Sexta, 18 de Maio de 2012
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Entrevista

Café com leite no ponto

Em entrevista exclusiva à Viver Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso preferiu a diplomacia e não apontou seu candidato para 2010 entre os governadores de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra. “Me sintototalmente à vontade para apoiar qualquer um dos dois.” Além de política, FH

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Pedro Vilela


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"Entre os dois meu coração balança". Foi parodiando o famoso tema carnavalesco que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso saiu pela tangente ao ser interrogado sobre qual o candidato mais bem preparado para a disputa presidencial de 2010, José Serra ou Aécio Neves. Com a diplomacia que lhe é peculiar, FHC prefere manter posição neutra entre os governadores de São Paulo e de Minas Gerais, os dois tucanos mais cotados para representar o partido nas eleições. Em visita a Minas, no entanto, o ex-presidente demonstrou entrosamento com o governador das Alterosas. Os dois chegaram juntos ao evento que trouxe Fernando Henrique à capital mineira – a inauguração da Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil. Para comemorar a chegada da ADVB a Belo Horizonte, a presidente da Associação, Gisele Lisboa, convidou o ex-presidente para proferir palestra da primeira edição do Prefácio Brasil. “É uma honra ter Fernando Henrique Cardoso na abertura oficial dos trabalhos da ADVB em Minas”, disse Gisele. Na ocasião, FHC concedeu entrevista exclusiva à Viver Brasil. Sucessão presidencial, crise econômica mundial e a vida sem dona Ruth foram alguns dos temas tratados.

Como é voltar a Minas Gerais?
É sempre um prazer vir ao estado e principalmente ser recebido pelo Aécio, que é um velho amigo meu. Temos uma amizade muito antiga. E não só com ele, mas também com seu pai, com quem estive hoje, e também tive com seu avô. Foi muito bom jantar e dormir no Palácio Mangabeiras ontem. Eu sempre aprendo muito conversando com Aécio. 

Como o senhor vê o Aécio Neves como candidato do PSDB à presidência em 2010?
Aécio é um governador com muita competência. Ele sabe planejar e delegar. Por isso, sem dúvida, é um ótimo candidato à presidência, inclusive conversei muito sobre isso com ele.

O PSDB hoje tem dois nomes fortes: o Serra e o Aécio. Em sua opinião qual é o mais preparado para a disputa?
Como diria Francelino, entre os dois meu coração balança. Mas o problema não é meu coração, mas sim o coração do povo. Todos os dois estão muito bem preparados. Nós sentiremos no momento certo qual dos dois estará mais bem sintonizado com o povo. Por isso, essa não deve ser uma decisão de cúpula, mas sim da população. Eu me sinto totalmente à vontade para apoiar qualquer um dos dois. Ambos têm histórico e competência. 

Uma vez o senhor declarou que é melhor ser ex-presidente do que presidente. Por quê?
O presidente tem responsabilidade muito grande, um trabalho extremamente pesado. Enquanto o ex-presidente já fez seu trabalho, se bem ou mal, a História vai dizer. E eu te digo, sou muito bem tratado em qualquer local aonde vou. Não uso segurança quase nunca.

E isso o senhor acredita que é fruto do trabalho realizado nos oito anos de mandato?
Não sei, acredito que seria mais fruto da cordialidade do povo brasileiro. O povo aqui é muito amável. Agora, em relação à presidência, não sou mais nada. Eu sou professor, dou aula.

O senhor ainda ministra aulas nos Estados Unidos?
Sim, mas resolvi parar este ano, depois de ter ficado viúvo.

Por quê?
A Ruth me faz falta lá. Antes ela me fazia companhia. Assim como eu, ela dava
conferências lá. Nós morávamos no norte dos Estados Unidos, perto de Boston, um frio danado. Já pensou? Não tenho mais vontade de ficar lá sozinho. Por isso, vou continuar com as palestras no exterior, mas, por enquanto, pretendo morar no Brasil.

Então resolveu ficar mais próximo dos filhos e dos netos?
Na verdade, moro sozinho em São Paulo. Meus filhos moram no Rio e em Brasília, mas toda semana eles estão em São Paulo. Assim fico mais próximo a eles, sim.

Nenhum dos seus três filhos seguiu a área da política. Isto é uma frustração ou um alívio?
Acho que um alívio. Porque não tenho que ficar preocupado em vê-los
enfrentar as dificuldades da política, que são imensas. É preciso ter vocação para essa vida. Você está sempre sob olhar público, fica sujeito a
maledicências. Assim, fora da política, eles ficam mais tranqüilos, em paz. 

