Sexta, 18 de Abril de 2014
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Entrevista

Frei Cláudio van Balen

Padre diz que sermão em que Francisco lembra que Deus nos salvou pelos sofrimentos de Jesus na cruz é o fim da picada. “Se você me provar que eu tenho que pagar para Ele me amar, não conta comigo, não”

Texto: Luisana Gontijo | Fotos: Pedro Vilela/Agência i7


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Vigário da Paróquia do Carmo, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, da qual foi pároco por mais de três décadas, religioso carmelita chega aos 80 anos com a agenda lotada de atividades, novos projetos e disposição de sobra para continuar incentivando o espírito de cidadania entre os fiéis. “Tenho pouco tempo de vida agora, de modo que vou aproveitar e continuar acordando o pessoal, semeando minhoca na cabeça deles, para que a fé seja mais pé no chão.” Além de celebrar duas missas semanais, frei Cláudio não se furta a dar palestras nos mais diferentes lugares, desenvolve um programa pela melhoria de moradias no Aglomerado do Morro do Papagaio e planeja começar, no segundo semestre, visitas semanais a presídios da região metropolitana, com o intuito de ajudar detentos a se reinserirem na família e na sociedade. Eterno defensor dos temas nos quais acredita, ainda que polêmicos e combatidos por alguns, ele se define como “meio cabeçudo, meio agressivo. Tem gente que se assusta comigo. Mas eu sou uma vítima do destino.”
 
As atividades do senhor mudaram depois que deixou de ser pároco?
Mudaram muito porque deixei de dirigir. De coisas espirituais, o que faço é celebrar uma missa aos domingos, às 11h, e a de sexta-feira à noite.  E, ainda, dou palestras, atendo gente, continuo ajudando na Pastoral de Rua, pessoalmente e financeiramente. Antes, as pessoas acabavam na rua por causa da bebida. Mulheres e homens bebiam, cometiam crimes, iam para a cadeia. A mulher era abandonada, com filhos, não podia pagar aluguel e acabava na rua. Então, tem aqui na diocese o Movimento da Pastoral de Rua. Há uma casa, onde se reúnem as crianças, as mães fazem bordado e outros trabalhos. Eu dou mais é assistência, visito, acompanho e angario fundos. A população de rua aumentou muito porque agora o motivo é o crack. E tem o trabalho no Morro de Papagaio, de melhoria das moradias. 
 
O senhor faz trabalho em presídios?
Estou visitando alguns para ver se acho tempo para ajudar um dia por semana. Visitei um em Nova Lima, onde há presos reclusos, em sistema semiaberto e aberto. Os muros são mais baixos do que de costume. O que é proposital, para que o preso pense se quer ficar lá. Até eu conseguiria pular o muro. Tem muitos voluntários lá, que chegam a levar detentos para as suas casas, para conhecer a vida em família. É um presídio mais humano. Escolhi esse porque tenho uns amigos que trabalham lá. Estou vendo se no segundo semestre vou um dia por semana. Quando visitei, reuni todo mundo e bati um papo. Contei da minha vida, da minha infância, do tempo da guerra, das cadeias, que os antinazistas soltavam e deixavam todo mundo fugir. 
 
O senhor espera que esse trabalho possa resultar em quê?
Acho que pode recuperar as pessoas para a família e para a convivência na sociedade. Já fui também em Betim. Há duas cadeias lá, enormes. São 5 mil presos juntos. De vez em quando, levamos um carro cheinho de livros. Nas celas cabem duas pessoas, mas tem no mínimo quatro. Ficam trancados 24 horas. Fazendo nada. Você acha que isso vai resolver? O ócio é fruto de crimes. Então, a única coisa que eles podem fazer é ler. Nem espaço tem para fazer uma escola profissional, como há no presídio de Nova Lima, onde podem aprender ofícios. Em Betim, é uma tristeza. 
 
O senhor falou a eles sobre sua infância. Como é sua história? O que o trouxe ao Brasil?
Nasci em 1933, na Holanda, em um lugarejo que ficava há seis quilômetros da capital do país. Era uma época difícil, por causa da crise mundial iniciada com a queda da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. Na Holanda, todo mundo perdeu praticamente tudo o que tinha em dinheiro. Meu pai possuia uma pequena fazenda de gado leiteiro. Mais um pedacinho de chão para plantar batatas, verduras, frutas. A gente morava na roça, tinha acesso às frutas, leite. Era apertado, mas fome a gente não passava. Depois, a partir de 1943, 1944, vivenciamos os bombardeios da 2ª Guerra Mundial. Os aviões dos aliados passavam lá por cima para chegar à Alemanha e bombardeavam. Com a minha família não aconteceu nada, mas, na vizinhança, sim. Em um colégio, morreram 100 crianças e umas 10 a 20 freiras. Depois da guerra, eu vim para o Brasil.
 
