\"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.\" (Guimarães Rosa)
As festas passaram. Muitos celebraram, outros nem tanto, mas é inegável que os rituais de final de ano suscitam em cada um de nós reminiscências de um outro querer. Cada pessoa, à sua maneira, repensa o ano que passou, projeta para si mesma o que gostaria de mudar ou alcançar no ano que chega. Geralmente são anseios antigos. Sempre repetimos: este ano vai ser diferente. Desta vez não passa! Mas entra janeiro, sai janeiro e nossas irrefutáveis justificativas internas continuam as mesmas: sempre chegamos à conclusão de que é melhor começar em fevereiro.
Daí pra depois do Carnaval a gente nem pestaneja. Afinal, no Brasil “o ano só começa mesmo em março”. E lá se vão nossos desejos borbulhantes! Já vimos esse filme dezenas de vezes, mas quase sempre o repetimos. Primeiro o desbotamento, depois o apagamento do que queríamos desejar. Para onde aponta, em nós, o desfalecimento do que nos pareceu tão caro? O psicanalista Jorge Forbes, inspirado em Lacan, faz uma pergunta provocante que, inclusive, é título de um de seus livros: \"Você quer o que deseja?”
O desejo, como é entendido pela psicanálise, difere-se da necessidade. Esta é biológica, natural. Está relacionada com a autoconservação. Os objetos buscados são específicos, como água, alimentos etc. No desejo a relação não se dá com objetos concretos e sim com a fantasia. Fantasia de que um dia fomos o único desejo do objeto primordial, a mãe. Na ilusão do sujeito houve um estado completo, registro imaginário de uma satisfação plenamente vivida. Na ficção de completude, no anseio de reencontrar um estado supostamente perdido, nos projetamos no mundo. Desejar é o que põe em movimento nossa vida psíquica, é ir em direção ao desconhecido. Como seres humanos somos então lançados na dimensão da dúvida e da escolha. E como toda escolha implica perda, esta nos amedronta. O medo de decidir nos faz acomodados a uma posição, que, embora possa ser fonte de sofrimentos, é também conhecida. Portanto a pergunta \"Você quer o que deseja?\" implica essa dimensão de risco.
Querer o que se deseja representa sustentar que decisões e escolhas não acontecem sem angústia. O ideal cultural alienado do consumo propõe uma negação da nossa condição de incompletude, de sujeitos desejantes. As satisfações instantâneas dão a ilusão de estarmos livres da angústia. Mas é exatamente na sustentação da angústia que se dá a superação. A satisfação imediata anestesia, desvanece nossa condição de sujeito desejante. A angústia tem papel importante: ela nos indaga sobre nosso desejo.
Convivemos cada vez mais com depressões, drogadições, diferentes formas de violência, que implicam ausência do desejo e no excesso que marca o gozo. Se no apagamento dos desejos tentamos não angustiar, o remédio para a angústia é ter coragem para desejar.