Jean-Louis Orphelin é um executivo experimentado que construiu uma carreira de sucesso dentro da Citröen. Já dirigiu a empresa na Itália, na Argentina e, desde o ano passado, comanda a Citröen do Brasil. A montadora tem fábrica em Porto Real, no Rio de Janeiro, há oito anos, e planos arrojados para o mercado brasileiro. O dirigente de uma das principais empresas do setor automobilístico, responsável por algumas das mais importantes tecnologias em uso nos carros de todo o mundo, é prudente nas previsões quanto a metas para este ano. Evita falar em novos investimentos em 2009 no Brasil, embora haja programação de 300 milhões de reais para ampliar a produção em Porto Real. A cautela com a crise não tira dele o otimismo com o projetado aumento na participação da Citröen no país. Em 2009 a meta é dominar 3% do mercado nacional de veículos leves, segmento em que atua a Citröen. Em julho de 2008, pouco depois de assumir o comando da empresa no Brasil, Jean-Louis, em entrevista, previa que o Brasil chegaria, este ano, ao 4º lugar no mercado mundial de veículos, desbancando a Alemanha. Com a crise, evita este tipo de comentário, embora preveja que, por aqui, o impacto das dificuldades financeiras mundial será menor, pela rapidez com que o país adotou medidas econômicas preventivas e pela nossa riqueza natural.
De que forma a crise atingiu o setor automobilístico brasileiro?
Podemos dizer que a crise no setor chegou mais tarde ao Brasil do que aos Estados Unidos e à Europa. A crise atingiu os mercados dos Estados Unidos e da Europa em junho/julho. Aqui foi a partir de setembro, mesmo assim de forma mais suave. Depois ficou um pouco mais difícil, mas, assim mesmo, por pouco tempo, até novembro, mais ou menos. O governo brasileiro foi mais reativo do que os grandes do mundo. Imediatamente baixou medidas, reduzindo impostos e facilitando o crédito para o financiamento de veículos. Na Espanha, o mercado de carros caiu 50% desde dezembro. Na Itália, 35% e na Inglaterra em torno de 30%. No Brasil a situação foi diferente. O governo agiu rápido, ajudando todas as montadoras a resolverem seus problemas de estoques. Para mim, as medidas tomadas salvaram as montadoras brasileiras.
As medidas excepcionais adotadas pelo governo, de apoio ao setor, valem até final de março. Depois disto, como o senhor acha que ficará o mercado?
Para mim, seria muito bom se estas medidas fossem até um pouco mais à frente, junho ou julho. Assim teríamos condições de manter uma média maior de produção de carros este ano. Penso que a produção brasileira deve ficar em torno de 2,3 milhões de carros em 2009. Em julho do ano passado a projeção era de uma produção de 3 milhões. Penso que não se chegará a tanto.
Em entrevista, publicada em julho do ano passado, o senhor anunciou que a meta da Citröen é atingir, em 2009, 3% do 8 mercado brasileiro de veículos. Ainda é com esta meta que a empresa trabalha?
Este é o nosso objetivo. Estamos lançando novos produtos como o C4 Picasso, monovolume com cinco lugares; o C4 Hatch, no mês que vem e, no segundo semestre, dois modelos do C5, o que certamente ampliará nossa presença no mercado. Ainda estamos um pouco distantes da meta projetada, em torno de 2% do mercado, mas acreditamos que, a partir de abril, com os novos produtos, atingiremos os 3% a cada mês. Há ainda outro aspecto a ser considerado. Hoje está mais fácil comprar um carro novo, com a redução dos impostos e com as promoções que as revendedoras estão fazendo, do que adquirir um carro usado, apesar da queda de preços destes carros.
Com a crise, alguns países já começaram a adotar algumas medidas protecionistas para blindar os empregos e o mercado interno. Isto, de algumas forma, prejudica os projetos de exportação?
Para mim o protecionismo não é bom. Mas nós exportamos mais é para a América Latina. A Argentina é nossa principal cliente. Por isso o protecionismo europeu não nos prejudica muito. Estamos em negociação com importadores chilenos, um mercado novo que estamos abrindo agora, pois eles compram todos os seus carros na Europa, onde têm acordos tarifários. Dificuldades temos também na Venezuela, que possui um mercado com potencial para a venda de muitos carros. O problema é com o câmbio, com a troca de moeda.
