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ReportagemDiagnóstico ruim: uma chance a vidaA descoberta de doenças graves pode ser uma oportunidade para a percepção de novos valores e realização de projetos antes impensados
Texto: Nayara Menezes | Fotos: Arquivo Pessoal, Daniel de Cerqueira, Pedro Vilela / Montagem: Paulo Werner
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Angélica Siqueira e Silva, 42, é uma das atendidas pelo GAPC. Há um ano, um exame de rotina detectou o câncer de mama. “A primeira coisa que veio à minha cabeça foi: e se eu morrer, o que será de meus filhos?” Mas foram justamente eles que deram força a Angélica na luta contra a doença. Após cirurgia para retirada do nódulo e sessões de quimioterapia, ela foi considerada praticamente curada pelos médicos. Hoje Angélica tem outra visão da vida e tenta realizar todos os sonhos. Um deles é o curso de pintura. “Sempre tive vontade, mas adiava. Hoje não faço mais isso, não deixo nada para depois.” Ela diz que passou a dar menos importância a problemas cotidianos e valorizar mais os momentos de lazer. “Passar um final de semana ao lado de meus filhos é um presente. Agradeço a Deus todos os dias por essa oportunidade.” Quem também se regozija até mesmo diante de um simples caldo de cana é Juliana da Silva dos Santos Rocha Aguiar. Aos 31 anos, mãe de duas filhas, de 11 e 5 anos, ela está com um tumor maligno no cérebro. Sabendo da gravidade do quadro, Juliana já preparou as filhas no caso de ocorrer o pior e quer aproveitar cada momento ao lado delas e dos dois cachorros, outra grande paixão. Depois do diagnóstico, até coisas ruins receberam nova avaliação. “O engarrafamento ficou bom, acredita? Outro dia estava num trânsito horroroso e pensei: nada de reclamar. Pelo menos estou aqui.” |
Essa percepção de que somos mortais e que o tempo não é inesgotável é muito válida, na opinião do tanatólogo Evaldo Assumpção. “É fundamental tomarmos consciência da finitude da vida. É preciso entender o real sentido da expressão carpe diem. Viva o hoje como se fosse o último dia, mas lembre-se de que o amanhã pode existir.” Maria* demorou, mas entendeu o significado dessa frase. Ao receber o resultado positivo de um exame de HIV se desesperou. “Entrei em pânico. Saí fazendo várias loucuras. Gastei todo o meu dinheiro. Pensava para que guardar se eu iria mesmo morrer?” Aos poucos, ela foi voltando à razão e hoje sua vida é outra. “Vivo muito bem com o apoio da minha família e do Grupo Vivher. Tomo conta da minha mãe, malho, saio com amigos, adoro conhecer gente nova.” Maria afirma que o diagnóstico da doença a fez enxergar melhor os pequenos prazeres da vida. Ela sabe que vai morrer um dia, mas como faz questão de lembrar: “Quem disse que irei primeiro que você?” Ninguém sabe. Segundo o psicólogo Léo Matos as pessoas sempre projetam a morte para um futuro distante. Por isso, quando surpreendidas com uma doença incurável, geralmente há revolta, sofrimento e não-aceitação. A atriz Kris Carr demonstra claramente a negação da morte em vários trechos do livro. Mesmo ouvindo a opinião de diversos especialistas de que sua doença não tinha cura, ela insiste. “Estava decidida a mergulhar de cabeça e me transformar em uma viciada em cura 24 horas por dia. A palavra incurável não é uma afirmação, mas sim um desafio.” Apesar de transformar a experiência em algo positivo, os projetos de Kris parecem ser uma fuga à realidade que bate à sua porta: o fato de ter uma doença que, mais cedo ou mais tarde, a levará à morte. Segundo o tanatólogo Evaldo Assumpção, quem têm algum tipo de espiritualidade geralmente lida melhor com a situação. |
E quando há a aceitação, é uma oportunidade que as pessoas têm para resolver conflitos familiares, realizar sonhos, enfim, “partir em paz”. Essa é a avaliação do médico José Ricardo de Oliveira. Ele é um dos membros da equipe de cuidados paliativos da Unimed BH. Os profissionais cuidam dos doentes que não têm possibilidade de cura terapêutica convencional. Eles acompanham de perto os últimos instantes da vida de vários pacientes. O médico diz que há muitas angústias sobre esse momento. “As pessoas temem principalmente a dor e o pós-morte.” Mas quando há algum tipo de fé, esse processo é encarado de forma mais natural, concorda José Ricardo. Esse foi o caso da dona Eunice Domingues Torres. Aos 84 anos, ela, que lutava contra um câncer há 13 anos, esperou serena a hora do desenlace. A expressão de paz no rosto de dona Eunice refletia a certeza de missão cumprida. Mãe de cinco filhos, nove netos e um bisneto, ela fez questão de deixar todos muito bem amparados. Recentemente deu um apartamento a uma das filhas. “Não quero que falte nada a eles”, afirmou à Viver Brasil. Uma semana após a reportagem dona Eunice partiu, sem deixar nada a ser feito. “Planejar-se para a partida é, sem dúvida, uma grande vantagem”, afirmou o professor americano Randy Paush, poucos meses antes de morrer. Acostumado com a exatidão da física, o cientista ganhou notoriedade mundial em sua palestra de despedida. Na última aula dada na universidade, o professor surpreendeu os alunos ao anunciar que estava com câncer em estágio terminal. Paush sabia que não lhe restava muito tempo. Por isso, se empenhou durante meses na elaboração da aula. A repercussão foi tamanha que a palestra deu origem ao livro A lição final, que ainda hoje, após sua morte, figura nas listas dos mais vendidos nos Estados Unidos. Apesar da comoção que a história causa, talvez o que tenha transformado Paush em fenômeno foi justamente o fato de escolher falar sobre a vida. Na primeira frase de seu livro, o cientista simplifica o diagnóstico terminal como um problema de planejamento. A lição que o professor-cientista parece ter aprendido na marra foi que nem sempre a vida sai conforme a planejamos. Afinal, como reza o dito, “a vida não foi feita para ser pensada, mas sim vivida.”
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