Sexta, 18 de Maio de 2012
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100 dias de solidão

E alguma diversão como jogar bola, assistir televisão e praticar cooper: assim se resumem os três meses e dez dias passados na prisão por Marcos Valério

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Paulo Figueiras, Rosana Garcia, Daniel de Cerqueira e Nélio Rodrigues


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Marcos Valério: cela dividida com dois advogados, um delegado federal e um professor

Chegar e dar de cara com aquele lugar inóspito, deserto, no meio do nada. Vacas pastando, silêncio incômodo na vastidão do Paraíba, no interior paulista, e pensar que ali, bem atrás do portal está trancafiado o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que estampou primeiras páginas de jornais, revistas, ocupou horas e mais horas na TV e rádio após a denúncia do mensalão mineiro e nacional, envolveu o alto escalão do governo federal, derrubou ministros, deputados, dirigentes petistas. Quase não falou e nem foi preso por isso, mas acusado de articular esquema para forjar inquérito contra fiscais da Fa­zenda de São Paulo. São 100 dias de prisão, 11 na Supe­rin­ten­dência da Polícia Federal paulista e o restante em Tremembé II, onde o famoso preso é só um dos 350 detentos nessa paga de contas com a Justiça. Mas a penitência pode estar próxima do fim ou até terminado, quando o caro leitor tiver acesso a estas linhas. É que o pedido de soltura ia ser julgado pelo Tribunal Federal Regional da 3ª região no dia 13 de janeiro (após o fechamento desta edição).

Vamos nos ater aos mais de três meses atrás daquele portal, onde a primeira impressão parece dissipar. Parentes de detentos e funcionários do presídio, ouvidos pela revista Viver Brasil, traçam quadro menos dramático da vida do empresário dentro da Tremembé II. Ele divide a cela de 16 metros quadrados com dois advogados, um delegado federal e um professor. Há televisão, rádio, beliches e banheiro. Mas mal fica na cela, aberta de 7h às 17h.  Faz corridas e joga futebol durante o período livre, porque não trabalha como os 263 presos nas oficinas de corte, costura, reforma de carteiras escolares, usinagem e montagem de carteira. Nem é obrigado por ser preso provisório, mas poderia se quisesse. Nos fins de semana recebe visitas – sábado ou domingo, dependendo do mês.


Galeria de Fotos

A mulher de Marcos Valério, Renilda Fernandes (de envelope na mão), na fila para visita. Conversa animada com os pais e a irmã de Alexandre Nardoni.
A mulher de Marcos Valério, Renilda Fernandes (de envelope na mão), na fila para visita. Conversa animada com os pais e a irmã de Alexandre Nardoni.

Em dezembro, sua turma era no sábado. Nestes dias a cena inóspita do lugar muda: carros de luxo começam desde bem cedo a se aportar ao estacionamento deste presídio, conhecido por reunir celebridades do mundo do crime: de Alexandre Nardoni, acusado pelo assassinato da filha Isabella, a Lindemberg Alves, denunciado pela morte da ex-namorada Eloá Pi­men­tel. É um vai-e-vem nas filas para deixar os jumbos (como os presos chamam os mantimentos levados pela família), se identificar (só entra quem os presos permitem previ­amente) e fazer a revista íntima. Na véspera de Natal, então, a movimentação era enorme. Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza, mulher de Marcos Valério, chegou de táxi, vinda da capital paulista, que fica a 138 quilômetros, quando as filas eram bem menores. Nem havia mais para a entrega dos produtos e identificação.

O motorista do táxi deixou a sacola, pequena se comparada aos jumbos de outros familiares e muito mais ao de Alexandre Nardoni, levado pelo pai Antônio. “Ela traz pouca coisa, até porque mora mais longe”, diz a mulher de um preso, que sempre a vê nos dias de visita. Foi para a fila da revista íntima, com um envelope, receita médica e remédio. Logo assediada pela mãe de Alexandre Nardoni, Maria Aparecida, a irmã, Cristiane, e o pai, pessoas com quem parece ter certa intimidade. Conversaram, reclamaram da imprensa e da inspeção íntima. A fila andava com mais rapidez e em pouco tempo transpuseram o portal.

Antônio Nardoni: uma sacola grande e uma caixa lotados de mantimentos para o filho na prisão
Antônio Nardoni: uma sacola grande e uma caixa lotados de mantimentos para o filho na prisão
Lá dentro, era dia de festa de Natal. Havia algodão doce, pipoca e o almoço: maionese, farofa, frango, arroz e feijão. “Mas esse pessoal nem come lá. Traz de fora ou pede para comprar”, afirma a mulher de um preso. Ficam o dia todo. Nestes 100 dias de prisão, Marcos Valério recebeu nas dependências do presídio, no primeiro sábado em Tremembé, os irmãos Adelírio, Paulo Marcos e Marcos Vinicius Fernandes de Souza. A filha Nathália já foi três vezes e a mulher Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza é fiel: vai todos os finais de semana. No dia 20 de dezembro, Renilda voltou para Belo Horizonte num voo das 17h45, que, por coincidência leitor, estava a reportagem da Viver Brasil. Tomou suco de laranja
Nos finais de semana, o movimento de carros (alguns de luxo) é grande em frente a unidade de Tremembé II
Nos finais de semana, o movimento de carros (alguns de luxo) é grande em frente a unidade de Tremembé II

Não quis dar entrevista. A reportagem insistiu, ligou, mas o telefone de casa estava programado para não receber chamada. Restou ir até a residência, no bairro Castelo, região da Pampulha, conversar com o segurança, deixar um bilhete. Nada, foi outra vez. Renilda chegou a ligar para o advogado criminalista Marcelo Leonardo sobre a entrevista, mas preferiu se calar. A expectativa era o julgamento do habeas corpus pelo TRF, em São Paulo, na primeira instância. Havia recorrido com pedido de liminar nos supremos tribunais Federal (STF) e de Justiça (STJ), que não examinaram porque o TRF ainda não tinha julgado o mérito. Se for negado o pedido de soltura em São Paulo é que os tribunais superiores poderão analisar.

