Quinta, 23 de Maio de 2013
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Vamos dar um mergulho?

A Viver Brasil participou de uma patrulha rotineira a bordo do submarino Timbira: a experiência foi inesquecível

Texto: Ana Magalhães | Fotos: Nélio Rodrigues


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Dentro do Timbira o cheiro é de máquina pura. Uma mistura de óleo diesel com gás hidrogênio inflama o olfato e parece não incomodar os presentes. Todos os espaços são milimetricamente aproveitados e tudo o que se vê são válvulas, controles, medidores, botões e visores. Se por fora o Timbira parece maior do que o esperado (são 61 metros de comprimento), por dentro as dimensões se revertem. Um corredor de 80 centímetros de largura dá passagem a três, ou quatro submarinistas ao mesmo tempo. As 42 camas (divididas em três quartos), empilhadas uma sobre a outra lembram os apertados hotéis japoneses. A cozinha tem pouco mais de um metro quadrado e o box para tomar banho não permite uns quilos a mais.

“Suspende o navio. Leme a boreste quinze graus.” São oito e meia da manhã do dia 19 de dezembro de 2008 e o Timbira desatraca para uma submersão a alguns quilômetros do Rio de Janeiro, numa operação de rotina. O plano é navegar até alto-mar, submergir, almoçar a 100 metros de profundidade e retornar no final da tarde para base da Marinha, em Niterói.

Um submarino de guerra talvez seja o conceito da máquina em sua forma mais plena, a começar pelo cheiro e a terminar pela complexidade de navegar contra as leis da natureza. Apesar da curiosidade com o mundo da água, não existe nenhuma janela. Mesmo se existisse, pouco se veria, já que nas profundezas do oceano a ausência de luz impede qualquer contemplação. Ser contemplado, aliás, é tudo o que um submarino não quer. O princípio básico dessa arma de guerra é justamente ver tudo e ao mesmo tempo não ser visto nunca. “Não podemos emitir nenhuma luz”, explica o comandante do submarino, o capitão-de-fragata Enéas Tadeu Fernandes Ervilha, 42 anos. Ele usa a mesma roupa do restante da tripulação – macacão cinza, botas negras e as iniciais S-32 bordadas no boné. Não fosse sua patente visível no ombro e um bordado extra no chapéu, um leigo não saberia que é ele o comandante do Timbira e o responsável por outras 41 vidas. Num submarino, detalhes são uma questão de vida ou morte. “Os grandes perigos são o fogo e a água”, resume o capitão, que inicia a operação de saída do porto. A tensão está sempre no ar, ainda que discretamente.

Enquanto navega na superfície, o comandante fica na parte superior (chamada de passadiço), contemplando a vista do Rio de Janeiro e liderando a embarcação por meio de walkie talkies. O balançar enjoa, mas os oficiais da Marinha garantem que melhora quando o subma­rino submergir. Antes de fechar a escotilha, a tripulação do S-32 amarra todos os cabos para evitar qualquer tipo de ruído. Além disso, eles checam e rechecam uma série de sistemas complicados: pressão, ar, baterias, motores, hélices e todos os incontáveis apetrechos de um submarino de guerra.

 O Tiba, como é carinhosamente chamado por sua tripulação, foi construído no Brasil em 1996 a partir de um projeto alemão e é um dos cinco submarinos da Marinha brasileira. Como os demais, o S-32 tem capacidade para receber 42 homens, viaja a uma velocidade máxima de 40 km por hora e tem autonomia para ficar 50 dias submergido. Como são praticamente irrastreáveis, são considerados estratégicos para a defesa de qualquer país litorâneo. “Um submarino tem duas funções básicas: negar o uso do mar para outros países e vigiar aviões, navios e outros submarinos”, expli­ca o almirante Bento de Albu­quer­que, comandante da Força defende o Almirante. Ele alimenta a 
expectativa de que a assinatura de um acordo entre Brasil e França para a compra de submarinos e helicópteros faça com que o Brasil “se aproxime do sonho de ter um submarino nuclear”. No dia 23 de dezembro, o presidente francês Nicolas Sarkozy encontrou-se com Lula e assinou acordo de cooperação entre os dois países para a construção de quatro submarinos tradicionais (de propulsão diesel-elétrica) do tipo Scorpène. Além disso, o acordo prevê a criação do casco de um quinto, apto a receber uma propulsão nuclear desenvolvida pelo Brasil. A bordo do Timbira, o comandante Enéas afirma que a Marinha detém a tecnologia para gerar urânio enriquecido e espera que em 15 ou 20 anos a Marinha tenha seu primeiro submarino nuclear.
O Timbira, enfim, chega ao local da submersão. Outra vez todos se mobilizam e Enéas solta uma série de comandos. “Abertura dos suspiros. Infiltração dos tanques de lastre.” A não ser por uma inclinação da embarcação e pelo chacoalhar que se suaviza, não dá para perceber que o Timbira saiu da superfície e começou a mergulhar. Por sinal, dentro de um submarino sem janela perde-se a noção de localização; os únicos que sabem exatamente onde está o S-32 são os submarinistas do compartimento de comando e o comandante, que sempre sabe tudo. Nas profundezas das águas, o Timbira fica mais estável e o enjoo passa.


