Estatísticas revelando a explosiva e mortal combinação de imprudência e a direção de um carro povoam jornais e revistas com frequência. Mas as estatísticas não mostram a face trágica de quem perde um ente querido num acidente como esses. O drama atinge não a uma, mas a pelo menos duas famílias, que se veem, de repente, arrancadas da normalidade para serem lançadas num processo que costuma ser de muito sofrimento – tanto por parte de quem perdeu alguém, como de quem vê um parente sendo acusado de um crime.
Ana Cristina Tavares Nunes Paganelli de Castro é um rosto – e o retrato de um drama – que as pesquisas, por demais objetivas, não revelam. Seu nome estampou capas de jornais no mês de fevereiro do ano passado, há exatamente um ano, quando o marido foi uma dessas vítimas fatais. Empresário bem-sucedido, 48 anos, Fernando Félix Paganelli de Castro seguia em um Citroën Xsara pela avenida Raja Gabáglia. O 1º. de fevereiro de 2008 insinuava que seria um dia de trabalho como outro qualquer. O trajeto era feito por ele diariamente, em direção à Ceasa, onde atuava como atacadista. Eram 4h30 da manhã. Mas, na contramão, trafegava num Honda CRV, com sinais de embriaguez – o que foi constaado por exame do Instituto Médico Legal – o administrador de empresas Gustavo Henrique Oliveira Bittencourt, então com 22 anos. Em poucos segundos, o destino dos dois se cruzaria com muita violência, espalhando dor por todos os lados. O carro de Fernando foi atingido pelo Honda, e o empresário morreu na hora, deixando Ana Cristina precocemente viúva e privando para sempre os filhos – hoje com 14 e 16 anos – do convívio com o pai.
Como foi o último ano na vida da família de Fernando, desde os segundos que terminaram em tragédia? Que dramas adicionais a morte violenta do empresário legou à esposa e aos filhos deles? Muitas mudanças aconteceram desde então. Como Fernando era o único provedor da família, o futuro de conforto e segurança de todos se viu ameaçado e a viúva e os filhos se veem, desde então, necessitando da ajuda de familiares para continuar pagando todas as despesas geradas numa casa, incluindo aí gastos com a educação dos filhos. A casa da família, no condomínio onde moravam, em Nova Lima, precisou ser alugada e hoje eles vivem em Belo Horizonte.
De acordo com o advogado da família de Fernando, João Paulo Machado Rodrigues Cardoso, a viúva teve a vida despedaçada e não suportou a perda do marido. Em setembro do ano passado, Ana Cristina sofreu, aos 40 anos de idade, um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Hoje, a Ana não consegue mais falar – comunica-se por meio de gestos, às vezes escrevendo, e precisa de uma enfermeira o tempo todo ao lado dela, já que apresenta dificuldades motoras”, revela. “Os filhos de Ana também têm passado por muitos problemas, e, agora, sofrem também a ausência da mãe, que se encontra dependente de muitos cuidados”, acrescenta.
Com o problema de saúde, Ana está impossibilitada de dar prosseguimento às atividades profissionais do marido. “Os negócios da família estão largados. Os funcionários estão tentando levar adiante, mas essa é uma situação muito complicada”, revela o também advogado Gustavo Tavares Nascimento, primo de Ana Tavares, e que está movendo ação de alimentos e indenização contra Gustavo Bittencourt. O advogado explica que, em meados do ano passado, foi decretada tutela antecipada contra Bittencourt, que está obrigado a pagar uma quantia mensal à viúva, até o final do processo. “É muito triste ver a Ana assim. Ela e os filhos estão dependendo da ajuda de tios, de primos. O dinheiro que ela está recebendo por mês, do réu, tem sido fundamental para a sobrevivência dela”, explica. A tutela antecipada é expedida pela Justiça como um adiantamento do pedido total de indenização, que será julgado apenas ao final do processo. “Pedimos 500 salários mínimos para cada um dos filhos e a mesma quantia também para a viúva”, explica.
A outra face dessa tragédia também tem um rosto, um nome e uma família. Como está a vida de Gustavo Bittencourt e de seus pais, um ano depois? A reportagem da Viver Brasil tentou ouvir o jovem e seus familiares. O advogado dele, Ricardo Ferreira de Melo, consultou a família que, segundo ele, por estar muito abalada, preferiu não conceder a entrevista. Mas, certamente, sua vida também sofreu reviravoltas, desde então. O jovem chegou a ficar preso por aproximadamente dois meses, até conseguir habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Denunciado pelo Ministério Público por homicídio doloso, ou seja, com intenção de matar, ele aguarda o processo em liberdade. “Ao dirigir na contramão, ele assumiu o risco de matar alguém”, avalia o advogado da viúva. “Aguardamos a manifestação do juiz”, afirma.
São três os caminhos que aguardam o jovem. Ele pode ser absolvido; ir a júri popular, sendo julgado por homicídio doloso; ou o crime pode ser desqualificado para, por exemplo, um homicídio culposo – sem intenção de matar. “Mas, se condenado por homicídio doloso, ele poderá pegar de 12 a 30 anos de prisão”, explica. Em resumo: uma tragédia por todos os lados, vidas mudadas em segundos. Para não se esquecer. E para fazer pensar.