisão até o resultado final”, diz.

Selma Teixeira: 150 marmitas por semana para a população de rua de BH
Selma Teixeira: 150 marmitas por semana para a população de rua de BH

Para outras pessoas, a solidariedade se confunde com histórias de fé. Esse foi o caso do empresário Jairo Siqueira Azevedo, 69. Ainda um menino de 12 anos, ficou profundamente tocado com a trajetória de devoção e ajuda ao próximo de São Vicente de Paulo. Passou a ter como mandamento o amor aos pobres e ao próximo. Primeiro, em 1978, iniciou a distribuição de alimentos e roupas à população carente do bairro Primeiro de Maio. Depois de alguns anos, criou a Associação de Promoção Divina Providência, que atende a 47 projetos assistenciais, dentre eles a Cidade dos Meninos, o Lar dos Meninos, e um contingente de 40 mil pessoas. Um dos maiores orgulhos de Azevedo é a Cidade dos Meninos, que conta hoje com cinco mil adolescentes entre internos, semi-internos e externos. Eles freqüentam escolas de ensino médio e fundamental, reforço escolar, cursos profissionalizantes e atividades de esporte, lazer e cultura, formação moral e humana. “Acredito que a solidariedade é o contrário do egoísmo, da vaidade. Ela nos faz enxergar o outro e seus problemas”, diz. Há sete anos, Azevedo tomou uma atitude radical em prol de seus projetos sociais: deixou o controle da empresas no Gru­po Seculus para se dedicar inteiramente à causa. A meta é que até 2013 aumente para 100 mil as pessoas atendidas pela Associação. “Podem até perguntar quais os dividendos que terei com Deus pelas minhas ações. Aposto em nenhum. É um trabalho que faço por diversão e prazer”, fala entre risos.

Prazer em ajudar é também o estímulo da dona de casa Selma Serra Teixeira, 72. Apesar da fragilidade física por causa de uma doença, todas as segundas-feiras ela acompanha a movimentação em sua casa, no bairro Santa Efi­gênia, para a produção de 150 marmitas, distribuídas por um grupo de oito pessoas para a população de rua de Belo Horizonte. Além das marmitas, há também doações de roupas e remédios. A rotina semanal se repete há 11 anos, com o preparo de um jantar substancial – comida mineira está sempre no cardápio. A abordagem é sempre a mesma: “Aceita uma marmita?” É uma espécie de senha para conhe­cer parte dos 1.164 moradores de rua de Belo Horizonte, segundo cen­so realizado em 2006 pela Prefeitura.

Dona Selma  se lembra de um mendigo que sofria de solidão. “Quan­do minha nora ofereceu a marmita, ele disse que apesar da fome, preferia que ela conversasse um pouco. Estava muito sozinho.” Além de fazer a sopa semanalmente, dona Selma está reunindo duas pessoas para ajudá-la na confecção de enxovais de bebês para serem doados. “Se cada um de nós fizesse algo por pelo menos uma pessoa, o mundo seria outro.”

Jairo Azevedo: 47 projetos sociais e 40 mil pessoas atendidas
Jairo Azevedo: 47 projetos sociais e 40 mil pessoas atendidas

O casal Célida Maria Pires Braga e Gledson Braga Evangelista levou esse princípio ao pé da letra e com sobras: adotou nada menos que 53 crianças e não recebe nenhuma ajuda oficial para sustentá-las. Conta com uma rede solidária que vai da padaria próxima de casa a pessoas que fazem doações individuais e instituições educacionais que oferecem bolsas para as crianças. “Desde menina, ficava profundamente sensibilizada com crianças, queria cuidar delas e esse desejo se fortaleceu na minha adolescência”, conta Célida.

Mas foi na faculdade, depois de sua formação em serviço social, em 1988, que ela resolveu se dedicar por inteiro a esse cuidado. Primeiro foi Carlinhos, com 5 anos de idade, que precisava de apoio até que o pai saísse da prisão. Depois chegou Maria, vinda do Vale do Jequitinhonha e de uma família muito pobre. “Nessa época, eu dava aulas de piano e todo o meu salário era para pagar o aluguel e a comida para eles.” As crianças foram chegando às vezes sozinhas, outras em grupo – ela já recebeu cinco irmãos de uma só vez. O jovem Gledson ficou curioso em conhecer a jovem obstinada que cuidava de tantas crianças. Acabaram apaixonados e casados, com dois filhos biológicos. Em 1998, de­ci­diram não mais adotar nenhuma criança e só continuar com os 55 filhos que hoje têm idades entre 6 e 26 anos. Mas a resolução não significou menos trabalho. Os dois criaram a Casa Abrigo do Projeto Família Feliz, que já recebeu mais de 300 crianças que necessitam de cuidados especiais até serem adotadas ou voltarem para suas famílias de origem. “Convivo com milagres todos os dias”, diz Célida.