No fundo do mar, o submarino funciona como um morcego. Nada se vê, mas tudo se ouve. De seus vários radares, o mais importante é o sonar, que mede todo e qualquer ruído transmitido pela água. O periscópio, ou o olho do submarino, é pouco usado, e ainda assim só é acionado para observar a superfície.  Depois de algumas horas de confinamento, surge uma certa agonia. Deseja-se luz natural, janela, céu e mar. Em longas viagens, a tripulação chega a ficar 20 dias ininterruptos dentro da máquina. “Depois de 20 dias mergulhado, sentimos saudades de ver o verde, uma árvore, uma rua. É uma sensação mui­to estranha”, conta o comandante. A única comunicação com o mundo externo é via rádio, e ainda assim não é possível enviar notícias, somente recebê-las. Em geral, uma vez ao dia o submarino retira sua antena à superfície e recebe um boletim com as notícias do dia.

Um dos problemas enfrentados pelos submarinistas são as longas temporadas longe da família. Todos da tripulação do Timbira perdem ocasiões importantes: o casamento do irmão, o primeiro passo do filho, o aniversário da esposa. O submarinista responsável pela cozinha, o cabo Henrique Salus­tiano Ferreira Vinhas (mais conhecido como chef Vinhas), conta que cada vez que chega em casa sua filha de dois anos o surpreende com alguma coisa nova. “Um dia cheguei e ela estava andando. Em outro, já estava falando.” O próprio comandante Enéas estava no fundo do oceano quando nasceu seu terceiro filho, Lucas, há seis meses. “Estávamos na superfície e eu conversava por celular com minha mulher nesse momento. Perdi o sinal, tivemos que submergir e ...”, ele se emociona e não consegue terminar a frase.

No Timbira-casa, a tripulação vira família. “Conheço os problemas dos tripulantes e eles conhecem os meus”, revela o comandante. Realmente, existe um clima de amizade entre os submarinistas. É servido um apetitoso almoço de salada, salpicão, risoto e carne. Parte da tripulação almoça no compartimento de torpedos, enquanto o comandante e seus oficiais comem numa outra saleta, também usada para reuniões. Na parede da sala de comandos, uma foto em preto e branco do Rio de Janeiro lembra à tripulação que eles têm outra casa. “A foto foi colocada aí no dia 7 de março, quando partimos para uma operação de seis meses nos Estados Unidos. Queríamos ter uma imagem da volta para a casa”, explica o comandante.

O descanso dentro do submarino é limitado como o próprio espaço de convívio. No fundo do mar, eles chegam a trabalhar 16 horas por dia e as 8 horas de descanso são divididas entre banho, sono, comida e lazer. “Jogamos vídeo-game, vemos filmes e jogamos dominó ou gamão”, conta o Tenente Gabriel Nogueira de Sá. Já o comandante, responsável pela embarcação, vive um estado de alerta constante. “Dormimos com um olho fechado e outro aberto. Realmente existe um cansaço mental e físico”, conta Enéas. 

Apesar do trabalho pesado, os submarinistas falam da máquina com um brilho no olhar. Para virar submarinista é preciso fazer curso de um ano e passar por uma série de exames físicos e psicológicos. O trabalho é voluntário dentro da Marinha, mas devido às situações de risco, existe aumento de 20% no salário.

Depois do almoço todos se reúnem em volta da mesa principal: é hora de batizar aqueles que mergulham pela primeira vez. Ao invés de água, eles usam sal e graxa para celebrar esse ritual de iniciação, na tentativa de harmonizar a máquina com o oceano. “Prometo respeitar ninfas e sereias, conchas e caramujos e todos os seres que habitam o reino da vossa majestade”, diz parte da oração dedicada a Ne­tuno, deus grego das águas profundas. No final do batismo, cada submarinista ganha o nome de um peixe de água salgada, que passa a ser o apelido nas profundezas. Um dos recém-batizados é o marinheiro Spindola, que embarcou no Timbira pela segunda vez na vida.

Ironicamente, o batismo acontece no compartimento de torpedos, o único que lembra que o Tim­bira é máquina de guerra. Oito tubos de torpedo, cada um com sete metros de comprimento, ocupam boa parte do espaço, também destinado para o almoço e os momentos de lazer. Escondida no meio de todo esse armamento, uma imagem da Santa Edwirges promete águas tranquilas e protege a tripulação. O comandante conta que quando o Timbira estava sendo construído, ela veio flutuando pela Baía da Guanabara e ficou presa no casco do submarino. Um militar viu que era uma imagem e decidiu guardar. Depois que ela entrou a bordo, reza a lenda que tudo começou a dar certo com o Timbira. “Ela virou nosso talismã”, comenta.

Os tripulantes se concentram mais uma vez nas máquinas, botões e controles para levar o Tiba à superfície. “No retorno, existe sempre um pequeno risco. Pode ser que os radares sonoros não percebam a existência de um navio com o motor desligado e haja um choque”, explica o comandante enquanto controla a subida. Tudo acontece como o planejado e o Timbira chega ao porto da Marinha em Niterói na hora marcada. Dez submarinistas permanecem no submarino para passar a noite numa cama apertada, enquanto a Santa Edwirges protege o lar da família Tiba.


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