O que despertou o interesse do senhor pela Igreja Católica? 
As revistas que recebíamos. Além disso, eu tinha uma tia que era freira e trabalhava em Sumatra, na Indonésia. E ela já havia contado como era seu trabalho. E eu pensei:  Vou gostar de trabalhar assim, para o povão. Um dia eu vou. Aí, fui para o seminário. O Carmo tinha casas na Indonésia, em Java e aqui no Brasil. No sexto ano do ginásio, alguns alunos que queriam, se os pais permitissem, recebiam licença do seminário para estudar nesses países. Me juntei a uma turminha que pensava em vir um dia para o Brasil. Quando eu estava terminando o terceiro ano,  apareceu um frei que era vigário aqui em Belo Horizonte e foi lá passar férias. Aí, ele contou daqui e ficamos entusiasmados. Convenci o reitor e meus pais e acabei vindo antes do prazo. Eu tinha 16 anos. Fiz 17 no navio, a caminho do Rio de Janeiro, em 1950. O porto final era Santos (SP). Chegando ao Rio, era dia da eleição de Getúlio Vargas e estrangeiros não podiam descer. Mas, nós, sete rapazes, fizemos tanta bagunça, que o capitão suplicou: Por amor de Deus, saiam do navio. Aí ele deixou vocês desembarcarem. Ele deixou. Pouco depois fomos para Santos. Fomos para Itu (SP), onde era o seminário. Lá, estudei dois anos, no ginásio. Depois, fiquei um ano em Mogi das Cruzes. Em seguida, estudei três anos de filosofia e três de teologia em São Paulo. Me ordenei padre em 1959, fiz doutorado em teologia em Roma.  A minha cabecinha foi mudando, porque eu estudei a teologia antiga. E fui decompondo praticamente tudo o que aprendi. Fui renovando. Aí fiz minha tese sobre um assunto pouco falado naquela época: Porque Deus se tornou homem em Jesus. Hoje eu também não acho que é bem-visto não. 

E o novo papa, como o senhor vê o trabalho dele?
Com muita simpatia, no modo de ele administrar a Igreja Católica. Ele diz que o clero não pode ser uma alfândega, em que se tem que entrar na fila e o guarda vai fiscalizar tudo. Qualquer coisinha está proibida. Até hoje, o clero vem sendo o controlador: você casou, descasou e casou de novo, não pode comungar. Não pode casar na igreja. Aí, o papa diz: “Gente, vamos acabar com isso?” A mesa da comunhão é a da acolhida e não de expulsar. Então, vamos deixar de puritanismo, de legalismo. O papa vai enfrentar muita resistência, porque há séculos que nos educamos. Mas, na parte doutrinária, ele está um pouco atrasado.
 
Atrasado? Como o senhor define isso?
Há um mês li um trecho de sermão dele que diz que Deus nos salvou pelos sofrimentos de Jesus na cruz. Eu acho isso o fim da picada. Uma mãe de família tem que salvar um filhinho e tem que pagar um preço para amá-lo? Isso não tem cabimento. Se você me provar que eu tenho que pagar a Deus para Ele me amar, não conta comigo, não. Ou é de graça ou então, não. Jesus mesmo diz que tem que amar não só os amigos, mas também os inimigos. Quem vai me julgar, um dia, se é que tem julgamento, sou eu. Deus vai só me acolher. Talvez eu fique um pouco sem graça diante de Deus, mas, são Mateus, no capítulo 25, imagina como se fosse haver um julgamento final. Está todo mundo lá. Aí, Jesus aponta para uma turminha e diz:  “Vocês podem ocupar esse lugar.” Eles dizem:  “Mas nós? Nós fomos relaxados. Nem vínhamos à igreja.” Aí, Jesus responde:  “Não, mas eu estava na cadeia e vocês me visitaram. Podem entrar. Vocês aí também podem sentar lá”, continua Jesus. “Nós? Mas como? Nós nem acreditávamos em Deus.” E Jesus diz:  “Mas eu estava doente e vocês me ajudaram.” E Ele encaminha mais uma turminha para o mesmo lugar e as pessoas dizem:  “Nós nem acreditávamos no Senhor e fizemos até propaganda contra.”Jesus disse: “Tudo bem. Mas eu estava doente e vocês cuidaram de mim. Podem ir.” 
 
