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JustiçaDe quem é a culpa?Quando uma falsa acusação pode destruir uma vida
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Pedro Vilela - Toni Pires e Obson Ventura/Folha Imagem
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Quando sua mulher morreu, Cleves não pensava em qualquer armação por parte da polícia. “Estava completamente absorto em minha dor e com pouca capacidade para raciocinar”, conta o jornalista. Mas, em poucos dias, a atenção de repórter experiente, acostumado aos trâmites da Justiça, despertou para o fato que havia algo muito errado nas investigações. Submetido a exames residuográficos, que deram negativos, Cleves repassou à Secretaria de Segurança Pública uma importante informação. “No dia seguinte ao crime, uma jornalista minha amiga recebeu um telefonema anônimo dizendo que os criminosos que haviam assassinado minha esposa pertenciam à quadrilha de um tal Dinei.” A informação foi descartada. Geralmente, a polícia tem um prazo de 30 dias para as investigações e para o indiciamento do acusado. No caso desse assassinato, alguns elementos facilitavam, e muito, a solução do crime. Uma das vítimas havia sobrevivido, o local do crime fora preservado, os exames periciais dessa vítima deram negativo. Havia até nome de suspeito. “Mas, cinco dias após o crime, fui indiciado formalmente pelo assassinato”, conta Cleves. O motivo? A polícia havia encontrado uma arma, calibre 38, próximo ao local do assassinato de Fátima, que pertencia ao cabo Natalício Ramos, do serviço secreto da PM. O soldado foi direto: havia vendido a arma para um homem que fora comprá-la para Cleves. Mais uma vez, vários elementos não se encaixavam na história. Natalício havia sido entrevistado por Cleves em novembro de 2000 para uma matéria sobre comércio ilegal de armas. A entrevista acontecera numa empresa de caça-níqueis, em que o PM trabalhava. Havia sido gravada pelo circuito interno de TV da empresa. Não houve conversas sobre arma, conforme ficou provado na gravação. Cleves nunca mais viu Natalício. “Esse homem a quem ele vendera a arma não tinha endereço, apelido, nome, telefone, e não havia qualquer testemunha para o fato dessa compra”, lembra o jornalista. Mas, você deve estar se perguntando: os exames residuográficos não foram negativos? Mais uma vez algo estranho aconteceu. Um par de luvas apareceu próximo ao local do crime em uma das diligências que a polícia faria no local, dias depois. Porém, um detalhe importante: as luvas não apresentavam resíduos de pólvora. “Esqueceram, na armação, deste detalhe”, ironiza o jornalista. Havia outros fatos que o inocentavam como o aparecimento de um taxista, que presenciara o assalto e aparecera para depor em seu favor. De nada adiantavam suas provas. Perplexo com os rumos das investigações, o golpe de misericórdia veio justamente de quem ele não esperava: de alguns colegas jornalistas. Várias das matérias da época não levavam em consideração essas falhas. Repórteres de TV de grandes emissoras, jornais e rádios mostravam em suas matérias o caso do jornalista que havia assassinado a esposa. Ao ouvirem Cleves, eram informados de todos os erros do processo. “Nenhum jornalista leu o processo. Faltou senso crítico, ética, competência. O noticiário execrou-me”, relembra. O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Aloísio Lopes, afirma que erros como os cometidos com o caso de Cleves se dão por causa de a imprensa estar muito apressada. “Não temos mais repórteres especiais e quando o profissional vai à delegacia, por causa da pressa, acaba ouvindo uma única versão. E o pior é que um escreve algo errado e os outros colegas embarcam na notícia falsa. Ele não escarafuncha e essa apuração sai como verdade absoluta”, diz Longe de abaixar a cabeça e esperar a condenação por essa verdade, Cleves ia à Delegacia todos os dias cobrar novidades sobre o caso. Ouviu de um amigo, que trabalhava numa emissora de televisão, que numa delegacia de Contagem uma mãe foi cobrar justiça pela morte de um filho. Chegou ao local dizendo que o assassino do rapaz era o mesmo que havia matado a mulher do jornalista. Cleves não teve dúvidas. Com os dois filhos mais novos, na época com 17 e 18 anos, e colegas de profissão, começou a fazer uma investigação paralela. Descobriu que os dois assassinos pertenciam à quadrilha de Sidney Alves Magalhães, o Dinei – sim, o mesmo citado no telefonema anônimo para a repórter –, e se chamavam Jucilei Ramalho Teles e Eliezer Ramos de Andrade. Repassou depoimentos à polícia e os nomes dos assassinos. Foi quase um périplo, em que Cleves assumiu vários papéis para provar o que estava claro desde o início: não havia cometido crime algum. O advogado do jornalista, Marcelo Leonardo, derrubou a tese de homicídio provando que a arma havia sido colocada no local do crime para incriminá-lo. Apena, caso Cleves fosse condenado, poderia chegar a 30 anos. Para Leonardo, o maior desafio do caso foi desmontar uma série de provas da polícia contra um cidadão comum. “Já conversei com Cleves e, caso ele queira, poderá propor uma ação indenizatória contra o Estado de Minas Gerais, pela prática dos servidores públicos no seu caso”, afirma o advogado. Atualmente, passada a tempestade, Cleves trabalha em um jornal na cidade de Nova Lima. Ainda não tomou nenhuma decisão sobre se moverá algum processo. Sente que essa injustiça deveria servir de exemplo para uma maior análise, seja da opinião pública, seja da polícia, com suas investigações cheias de erros, seja da imprensa, que para ele produziu um jornalismo perverso e viciado. “Infelizmente, fatos como o meu estão acontecendo muito no país. Acusar alguém injustamente é uma execução sumária sem nenhum direito de defesa.” |
Falsas acusaçõesBRUXAS DE GUARATUBA – PARANÁ ESCOLA BASE – SÃO PAULO
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IRMÃOS NAVES – MINAS GERAIS COCAÍNA NA MAMADEIRA – TAUBATÉ (SP)
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