Interface amigável. O termo é feio e diz nada, mas vira elogio quando aplicado a um produto tecnológico. Indica que a maioria das pessoas conseguirá usar o equipamento com facilidade. O Windows, por exemplo, é um dos maiores casos de interface amigável no mundo da informática, pois a possibilidade de acessar os programas contidos nos micros por meio de ícones agilizou a evolução da computação pessoal. Depois do Windows, nada prometeu tanta revolução no quesito interface como a tecnologia multi-touch, a mesma que permite operar um telefone celular só tocando a telinha, e promete ser a coqueluche do futuro próximo.
Pensou em iPhone? Está no caminho certo. O telefone celular da Apple, lançado no ano passado, foi o que abriu os olhos de consumidores de todo o mundo para as maravilhas do multi-touch. Basta tocar ou arrastar para executar centenas de operações. Mais fácil e inúmeras vezes mais confortável do que a digitação no pequeno teclado, as telas que respondem ao toque dos dedos prometem ocupar dezenas de dispositivos nos próximos anos, em especial os pequenos e portáteis.
Quase junto com o iPhone, a Microsoft apresentou a Surface, uma espécie de mesa de centro cujo tampo é uma tela multi-toque. Por meio dessa tela é possível arrastar fotos, vídeos e jogos apenas com os dedos. Um centro multimídia na sala de visitas. Além do preço inibidor – 10 mil dólares –, a Surface não pode ser levada no bolso e não viabiliza comunicação móvel, fatores que justificam a febre iPhone e quase nenhum conhecimento popular em torno da mesa mágica de Bill Gates.
Apaixonada pelo iPhone, a maioria dos consumidores passou a cobrar tela multi-touch dos demais fabricantes de telefones celulares. E, apesar de alguma resistência inicial em legitimar que a concorrente tinha razão ao apostar na interface do toque dos dedos, quase todas dedicaram 2008 a atender ao clamor. Só a Nokia retardou a decisão, mas já existem notícias de que trabalha na inclusão da facilidade nos próximos dispositivos.
Prova de que o consumidor está ansioso pelas telas touch screen, foi a receptividade pelo Touch Master, primeiro PC com a funcionalidade lançado no Brasil, em novembro, pela HP. Desenvolvido em parceria com a Microsoft, autora do software, o equipamento, com CPU e monitor integrados, tem todos os programas operados pelo toque na tela. “Mas, se o consumidor preferir, pode usar o mouse normalmente”, destaca Geraldo Melo, gerente de Marketing da Info Port, até agora única distribuidora de Belo Horizonte a revender o Touch Master. A certeza de que o conforto de operar o PC tocando à tela vai seduzir muita gente foi um dos motivos que levou a Info Port a trazer o equipamento para a capital na mesma semana em que foi lançado no Brasil.
Além da inovadora tecnologia multi-touch, a máquina encaixa-se no que o mercado chama de “parruda”. O microprocessador é Core 2 Duo de 2.16 Ghz, da Intel, e a memória RAM totaliza 4 Gb. “Foi concedida para ficar na sala e atender às demandas de entretenimento de toda a família. Só de disco rígido são 500 Gb e o monitor tem 22 polegadas”, destaca o gerente de Tecnologia da Info Port, Carlos Eduardo Gonçalves dos Santos. Como tecnologia de ponta tem seu preço, o Touch Master sai por R$ 6.900, mas, segundo Melo, não falta gente disposta a pagar para sair na frente. “Está difícil atender à demanda.”
O crescimento da tela sensível ao toque para múltiplas funções (daí o nome multi-touch) principalmente – e primeiramente – nos telefones celulares é porque o custo é muito menor em telas pequenas, segundo o diretor de Tecnologia da Philips Brasil, Walter Duran. Mesmo assim já existem algumas iniciativas em telas bem maiores. A própria Philips desenvolveu em conjunto com a LG um televisor LCD de 52 polegadas com tecnologia multi-touch, ainda indisponível para venda. Na verdade, a expectativa dos fabricantes é que a produção em escala de telas maiores sensíveis ao toque só ocorra em dois a três anos.
Fabricantes de computadores também desenvolvem equipamentos com telas multi-touch, a exemplo, a Samsung, mas nenhum modelo chegou ao mercado. Estudos diversos apontam que a maioria das marcas deve adotar a tecnologia em notebooks, já que ela dispensa o teclado, economizando grande espaço nesses aparelhos e, conseqüentemente, permitindo a redução de seu peso. A própria Asus, fabricante dos enxutos NetPCs, estuda o desenvolvimento de modelos com telas sensíveis aos toques.
E para não perder o trem da história, a Microsoft apresentou aos maiores desenvolvedores de softwares do mundo, no mês passado, algumas inovações do Windows 7, com lançamento previsto para 2009. Entre elas está o suporte nativo à tecnologia multi-touch; isto quer dizer que se a tela for sensível ao toque, o usuário não precisará ter software específico para a facilidade. O próprio sistema operacional cuidará de reconhecer a tecnologia e ativá-la.
Enquanto pelo menos metade do mundo demonstra acreditar que os dedos serão os senhores da computação no futuro, a Universidade de Tecnologia de Munique, na Alemanha, está desenvolvendo um painel No-Touch. Isso mesmo, não toque! Neste caso, para interagir com o sistema, o usuário só precisa flutuar as mãos sobre o painel. O toque só é necessário na hora de selecionar um objeto. Outra vantagem da tecnologia é a utilização de múltiplos cursores. Cada mão ou cada dedo podem ser rastreados e associados a um cursor para efeturar diferentes ações.