Zilda Arns: redução do índice de mortalidade infantil com trabalho da pastoral
Zilda Arns: redução do índice de mortalidade infantil com trabalho da pastoral

Milagres presentes também na vida da fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann, 74. Quando iniciou o trabalho, em 1983, visitava algumas comunidades – hoje a pastoral atinge mais de 4 mil municípios brasileiros – e se assustava com a desnutrição das crianças. Desenvolveu uma metodologia em que as mães são educadas por líderes comunitários para o combate às doenças mais facilmente preventivas da infância e à marginalidade das crianças. “O resultado é que, em média, a Pastoral da Criança está conseguindo diminuir, anualmente, o índice de mortalidade nessas comunidades em 5 mil crianças”, conta.

Quando pensa em solidariedade e em sua vida, a doutora Zilda, como é chamada por todos, lembra os pais e a infância em Forquilhinhas, Santa Catarina. “Tudo era para o bem comum e isso fazia parte da cultura da cidade”, conta. Médica pediatra, trabalhando em hospitais públicos, ela diz que sentia grande sofrimento quando via a falta de conhecimento das mães em relação a doenças como diarréia, pneumonia, sarampo, queimaduras. “Sem­pre levava muito tempo explicando a causa desses males porque acreditava que a educação das mães era primordial para o cuidado maior dos filhos. Quando fui chamada para a Pastoral, pude ampliar esse trabalho.”

O casal Célida e Gledson com parte dos 55 filhos
O casal Célida e Gledson com parte dos 55 filhos

Atualmente, a Pastoral acompanha, aproximadamente, 2 milhões de gestantes e crianças menores de seis anos, em uma rede que conta com 270 mil voluntários. Há quatro anos, dona Zilda também coordena a Pastoral da Pessoa Idosa, em que 14 mil voluntários acompanham 129 mil idosos. “Acho que a solidariedade faz parte da construção de um mundo melhor. Todos perdem quando a desigualdade toma conta”, analisa.

Idosos solidários
Quando o médico Oscar del Pozzo se aposentou há 12 anos, a primeira constatação, depois de dar algumas palestras sobre envelhecimento saudável para idosos, era que esse público, além de estar desinformado e desunido, era bastante acomodado. “Eles queriam ficar quietinhos no seu canto.” En­tão com 68 anos, o doutor Oscar não deu chance para o comodismo. Uniu-se a um grupo de idosos e, juntos, fundaram a ONG Idosos So­lidários. O objetivo era o de luta: acabar com o preconceito contra idosos e por uma assistência à saúde mais justa.

Pelas contas do seu Oscar, muitos dos 14,5 milhões de idosos hoje no Brasil têm algum problema de locomoção ou necessitam de ajuda por estarem permanentemente aca­­mados. Resolveu produzir um vídeo, com o apoio do Hospital Universitário da USP e de um laboratório, de como cuidar desses idosos – com dicas sobre banho, alimentação, mudança de posição. A primeira remessa de vídeos seguiu, gratuitamente, para instituições be­neficentes e pelas contas do presidente da Idosos Solidários, ele já deve ter sido visto por pelo menos 600 mil pessoas. Atualmente o site da ONG conta com seis mil acessos mensais. A idéia é alimentá-lo permanentemente com informações para ajudar os idosos de todo o país. “Acho que ser voluntário é uma vocação da minha vida. Sinto-me bem ajudando o outro a melhorar sua qualidade de vida”, diz.

Oscar del Pozzo: “Ser voluntário é a vocação da minha vida”
Oscar del Pozzo: “Ser voluntário é a vocação da minha vida”

Tragédia e solidariedade

As cenas da tragédia de Santa Catarina, com enchentes que mataram cerca de 120 pessoas e desabrigaram mais de 80 mil, trouxeram ao brasileiro uma vivência dolorosa de ver quase em tempo real o sofrimento de pessoas que perderam filhos, pais, cônjuges, amigos, casas. A rede de solidariedade foi imediata: empresas se mobilizaram para criar campanhas de apoio às vítimas e o resultado são alguns milhares de toneladas de alimentos, roupas, produtos de higiene e saúde que saem de Minas Gerais todas as semanas rumo às cidades catarinenses.

O gerente da Locbras, Marcelo Amorim, mora em Curitiba (RS) e transformou a perplexidade diante da tragédia em ajuda para as vítimas. Mobilizou funcionários, fornecedores e clientes das 11 filiais da empresa e o resultado é a doação de duas toneladas de alimentos, materiais de higiene e limpeza e roupas. Somente de Belo Horizonte, seguiu quase meia tonelada de produtos e alimentos. “Há muitos desabrigados e algumas pessoas não têm nem o que comer. É uma situação muito triste”, diz.

A Tambasa Atacadista convocou fornecedores, funcionários, representantes e clien­tes em prol das vítimas catarinenses. “Para tornar todo o processo transparente, incentivamos os doadores a enviarem e-mail ao SOS Santa Catarina informando o que doou e a quem doou”, diz o diretor comercial Alberto Portugal Milwart Azevedo. As doações já ultrapassaram os 40 mil reais.

No Banco Mercantil do Brasil bastou um comunicado para a mobilização de todos os setores do banco. No total, a arrecadação atingiu centenas de caixas de materiais de limpeza e de higiene, cobertores, roupas de cama, e de alimentos não-perecíveis. “Todos nós ficamos sensibilizados com a tragédia e queríamos ajudar de alguma forma”, afirma Rodrigo de Assis Sales, supervisor de crédito consignado do Mercantil.


 
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