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Capa100 dias de solidãoE alguma diversão como jogar bola, assistir televisão e praticar cooper: assim se resumem os três meses e dez dias passados na prisão por Marcos Valério
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Paulo Figueiras, Rosana Garcia, Daniel de Cerqueira e Nélio Rodrigues
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Em dezembro, sua turma era no sábado. Nestes dias a cena inóspita do lugar muda: carros de luxo começam desde bem cedo a se aportar ao estacionamento deste presídio, conhecido por reunir celebridades do mundo do crime: de Alexandre Nardoni, acusado pelo assassinato da filha Isabella, a Lindemberg Alves, denunciado pela morte da ex-namorada Eloá Pimentel. É um vai-e-vem nas filas para deixar os jumbos (como os presos chamam os mantimentos levados pela família), se identificar (só entra quem os presos permitem previamente) e fazer a revista íntima. Na véspera de Natal, então, a movimentação era enorme. Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza, mulher de Marcos Valério, chegou de táxi, vinda da capital paulista, que fica a 138 quilômetros, quando as filas eram bem menores. Nem havia mais para a entrega dos produtos e identificação. O motorista do táxi deixou a sacola, pequena se comparada aos jumbos de outros familiares e muito mais ao de Alexandre Nardoni, levado pelo pai Antônio. “Ela traz pouca coisa, até porque mora mais longe”, diz a mulher de um preso, que sempre a vê nos dias de visita. Foi para a fila da revista íntima, com um envelope, receita médica e remédio. Logo assediada pela mãe de Alexandre Nardoni, Maria Aparecida, a irmã, Cristiane, e o pai, pessoas com quem parece ter certa intimidade. Conversaram, reclamaram da imprensa e da inspeção íntima. A fila andava com mais rapidez e em pouco tempo transpuseram o portal. |
Lá dentro, era dia de festa de Natal. Havia algodão doce, pipoca e o almoço: maionese, farofa, frango, arroz e feijão. “Mas esse pessoal nem come lá. Traz de fora ou pede para comprar”, afirma a mulher de um preso. Ficam o dia todo. Nestes 100 dias de prisão, Marcos Valério recebeu nas dependências do presídio, no primeiro sábado em Tremembé, os irmãos Adelírio, Paulo Marcos e Marcos Vinicius Fernandes de Souza. A filha Nathália já foi três vezes e a mulher Renilda Maria Santiago Fernandes de Souza é fiel: vai todos os finais de semana. No dia 20 de dezembro, Renilda voltou para Belo Horizonte num voo das 17h45, que, por coincidência leitor, estava a reportagem da Viver Brasil. Tomou suco de laranja
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Não quis dar entrevista. A reportagem insistiu, ligou, mas o telefone de casa estava programado para não receber chamada. Restou ir até a residência, no bairro Castelo, região da Pampulha, conversar com o segurança, deixar um bilhete. Nada, foi outra vez. Renilda chegou a ligar para o advogado criminalista Marcelo Leonardo sobre a entrevista, mas preferiu se calar. A expectativa era o julgamento do habeas corpus pelo TRF, em São Paulo, na primeira instância. Havia recorrido com pedido de liminar nos supremos tribunais Federal (STF) e de Justiça (STJ), que não examinaram porque o TRF ainda não tinha julgado o mérito. Se for negado o pedido de soltura em São Paulo é que os tribunais superiores poderão analisar. “Mas já houve precedentes como nos casos do empresário Daniel Dantas e Paulo Maluf”, argumenta Marcelo Leonardo, advogado de Marcos Valério em três processos no STF, dois na Justiça federal em Minas e um na de Santos, o da Cervejaria Petrópolis. Casos complexos e trabalhosos, admite Leonardo, que diz estar sem ganhar pelo trabalho de defesa. É, os bens de Marcos Valério estão bloqueados desde 2005. “Já recebi, mas agora não. Continuo porque comecei e não vou parar.” Não é só ele de credor. A Justiça determinou em novembro do ano passado o pagamento de 208,3 mil reais ao empresário Benito Porcaro pelo arrendamento da fazenda Santa Clara, em Paraopeba, região central do estado. Lá, Marcos Valério cria gado e cavalos desde 2007. Neste primeiro ano o valor foi pago. O da Justiça, referente a 2008, não se sabe quando. Há bloqueio de 10 milhões para o pagamento das dívidas, que todos os credores podem se habilitar a receber. Fontes ligadas a Benito Porcaro dão como certo que o contrato, previsto para três anos, renovável por igual período, deve ser desfeito no final de 2009. Os percalços não param por aí. Nestes 100 dias de prisão, Marcos Valério foi denunciado pelo Ministério Público Federal em Minas por suposto envolvimento em crimes de caixa dois durante a campanha de reeleição de Eduardo Azeredo e ainda acusado de dever 5 milhões de reais à Receita Federal, relativos à sonegação de Imposto de Renda. Diante de tantas acusações, a realidade que aguarda Marcos Valério fora da prisão em nada lembra os dias em Tremembé: cooper, futebol e televisão. |
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