Sexta, 18 de Maio de 2012
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Artigo

Tempo de oração

“O silêncio entre as notas musicais é a pausa necessária para que haja música. O espaço entre as palavras é a pausa necessária para uma frase produzir sentido”

Texto: Fátima Rabelo
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Fátima Rabelo - Psicóloga

“Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo,
És um dos Deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo”    (Caetano Veloso)

A cada dia nos surpreendemos com o que, no senso comum, chamamos de velocidade do tempo. Há um sentimento, cada vez mais presente, e  generalizado, de que o ano voou.  A simultaneidade dos fatos traduz a complexidade da nossa época, nas questões relacionadas ao tempo. Não há pausa suficiente para assimilar acontecimentos, informações, mudanças. O indiscutível conforto que as tecnologias nos proporcionam, não deixam de cobrar seu preço. Na medida em que as pausas são cada vez mais difíceis, gera-se um certo robotismo, um esvaziamento na nossa capacidade de produzir sentido para a vida. Um achatamento da nossa capacidade de renovação. Faltam pausas. Do latim, pausa,ae, significa uma paragem ou interrupção momentânea de sons, movimentos, ações ou discursos. O silêncio entre as notas musicais é a pausa necessária para que haja música. O espaço entre as palavras é a pausa necessária para uma frase produzir sentido.

Ao contrário de representar impossibilidades, pausas são fundamentais para que haja limite ao excesso de demandas às quais ilusoriamente tentamos responder. Essa qualidade de pausa não representa estar inerte, passivo. É da ordem da subjetividade, da interioridade de cada um, e que pode incitar à criatividade. Há certa confusão entre criar escolhas que favoreçam a qualidade de vida e ser acomodado ou improdutivo. O excesso de agitação em que habitualmente levamos a vida, nos dá uma falsa impressão de que temos total controle sobre os acontecimentos. É comum escutar queixas do tipo quando posso parar? 

Para Freud “...o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização, é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa”. Identificados a uma lógica de mercado, sentimos culpa se descolamos o olhar para direções que aparentemente etariam fora do paradigma tempo é dinheiro. Há apenas 30 ou 40 anos, nossas relações se constituíam basicamente no face a face. Hoje elas são mediadas pela tecnologia. Re­la­cionamentos virtuais, internet, celulares, lap-tops, tantos recursos a favor do tempo. E no entanto nunca estivemos tão sem tempo.

 Na repetição  frenética de nós mesmos, julgamos ter total controle sobre a vida. E nos queixamos da falta de tempo para viver. Esse paradoxo, característica de nossa época, está presente nas conhecidas exclamações, “não dá para acreditar que o ano acabou e já  é Natal de novo”! Pela simultaneidade com que presenciamos os acontecimentos, pelo excesso de informações, pela promessa de que os objetos de desejo vão tamponar nossas faltas, ficamos perdidos, desbussolados. Não fazemos pausas para ressignificar nossos vínculos afetivos e nossos pactos sociais. Portanto, nesse final de ano quem sabe uma pausa?  Uma oração, um novo acordo com o Deus Tempo.

 
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