Segurar um filho nos braços é o sonho acalentado há anos pela administradora de comércio exterior Luciana Haddad. Há dois anos, um após enfrentar complicações na gravidez provocadas pelo lúpus (doença que afeta o sistema imunológico), ela decidiu transformar a dor da perda do primeiro bebê em esperança. Aí, como ela mesma diz, começou outra exaustiva batalha, a da adoção. No Brasil, o processo é longo e demorado. Uma das causas é a burocracia, mas a concretização do sonho esbarra também nas muitas exigências feitas pelos futuros pais e mães. A maior parte quer adotar meninas com até três anos de idade, brancas, sem irmãos e sem problemas de saúde. O tempo de espera pelo novo integrante da família depende da situação da criança, mas, por conta desses filtros, uma pessoa pode passar de dois a três anos na fila da adoção.
As estatísticas deixam claro o abismo entre os dois lados de uma mesma moeda. Segundo a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que batizou uma campanha de Mude um Destino para chamar a atenção da sociedade para as condições de vida dos que esperam pela oportunidade de ter uma família, há hoje cerca de 80 mil crianças e adolescentes vivendo em abrigos país afora. Apenas 2 mil estão legalmente disponíveis para adoção. Somente 7% desse total se encaixam no perfil procurado pela maioria, a outra ponta dessa matemática. Dos 11 mil oficialmente interessados em adoção, 80% querem, de preferência, crianças recém-nascidas. E brancas.
Luciana Haddad se encaixa nas estatísticas. “No início desse processo, me senti culpada pela definição do perfil que eu queria e, às vezes, me sinto pressionada a mudar minha escolha. Perdi uma menina. Não quero substituí-la, mas hoje aceito que tenho mesmo uma preferência porque considero que será mais fácil a adaptação, para nós e para a criança”, pondera. Para a administradora de 36 anos, a vilã da história é outra: a burocracia. “São muitas entrevistas e, nessa fase, você é obrigado a ficar disponível porque eles ligam apenas uma hora antes avisando. Só a nossa habilitação demorou um ano”, reclama.
O juiz da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, Marcos Flávio Lucas Padula, no entanto, afirma que a burocracia é indispensável. “As pessoas não podem achar que é possível pegar a criança em um abrigo ou onde bem entenderem e levar para casa. A adoção tem que atender, acima de tudo, aos interesses da criança”, diz. Ele acredita que, se não fossem as restrições pessoais, todos os pretendentes à adoção ficariam menos de seis meses na fila de espera. Para Padula, o problema está mesmo no filtro.
A empresária Raquel Guerra já cumpriu todas as etapas exigidas, mas também se queixa da demora para realizar o sonho da maternidade. Aos 42 anos e casada há 19, fez seis inseminações artificiais na tentativa de engravidar. Não deram resultado. “Passou a vontade de ter um filho natural, mas não a de ter um filho”, conta. Há três anos, ela e o marido enfrentam a agonia de esperar pela chegada incerta de uma criança em casa. O casal não abre mão de uma menina recém-nascida e de pele clara. “Sei que as instituições estão cheias de crianças negras, mas minha família é italiana e eu teria que inserir a criança nesse meio. A adaptação seria difícil. Quem pode me condenar por isso?”, desabafa a empresária, que costuma visitar creches para ajudar as crianças e também em busca de uma herdeira.
Para o coordenador da campanha lançada pela Associação dos Magistrados, é preciso repensar os critérios pessoais definidos para a escolha dos adotandos. “O senso comum diz que o problema é a burocracia, mas o fato é que a maioria quer o que não existe. É uma questão de abrir exceções”, observa Francisco Oliveira Neto, juiz da Infância e da Juventude em Florianópolis (SC). Um dos focos da campanha da AMB é ressaltar a importância da adoção legal, ou seja, por meio do Poder Judiciário. Mas a idéia fundamental é mesmo discutir a necessidade de abolir as restrições de cor, idade e sexo.
Apesar de ter buscado uma criança que se encaixasse ao perfil clássico dos pretendentes à adoção no Brasil, a jornalista Ângela Barbosa, 50 anos, teve sucesso. Graças à guarda provisória concedida pelo juizado, a pequena Alice chegou à casa de Ângela apenas 24 dias após ter nascido. Hoje, ela aguarda com ansiedade a definição do processo de adoção, prevista para maio de 2009. “Queria realmente alguém que se parecesse fisicamente com a família, mas se fosse começar de novo, não restringiria um perfil”, afirma.
Assim como o casal de estrelas internacionais Angelina Jolie e Brad Pitt – que além dos três filhos biológicos resolveu adotar outras três crianças (um cambojano, um etíope e um vietnamita), Fábio e Suzana (os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados), casados há 30 anos, também deixaram de lado as restrições de cor, sexo e idade e abriram a casa e o coração para outras crianças. O casal já tinha dois filhos biológicos, com 19 e 17 anos, quando conheceu Lia, então grávida de Raíssa. Como a mãe não tinha condições financeiras de criar a garota, eles decidiram apadrinhá-la como forma de ajudar. A irmã da menina foi apadrinhada por outro casal.
Quando Raíssa completou sete anos, Lia faleceu e deixou uma carta manifestando o desejo de que as filhas fossem adotadas pelos padrinhos. O processo foi acompanhado pelo Ministério Público e a menina seguiu para a
casa de Fábio e Suzana. Quatro anos depois, os padrinhos de Rachel, a irmã de Raissa, devolveram a menina, alegando dificuldades financeiras. Fábio e Suzana não pensaram duas vezes e resolveram adotá-la também. E garantem que o fato de as meninas – agora com quase 18 anos – serem negras nunca foi problema. “Assim que elas alcançarem a maior idade, poderão decidir se querem realmente adotar novos pais”, diz Fábio.
Tomáz de Aquino Resende, procurador de Justiça, coordena o Centro de Apoio ao Terceiro Setor do Ministério Público de Minas Gerais. Na opinião dele, os ritos do processo de adoção poderiam ser simplificados. “Tem de haver certa burocracia, mas é muita gente que aparece perguntando as mesmas coisas.” O procurador ficou na fila de espera o tempo de uma gestação até conseguir adotar André, hoje com 18 anos. Assim como considera a burocracia necessária, para Tomáz de Aquino os filtros determinados pelos interessados em adoção também são. “Sou marrom, quase mulato. Não poderia querer adotar um louro. Fiz essa opção como também a de dar preferência a um recém-nascido. Não ajuda, mas é um critério e não vejo isso como uma maldade ou algo do gênero.”