O que o senhor não fez na presidência da República que, se tivesse
a oportunidade de voltar no tempo, faria?

Muitas coisas. Teria ajustado o câmbio antes do período que fiz. Talvez
tivesse mais empenho nas reformas que ficaram paralisadas e que o presidente Lula também não fez. Teria feito a reforma política, por exemplo. E muitas outras coisas.

E o que o senhor fez, quando estava no governo, que sente mais orgulho? 
Em primeiro lugar a democracia, que ajudei a consolidar, inclusive com a transição pacífica para o governo Lula. Em segundo, a estabilidade da economia. E terceiro, o início das ações sociais organizadas, como o sistema de Bolsa, como a Bolsa Educação. Essas bolsas começaram no meu governo e o Lula
deu pros­seguimento.

O senhor fez muitas críticas à condução do governo Lula em relação à crise mundial. Se o senhor fosse presidente hoje, para muitos o pior momento da história da economia desde 1929, o que faria de diferente do que tem sido feito?
As críticas que fiz foram em relação à postura do governo de querer minimizar a crise, afirmando que não afetaria o Brasil. E foi provado que a crise não só atingirá o Brasil, como já está atingindo. Ao mesmo tempo, ela é a pior crise da História, mas não para o Brasil, porque não veio diretamente em cima de nós. Estourou lá fora, mas está chegando aqui. Acho que eles demoraram a reagir. Agora o Banco Central fez o que devia ser feito. Mas vejo que ainda existe certa ilusão de que não vai acontecer nada. Acredito que o governo poderia tomar certos cuidados como, por exemplo, com o gasto público, pois a arrecadação vai diminuir ano que vem e eles aumentaram muito os compromissos. O Brasil não tem capacidade, nem condições de controlar essa crise, mas é preciso tomar certas medidas para prevenir os impactos.

Uma das marcas do governo FHC foi a menor intervenção do Estado na economia, inclusive com grandes privatizações. Agora com a crise, o que vemos é o Estado intervindo diretamente na economia. Como o senhor avalia isso?
O governo está intervindo em bancos. Eu não privatizei bancos. Privatizei empresas em que o governo não tinha condição de investir e precisavam de um salto tecnológico, como o se­tor de telefonia. Se as pessoas hoje têm fácil acesso à internet e à telefonia móvel é graças à privatização. Já segmentos como energia não foram privatizados, mas investimos em parceria público-privada. Outros se­tores como petróleo e os bancos convém deixar nas mãos do governo. E assim eu fiz.  O que está sendo feito não é estatização, mas sim o que chamamos de socialização das perdas, ou seja, salvar os bancos. Isso não é bom, mas é necessário no momento.

Qual a perspectiva da crise para o senhor?
Infelizmente não é boa, porque não conseguimos nem sequer apagar o incêndio. Há ainda falta de confiança no crédito. E não se sabe qual será a conseqüência sobre a economia real.

O senhor é um dos estudiosos do marxismo. Na obra O Capital, Marx falava que a falência do sistema capitalista era inevitável. Essa crise sinaliza que Marx tinha razão?
Não. O capitalismo não é um sistema falido, mas tem crises sempre. O próprio Marx dizia isso, que é um sistema que estará sempre em crise, ele nasceu de uma crise. É como a democracia, não é perfeito, não é bom, mas não há outro melhor. Até agora não apareceu outro sistema mais dinâmico. A China, por exemplo, só cresceu depois que entrou no capitalismo. Ele é ruim, penaliza as pessoas, acumula renda, é preciso o Estado para contrabalançar, mas é o único sistema possível agora. A crise está aí, mas uma hora ela vai acabar. Vai deixar conseqüências, mas vai terminar.

E o que o senhor está fazendo com seu dinheiro? Está aplicando na bolsa?
Não, eu não tenho dinheiro sobrando! O dinheiro das minhas conferências eu
nunca apli­­quei na bolsa, porque sempre fui pão-duro.

O senhor foi fotografado duas vezes com as meias furadas.
É verdade! Mas foi ótimo porque ganhei muitas meias.

Então hoje não usa mais meias furadas?
De vez em quando uso sim, não de propósito, mas por descuido.

Mas o senhor é vaidoso...
Vocês é que dizem. Mas eu não sou.

 

 


 
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