À mercê da natureza e abençoado pela solidariedade. Este é o estado atual de espírito do comerciante Geraldo Vinícius Soares Barbosa, 44 anos, casado, dois filhos. Hoje, seus dias se dividem entre tentar retirar a lama que ainda insiste em fazer parte do cenário de suas duas lojas especializadas em equipamentos e reparos em veículos. “Várias vezes tentei fazer seguro contra danos ambientais, mas as seguradoras não aceitam”, lamenta ele, que teve prejuízos de cerca de 100 mil reais com as chuvas da virada do ano em Belo Horizonte.
A oficina mecânica e a loja de rodas, pneus e acessórios dos irmãos Barbosa está instalada na avenida Tereza Cristina, na altura do bairro Salgado Filho, em Belo Horizonte, há oito anos. Waldeir, o outro sócio, foi o primeiro a se deparar com a “fúria” das águas do Arrudas na noite de réveillon. Ele conta que, ao estacionar o carro em frente às lojas, viu as águas do ribeirão subirem de forma assustadora. “Foi o tempo de entrar em casa para não ser levado junto com o meu carro e os pneus e demais acessórios das lojas que saíram boiando pela avenida”, lembra.
Para tentar evitar o problema vivido pelos irmãos Barbosa e várias outras famílias e comerciantes instalados na avenida Tereza Cristina, o governador Aécio Neves autorizou, no último dia 6 de janeiro, a liberação de 80 milhões de reais para obras no leito do Ribeirão Arrudas, entre a avenida Barbacena e o bairro Coração Eucarístico. Neste trecho, de 2,5 quilômetros de extensão, o leito do ribeirão será concretado. As obras serão realizadas pela Copasa. O anúncio foi feito após reunião com o prefeito Marcio Lacerda, na prefeitura da capital, onde foram definidas ações conjuntas entre o Estado e Município no socorro às vítimas das chuvas. Depois do encontro, o governador e o prefeito percorreram as obras de recuperação da avenida Tereza Cristina e conversaram com lideranças comunitárias sobre prejuízos provocados pelas chuvas e sobre as obras de recuperação.
Prejuízos esses que ainda estão sendo contabilizados, entre outros, pelo comerciante Fernando Azzi. Proprietário de uma revenda de gás e água na avenida Tereza Cristina, como o também comerciante Geraldo Vinícius, ele aproveitava o sol que apareceu, ainda que tímido, na quarta-feira (7 de janeiro) para tentar secar alguns documentos que foram parcialmente destruídos com a chuva de 31 de dezembro último. Azzi lembrava também que foi acionado quando se preparava para o réveillon, em sua casa, no bairro de Lourdes. “O alarme da loja disparou e o pessoal da segurança chegou ao local e me ligou imediatamente. A enxurrada causada pela cheia do Arrudas foi tão forte que arrebentou o portão de minha loja arrastando tudo que encontrava pela frente, botijões de gás, carro, galões de água...”, lembra. Agora, completa, é “arregaçar as mangas e tocar a vida, torcendo para que as obras anunciadas ajudem a evitar esse tipo de problema”.
Apesar do susto e dos prejuízos causados pelas últimas chuvas, muitos comerciantes e moradores das regiões mais atingidas são unânimes em ressaltar a importância do espírito de solidariedade que se instala nestas ocasiões. O comerciante Geraldo Vinícius é um deles. Ele conta que, diariamente, recebe telefonemas e visitas de amigos, outros donos de oficinas mecânicas, que colocam à disposição equipamentos, principalmente para alinhamento e balanceamento de veículos, ferramentas que ele perdeu com a chuva de 31 de dezembro último. “As pessoas se unem na tragédia e isso dá forças pra gente continuar”, ressalta.
Ajuda que vem de parentes, amigos e do Governo. Aliás, desde 2003 (ocasião em que Minas foi atingida também por uma forte chuva), funciona no Estado o Movimento Minas Solidária, sob a coordenação institucional do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) e operacional da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec). Uma parceria que reúne prefeituras, entidades de classe, empresas privadas, sindicatos e outros, e tem por objetivo formar uma rede de solidariedade às famílias atingidas pelas chuvas.