Que análise o senhor faz dessa passagem?
Com isso, Jesus contou uma cenazinha que mostra que crer em Deus não é importante. O que é importante são as relações que você constrói na vida. São as atitudes. Se você acolhe os outros, mesmo com erros, fraquezas, e tem preocupação de construir relações abertas, isso é o que importa. Deus não tem moral para condenar ninguém, porque não fui eu que me fiz, não fui eu que me dei o meu gênio. Foi o tal do  destino.  Eu tenho um gênio que, de um lado, eu herdei, mas de outro, sou meio cabeçudo, meio agressivo. Tem gente que se assusta comigo. “Frei Claúdio, tô fora.” Então, eu digo:  “Fui eu que me fiz?” Eu posso ser réu, mas eu digo, muito mais do que réu, eu sou vítima. Eu não sou só eu. Eu sou eu e as minhas circunstâncias. Eu não pedi para nascer daquele pai, daquela mãe, ter aqueles irmãos. Ter nascido na Holanda. Eu não pedi nada disso. Se dependesse de mim, eu teria nascido na Bahia.
 
No caso do papa, acha possível ele separar a parte doutrinária da prática?
Acho que sim. Na parte prática, de administrar a Igreja, de exercer o poder, ele tirou anel, crucifixo, a roupa cheia de frescura, mudou a cadeira. São coisas pequeninas, mas são sinais de que ele não quer mais revestir o poder da Igreja de banalidade. Porque tudo o que os bispos, cardeais e o papa usam vem do Império Romano. São sinais do poder. Mas Jesus disse:  “Vocês têm poder para servir. O maior é aquele que presta serviço”. Este papa está em um bom caminho. Eu também não posso exigir tudo dele de uma vez. Mas tem bom senso. Ele também não pode falar tudo. Talvez, lá dentro dele, não acredite que Deus nos salvou pelo sofrimento de Jesus, mas é a pregação tradicional. Se ele renovar em todos os setores de uma vez, o povo vai assustar demais. Mas, se eu estivesse no lugar dele, quem sabe não fizesse a mesma coisa? Tem que ir com calma. Sou padre. Não sou bispo, não sou papa. Quem quiser discordar de mim tem todo o direito. Acho que, com 80 anos, tenho pouco tempo de vida agora, de modo que eu vou ter que aproveitar. Vou continuar acordando o pessoal, semeando minhoca na cabeça deles, para que a fé seja mais pé no chão. 
 
Como é essa fé mais pé no chão?
É a fé em que o Deus não seja aquele lá de cima e de fora. Deus está dentro de nós, de tudo e de todos. Continuo defendendo que não devia haver a visão que nós chamamos dualista, de Deus lá e nós cá. Isso não existe. Tem muita gente ainda na igreja que sobe lá perto do sacrário e ajoelha-se diante das hóstias. Para isso não precisa ajoelhar-se. Tem que se ajoelhar diante dos outros. No sentido de respeitar, ajudar, conviver bem. É muito mais fácil esquecer os outros e se ajoelhar diante do sacrário. Na missa, o sacrário está lá e o padre se joelha. O correto seria o contrário: ele se ajoelhar na frente do povo, de costas para o sacrário. Mas, tudo bem, é uma tradição. Isso não muda de uma vez, mas é bom chamar atenção para ir se mudando aos poucos.
 
O senhor se diz vítima do destino?
É, de forças, muitas, que chamamos destino. Então, eu digo, o cara matou, consumiu droga, viveu na cadeia, ele é mais culpado do que eu? Eu acompanho o pessoal do Morro do Papagaio há 45 anos. Vejo lá que muitos deles não conhecem nem sabem quem foi o pai. A mãe enche a cara de bebida, está sozinha com uma penca de filhos. Para fugir da realidade, enche a cara. O menino está na rua. Os grandes o usam para entregar a droga. Ele não conhece outra alternativa. Ele vai crescendo e vai fazer o quê? Com a maior naturalidade, vai matar. Diante de tudo isso, você acha que Deus tem moral para julgar e castigar? Eu não acho que tem não. Temos que mudar a visão das coisas. 
 
Como é a rotina do senhor?
Eu acordo por volta das 5h30. A primeira coisa que faço é pegar um livro, ainda deitado. Eu me deito às 23h30, meia-noite, e vem muita coisa na minha cabeça. Lá pelas 3h eu acordo e vêm os pensamentos. Tenho várias agendas velhas perto da cama e vou rabiscando. Quando me levanto, começo a passar a limpo no computador. Grande parte do dia, hoje, é usar a cabeça e escrever.

 
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