Sexta, 18 de Maio de 2012
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Família

Bebês na cadeia

Elas deram à luz enquanto estavam presas e foram obrigadas a criar seus filhos nestas condições. Pelo menos até um ano de idade, quando os rebentos são separados das mães

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Nélio Rodrigues


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Gerar e dar à luz a um filho. Esse, sem dúvida, é um momento especial para toda mulher. Ver a barriga crescer, sentir o bebê mexendo, ver sua carinha ao nascer, ouvir o primeiro choro... Mas para algumas mulheres o cenário que se desenha durante a gravidez e logo após o parto não é bem esse. O ambiente nada convencional e propício à criação dos rebentos soa como um desafio a ser superado. Ao in­vés de estarem cercadas de amigos e familiares, elas estão confinadas, rodeadas por pessoas que mal conhecem. Sozinhas, não podem contar com ajuda e apoio das mães e de pessoas queridas. Elas, juntamente com seus filhos, estão encarceradas.

Para conhecer de perto essa dura realidade a Viver Brasil foi até a Pe­ni­tenciária Industrial Estêvão Pinto. É lá que ficam as gestantes presas do estado de Minas Gerais. Em uma ala separada das presas comuns, denominada creche, vivem cerca de 40 mulheres. A maioria com filhos recém-nascidos. Eles podem permanecer no local até os 12 meses de idade. Depois são entregues às famílias das detentas, a um abrigo de menores, ou em último caso para a adoção. A creche conta com cinco dormitórios com camas e berços enfileirados, lado a lado. Há ainda um lavatório, sala de televisão e um pequeno quintal, onde elas podem tomar sol. O espaço é pequeno, o que obriga a uma convivência próxima e intensa entre as presas. As crianças mal têm lugar para engatinhar ou ensaiar os primeiros passos.

Para amenizar o sofrimento de mães e filhos, o governo do estado está prestes a inaugurar o Centro de Referência da Gestante Privada de Liberdade. A intenção é oferecer tratamento mais adequado às mulheres e suas crianças. Além de um espaço maior, uma equipe multidisciplinar prestará atendimento médico, incluindo pré-natal, pós-parto, cuidados pediátricos com o bebê, assistência psicossocial, odontológica, educacional e social. As detentas esperam ansiosas pela inauguração do Centro. Ele representa a esperança de uma vida melhor para elas e principalmente para seus filhos. A seguir, um pouco da história dessas mulheres e a luta diária para criar seus filhos na prisão. E, ainda, o difícil momento da separação quando chega a hora de os pequenos irem embora.


Meiriane Souza Reis - 27 anos

Meiriane é a mãe da pequena Alice, a caçulinha do presídio, de apenas 1 mês.

A mãe é uma das mais calejadas dali.

Ex-usuária de crack, Meiriane conhece bem a vida nas ruas e no presídio. Já foi presa outras vezes. É a segunda filha concebida enquanto estava encarcerada. “Sofri muito quando me separaram da Ana Clara”, recorda-se. Além de Alice, ela tem mais cinco filhos, de três pais diferentes. Todos criados pela mãe. Ela confessa que não é uma pessoa muito fácil e que já teve problemas de convivência com as outras presas. Mas diz que está melhorando. “É muito menino junto. Algumas mães não olham direito, aí os meninos brigam. Daí, já viu né?” A detenta também reclama da falta de colaboração das colegas.

“Eu não tenho banheira ainda, sabe? Então tenho que pedir emprestada
para dar banho na Alice. Algumas me emprestam numa boa, mas outras
têm má vontade”, relata Meiriane.

Rejeane Aparecida dos Santos - 24 anos

Rejeane já esteve confinada por duas vezes. Ela é mãe de duas meninas e faz questão de avisar: “Todas do mesmo pai!” Isso soa como um trunfo por ali. Ela está presa com a pequena Evelyn Rafaela, de 4 meses. A primeira vez foi detida por roubo. A segunda por porte ilegal de armas e agora por tráfico de drogas. Mesmo com o histórico depondo contra, ela jura que dessa vez foi injustiçada. “Já usei droga, mas nunca vendi. Pegaram a pessoa errada.” Por não admitir o crime, ela diz que foi severamente punida. “Ameaçaram minha irmã de que se eu não assumisse, eles a matariam.” A promessa foi cumprida. A irmã foi assassinada. Segundo Rejeane, a parte mais difícil de estar presa é ficar longe do marido, que também está preso, e da outra filha, Hellen, de dois anos. Ela só vê a menina aos sábados de visita, levada pela prima que a cria. “Quando ela me vê, vem correndo e gritando. Na hora de ir embora é um sofrimento só, choramos muito. Ela não entende porque tenho que ficar aqui longe dela. Meu coração fica partido.”

Daiane Aparecida Carvalho - 18 anos

Com barrigão de nove meses, Daiane é uma das poucas no local que ainda não trazia um bebê a tiracolo. A menina aguarda a chegada do seu primeiro filho. Apesar da pouca idade, ela garante que a gravidez foi planejada. Porém, a prisão atrapalhou os planos da jovem garota. Segundo conta, ela estava no lugar errado, na hora errada. “Nunca usei droga. Sempre estudei e trabalhei.” Antes de ser presa, Daiane era babá e fazia bico como manicure. Ela afirma que estava trabalhando no momento em que foi presa. “Tinha ido à casa da minha cunhada fazer as unhas dela. A polícia chegou, encontrou a droga e levou todo mundo.” Segundo ela, o material apreendido era do cunhado. Daiane aguarda o julgamento e espera ser inocentada. Mas, caso a Justiça não acredite em sua história, ela já sabe o que fará.

“Vou entregar meu filho para minha mãe. Não quero criá-lo aqui dentro.”

Amanda Batista - 23 anos

Amanda foi mais uma entre tantas enquadradas nos artigos 33 e 35 – tráfico de substância entorpecente e associação ao tráfico. Mas a história dela é um pouco diferente. Ela engravidou no presídio, de outro preso. Como a família é de Ipatinga, dificilmente algum parente vai vê-la. “Os presos que não recebem visita podem se conhecer, conversar, namorar”, explica. E assim foi gerada Maria Eduarda. Amanda reclama do ambiente para criar a filha. “Antes era mais tranqüilo. Agora está muito cheio, dando muita fofoca e confusão.”

Alécia Alves Santos - 24 anos

Alécia era uma das mais emotivas na hora das entrevistas. Ela mal conseguiu conversar. Não era para menos. Naquele dia, sua mãe tinha vindo de longe para levar a neta. Ane Vitória, de nove meses será criada pela avó na Bahia, juntamente com suas duas irmãs. “É horrível ter que me separar de outra filha”, repetia Alécia aos prantos. Se for cumprir  toda a pena a que foi condenada, 10 anos, Ane Vitória provavelmente não reconhecerá mais a mãe quando ela sair da cadeia. 

Caroline Fernandes Margarida - 20 anos

A jovem Caroline, 20 anos, descobriu a gravidez dentro da cadeia logo após ter sido presa. Criar o filho ali não é nada fácil, segundo Carol. “Quando os meninos adoecem é uma dificuldade só. Custam para levá-los para o hospital. E quando levam a gente nem pode ir junto”, desabafa. O pai de Alexandre é a única visita que Carol recebe. Mas não é sempre que ele vai. Os pais moram em Araxá e criam a outra filha de Caroline. “É muito ruim ficar isolada do mundo e principalmente longe da minha filha. Minha mãe nunca vem
me ver, ela nem conhece o neto.”

 
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