No último dia 6 de janeiro, o Servas enviou um caminhão à Prefeitura de Belo Horizonte com material de limpeza, higiene pessoal, brinquedos, colchões e roupas para as vítimas das chuvas. Produtos que estão ajudando, entre outros, a auxiliar de cozinha Ângela Maria Alves da Silva a recomeçar. A casa dela, na rua Jasmim do Cabo, no Bairro Olaria, também foi tomada pelas chuvas da virada do ano. “Perdi colchões, geladeira, sofá, roupas, mas tenho fé que vou dar a volta por cima”, disse ela, ao exibir os sete colchões e a cesta básica que recebeu de integrantes da Defesa Civil.
Aliás, o trabalho da Defesa Civil tem sido intenso nestes últimos meses em todo o estado. Que o diga o major Edylan Arruda, da Cedec. Segundo ele, desde setembro de 2008, a Defesa Civil já disponibilizou alimentos e materiais diversos para 60 municípios atingidos pelas chuvas em Minas. Sendo 350 mil quilos de alimentos, 11.185 cobertores, 12.978 colchões, 659 sacos de roupas e 177 rolos de lona, material usado nas encostas para evitar deslizamentos. Além disso, de acordo ainda com ele, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) enviou, desde novembro de 2008, 145 mil medicamentos às cidades atingidas pelas chuvas. Entre os medicamentos, antibióticos, analgésicos,antiinflamatórios e medicamentos para circulação. “A população está ainda recebendo orientações sobre limpeza de imóveis, caixas d’àgua e poços artesianos.” A SES enviou também cartilhas educativas aos municípios com material sobre enchentes e leptospirose.
O governo, aliás, está pretendendo descentralizar as ações da Defesa Civil em Minas. No último dia 6 de janeiro, o governador Aécio Neves anunciou que tomará medidas para estimular a efetiva instalação das coordenadorias municipais de Defesa Civil (Comdec) nas cidades mineiras. Na ocasião, garantiu que o governo priorizará os repasses estaduais não obrigatórios e os convênios com os municípios que possuem Comdec instalado, com pessoal treinado e em efetivo funcionamento. Para o governador, medidas preventivas e de socorro à população afetada por grandes calamidades são muito mais eficientes quando os municípios estão bem estruturados nessa área. Propostas que Aécio Neves reforçou em entrevista, no último dia 8 de janeiro, em visita à cidade de Manhuaçu, uma das mais atingidas pelas chuvas em Minas. Na ocasião, o governador informou ainda que já havia determinado à Secretaria de Obras do Estado que reserve recursos da ordem de 30 milhões de reais para um primeiro socorro aos municípios atingidos.
De acordo com dados da Condec, em todo o estado – até 6 de janeiro último – 97 municípios foram atingidos pelas chuvas desde setembro de 2008, a maioria na Zona da Mata, Grande BH e no Centro-Oeste de Minas. Do total dos municípios afetados, 57 decretaram estado de emergência e 23 pessoas morreram. Além disso, 6.235 pessoas se encontravam desabrigadas e outras 56.758 desalojadas.
É diante deste quadro que o major Edylan Arruda reforça a importância do Comdec. Segundo ele, os municípios que possuem as coordenadorias municipais têm mais chances de evitar maiores tragédias humanas e minimizar perdas materiais, a partir de ações preventivas e estratégias. Em Ponte Nova, por exemplo, de acordo ainda com ele, ação efetiva conseguiu retirar todas as pessoas das margens do rio Piranga, no dia 18 de dezembro, e evitar mortes em função da enchente que atingiu a cidade. A operação foi realizada com antecedência de oito horas da cheia do rio, após alerta da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. “Hoje, em Minas, formalmente 600 e poucos municípios têm as suas coordenadorias, mas apenas cerca de 150 as têm funcionando. Estamos passando uma determinação aos prefeitos municipais e, aqueles que não instalarem as suas coordenadorias, inclusive com treinamento feito pelo governo do estado, sem qualquer custo para as prefeituras, terão dificuldade em receber outros repasses do governo do estado”, alertou o governador Aécio Neves.