Mais parisiense impossível. Perceptível na história impregnada em cada canto, nos móveis Luís XV e Luís XVI, nas cortinas, nos quadros, na construção. Está em Paris e lá não deixa esquecer isto a cada passo dentro do Hotel Raphael ou na vista que se alcança das janelas, do terraço, sem nenhum esforço, o Arco do Triunfo, de 1836, ou a Torre Eiffel, de 1889. Tudo sugere a França antiga em pleno século XXI, restaurada, a lembrar o que se foi e o que é hoje, com tonalidades acentuadas de luxo associado à tecnologia, que deixaria os reis e a nobreza com despeito de tanto privilégio. A burguesia perdoaria e hoje, como todos que podem arcar com diárias, de no mínimo 505 euros, aproveitam disto bem na região do Champs-Elysées, o bulevar mais chique e caro da capital francesa.
A ex-senadora Ingrid Betancourt correu para o Hotel Raphael, com a família, depois que deixou o cativeiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), onde foi mantida por seis anos em condições subumanas. Também circulava no aristocrático bar do hotel, com poltronas profundas, o cantor francês Serge Gainsbourg, autor da música quase pornô Jê T’aime, Moi Non Plus. Walt Disney, criador do Mickey Mouse, tomava seus drinques por lá quando estava em Paris. Outros famosos já passaram iguais a qualquer mortal, dentro do possível, pelos salões do Raphael. “É nossa tradição garantir a paz e o anonimato dos hóspedes”, diz Delphine Durand, gerente comercial do hotel.
Passaram ou ficaram em um dos 90 apartamentos, diferentes entre si, nada padronizado, como o modelo norte-americano. Cada quarto é único, com decoração, móveis e cortinas diferentes. “É como se fosse uma casa, onde recebemos nossos convidados”, explica Delphine. Hábito que perpassou a terceira geração da família proprietária, décadas e o século XX, desde a criação em 1925 por Leonard Taubert para ser hotel íntimo, destinado a hóspedes vips. “O Raphael guardou as tradições francesas e esse é o nosso charme.”
Há até restauradores especializados em mobília da época real para fazer os reparos necessários, o que ocorre quase diariamente. “Nossos hóspedes também buscam um pouco de nossa história”, diz a gerente comercial. Lá encontram, e também pessoas que fazem história: líderes políticos, intelectuais, atores, executivos em reuniões ou num bate-papo no bar, no restaurante ou no terraço. De onde se tem a visão 360 graus sobre Paris. O imponente Arco do Triunfo, com seus 50 metros de altura e 45 de largura, está logo ali, à esquerda, quase palpável. A Torre Eiffel do outro lado. “Tem espaço mais parisiense?”, pergunta Delphine Durand. É, parece que concorre, ou melhor, se soma aos monumentos, à história, ao povo francês.
Descer do terraço, com seus jardins, onde há também um tabuleiro de xadrez de mármore gigante, percorrer sem pressa os amplos tapetes, chegar ao bulevar Champs-Elysées, à praça de La Concorde, ao jardim das Tulherias, ao museu do Louvre, a toda cidade, extensão do que guarda as paredes do hotel Raphael. Mais parisiense impossível, só falta comer sanduíche na baguete e caprichar no biquinho.