“Mas já houve precedentes como nos casos do empresário Daniel Dantas e Paulo Maluf”, argumenta Marcelo Leonardo, advogado de Marcos Valério em três processos no STF, dois na Justiça federal em Minas e um na de Santos, o da Cervejaria Petrópolis. Casos complexos e trabalhosos, admite Leonardo, que diz estar sem ganhar pelo trabalho de defesa. É, os bens de Marcos Valério estão bloqueados desde 2005. “Já recebi, mas agora não. Continuo porque comecei e não vou parar.”

Não é só ele de credor. A Justiça determinou em novembro do ano passado o pagamento de 208,3 mil reais ao empresário Benito Porcaro pelo arrendamento da fazenda Santa Clara, em Paraopeba, região central do estado. Lá, Marcos Valério cria gado e cavalos desde 2007. Neste primeiro ano o valor foi pago. O da Justiça, referente a 2008, não se sabe quando. Há bloqueio de 10 milhões para o pagamento das dívidas, que todos os credores podem se habilitar a receber. Fontes ligadas a Benito Porcaro dão como certo que o contrato, previsto para três anos, renovável por igual período, deve ser desfeito no final de 2009.

Os percalços não param por aí. Nestes 100 dias de prisão, Marcos Valério foi denunciado pelo Ministério Público Federal em Minas por suposto envolvimento em crimes de caixa dois durante a campanha de reeleição de Eduardo Azeredo e ainda acusado de dever 5 milhões de reais à Receita Federal, relativos à sonegação de Imposto de Renda. Diante de tantas acusações, a realidade que aguarda Marcos Valério fora da prisão em nada lembra os dias em Tremembé: cooper, futebol e televisão.

Presídio VIP

A penitenciária Tremembé II fica num complexo de presídios entre Taubaté, Tremembé e Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba.
Endereço: Rodovia Amador Bueno da Veiga, km 138,5

Presos
São 350. Vão para lá os que, independentemente do crime, não podem conviver com outros detentos pelas funções que ocupavam quando estavam em liberdade ou por serem acusados de delitos de grande repercussão. A maioria tem curso médio e superior.

Os mais conhecidos:
Alexandre Nardoni, acusado do assassinato da filha Isabella
Lindemberg Alves, denunciado pela morte da ex-namorada Eloá Pimentel
Daniel e Cristian Cravinhos, assassinos confessos dos pais de Suzane Von Richthofen
Mateus da Costa Meira, que matou três pessoas num cinema de São Paulo

Já passaram por lá:
Edemar Cid Ferreira, ex-banqueiro
Edson Cholbi Nascimento, o Edinho, filho de Pelé
Law Kim Chong, empresário chinês acusado pela Polícia Federal como maior contrabandista do país

Como é o presídio
- Celas têm beliches, TV, rádio, banheiro. Elas ficam abertas de 7 às 17h
- Há sala de leitura com 5 mil livros, academia de ginástica (feita de
canos de ferro e latas com cimento), campo de futebol, pavilhões onde
os presos recebem as visitas e templo ecumênico
- São oferecidos cursos de inglês, música instrumental e computação
- Há oficinas de corte, costura, reforma de carteiras escolares, usinagem e montagem de torneiras.

A maioria dos presos, 262, trabalha

Fonte: Secretaria da Administração Penitenciária do governo de São Paulo, familiares de presos

“No início recebi meus honorários, mas agora não. Continuo porque comecei e não vou parar” Marcelo Leonardo, advogado de defesa
“No início recebi meus honorários, mas agora não. Continuo porque comecei e não vou parar” Marcelo Leonardo, advogado de defesa

Guerra Judicial

Por que está preso?
Acusado de forjar inquérito contra fiscais da Fazenda paulista que autuaram a
empresa Praiamar, do grupo Cervejaria Petrópolis, em 104,5 milhões. Ele foi
preso no dia 10 de outubro em Belo Horizonte, levado para a Superintendência da Polícia Federal de São Paulo e transferido dia 21 para Tremembé II

Outros processos
- Responde por denúncias de envolvimento no mensalão – suposto pagamento de parlamentares alinhados aos interesses do governo federal
- Denunciado pelo Ministério Público Federal de Minas por ter participado do caixa dois na campanha de reeleição de Eduardo Azeredo ao governo do estado
- Acusado também de dever mais de 5 milhões de reais à Receita federal, relativos à sonegação de Imposto de Renda
- Condenado a pagar 208,5 mil reais ao empresário Benito Porcaro referente ao arrendamento da fazenda Santa Clara, em Paraopeba, região central do estado. Este valor se refere ao acumulado do ano passado
- É  citado em 10 processos no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, 63 no Tribunal de Justiça de Minas (TJMG), 8 no Supremo Tribunal de Justiça e 3 no Supremo Tribunal Federal (STF)


 
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