O senhor que é um executivo experiente, que já atuou em várias países, qual a visão que tem da atual crise econômica mundial?
A crise tem motivos diferentes. Tivemos o subprime. Depois a crise nos bancos e finalmente a crise de confiança, que é o maior problema para o mercado. Quando falta a confiança, o dinheiro não circula. A gente não comprando, não há produção e faltam os empregos. A dificuldade é restabelecer a confiança dos compradores. Sem isso não há possibilidades de melhora. Os governos estão colocando recursos e tomando medidas na área tributária para aquecer o mercado. Mas ainda não houve resultados. Acho que o Brasil está em situação melhor que o resto do mundo. O país tem muitas riquezas. O país tem o etanol e é completamente independente do petróleo, que hoje é um verdadeiro tesouro. O Brasil tem ferro, tem tudo. Por isto pode viver tranquilamente. A política do Banco Central também é boa, a moeda é forte e a política de importação e exportação é inteligente, o que beneficia o país.
O senhor falou no etanol. A Citröen usa a tecnologia do etanol nos carros que exporta?
Sim, usamos a tecnologia do etanol nos veículos que produzimos no Brasil e em outras fábricas que temos pelo mundo. Estamos produzindo e exportando para a Suécia motores com a tecnologia brasileira para o etanol.
Praticamente todos os governos estão preocupados em assegurar condições para a indústria automotiva superar a crise...
É porque é a indústria que mais gera empregos diretos e indiretos. Quando se fecha uma fábrica, são 30 a 35 mil empregos que se perdem de uma vez. A cadeia de produção inteira gera muitos empregos. Hoje uma montadora praticamente não produz peças. Ela compra de fornecedores que geram empregos. Temos ainda o setor de distribuição, com milhares de caminhões que levam os carros, com o pessoal das lojas que vendem os carros, dão manutenção etc.
O mundo está preocupado com a indústria automotiva. E ela está preocupada com o mundo, com a preservação ambiental?
Sim, e para isto o etanol é uma solução. Não é a solução, mas é uma das soluções. Temos ainda os carros híbridos, que usam combustíveis e eletricidade. Os carros produzidos hoje consomem muito menos combustíveis do que consumiam, por exemplo, há 15 anos. O petróleo hoje é muito caro e, por isso, é preciso produzir carros mais econômicos, de menor consumo. O etanol é também uma solução mais econômica para quem produz e para quem pode importá-lo.
E o carro elétrico, é viável?
O carro elétrico tem problemas a superar. Há pesquisas para desenvolver tecnologia capaz de aumentar a autonomia e a velocidade destes veículos. Os carros movidos a eletricidade produzidos hoje têm autonomia de 90 km e desenvolvem velocidade máxima de 90 km. Então é para ser usado durante uma hora numa viagem. Assim, ele é viável para uso na cidade, mas não nas estradas. Para quem mora e trabalha numa mesma cidade, deslocando-se uma média de 20 km/dia, é uma solução viável. Mas temos que pensar também na questão da bateria que fornece a eletricidade. Num determinado momento ela terá de ser trocada e o seu descarte não é bom para o meio ambiente.
Há uma pesquisa que aponta o DS, produzido pela Citröen, na década de 1950, como o veículo mais bonito do século passado. Outros modelos da empresa, o 2CV e o Traction Avant, estão relacionados entre os dez mais importantes carros da história da indústria automobilística. Qual é o segredo?
O segredo da Citröen é a imaginação, a criatividade. O DS, por exemplo, foi concebido com soluções muito modernas e o seu design foi uma verdadeira revolução. Aliás, o arquiteto Flamínio Bertoini, não fez um design. Ele fez uma escultura e, depois de pronta, disse que a ela faltavam apenas as rodas para se transformar num carro. O DS é uma obra de arte. Ele foi o modelo que introduziu a preocupação com a aerodinâmica dos veículos. Inovou no sistema de freios e na segurança, pois, no caso de uma batida, seu motor caía, evitando assim que fosse comprimido contra os passageiros. Este sistema está nos nossos carros ainda hoje.