Preocupado em estimular o consumo em plena crise financeira, o Federal Reserve (FED), banco central americano, cortou a taxa básica de juros de 1,9% para 0,25%, em meados de dezembro passado. O que significaria um índice deste no Brasil, que tem uma taxa (Selic) de 12,75% ao ano, ou seja, 50 vezes maior do que essa? Especialistas econômicos ouvidos pela revista Viver Brasil respondem: o resultado seria fuga de investimentos estrangeiros, alta do dólar, superaquecimento do consumo e muita inflação.
Hoje, o Brasil é o país com a maior taxa de juros nominal do mundo. Descontando a inflação (juro real), perde apenas para a Turquia. Como a indústria precisa pegar empréstimos para investir e expandir, o setor produtivo clama por um corte maior, o que baratearia os financiamentos. De acordo com o consultor da Austin Rating, Luis Miguel Santacreu, uma redução ponderada na Selic impulsionaria a produção, mas o patamar semelhante ao dos Estados Unidos é algo completamente impensado para a conjuntura econômica do Brasil.
Lá, explica Santacreu, o governo enfrenta uma crise de confiança, o desemprego está aumentando e é preciso induzir o consumidor a pegar empréstimo para consumir, daí baixar tanto os juros. “Aqui, uma taxa de 0,25% traria efeitos drásticos demais, os investidores estrangeiros iriam deixar de aplicar no Brasil, já que a rentabilidade cairia. Neste caso, iria faltar dinheiro em caixa para pagar os juros da dívida”, explica o consultor.
Essa é apenas uma das consequências negativas de uma taxa de juros tão baixa. E o que aconteceria com a inflação? O economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, explica que é impossível calcular em quanto a inflação brasileira chegaria, caso a taxa de juros fosse de 0,25%, mas é possível afirmar categoricamente que ela subiria muito. Tudo começaria com a fuga dos investimentos internacionais, já que muitos investidores procuram o Brasil exatamente porque os elevados juros garantem uma boa renda. “Com menos dólar no país, o valor da moeda norte-americana iria disparar, como muitos preços são atrelados ao dólar, isso impactaria na inflação”, esclarece Neto.
Além disso, continua o economista, quanto menor os juros, maior é a facilidade de pegar empréstimos para consumir. “A demanda por bens de consumo poderia aumentar acima da capacidade de produção da indústria e, com a procura maior do que a oferta, os bens ficariam mais caros, o que também refletiria em alta na inflação”, explica. Segundo Neto, outro dano seria que, para tentar suprir o aumento da demanda, a indústria seria obrigada a importar matéria-prima e equipamentos. “Aumentando as importações, a balança comercial do país ficaria desequilibrada, faltaria dinheiro e o governo teria dificuldade para rolar a dívida.”
Se não tão baixa, também não precisa ser tão alta, na opinião do setor produtivo. Na avaliação do presidente do Comitê de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves, num momento em que o mundo inteiro está jogando as taxas de juros para baixo, o Brasil tem totais condições de trabalhar com uma taxa básica de 10,5%. “Este patamar seria ideal para estimular investimentos e manter o consumo interno aquecido, por meio do crédito mais barato, sem causar ameaças para a inflação”, destaca Gonçalves.
A taxa básica de juros é um mecanismo que o governo usa para controlar a inflação, aumentando quando precisa conter o consumo e reduzindo quando precisa estimular. “O argumento do BC para não reduzir muito os juros é o medo de o câmbio influenciar a inflação, mas acho que o Brasil deveria adotar uma política monetária mais inteligente”, questiona o empresário.