Desde o final de 2007 a economia dos Estados Unidos está em recessão. A percepção de sua gravidade só ficou clara em setembro do ano passado quando o governo norte-americano permitiu que o banco Lehman Brothers falisse. Em um primeiro momento pensou-se que o problema se restringia à fragilidade creditícia das hipotecas no mercado habitacional daquele país. Muito rapidamente viu-se que o sistema financeiro da Europa Ocidental também fora afetado. Todavia, nessa ocasião, o entendimento predominante era de que se estava diante de uma crise do sistema financeiro restrita às economias industrializadas. Vale dizer, desta feita as economias emergentes não seriam afetadas. Foi nesse contexto que o presidente Lula referiu-se a seu possível impacto no Brasil como uma marolinha.
No final do ano passado o mundo viu, de um lado, que a crise não era apenas do sistema financeiro, mas atingia profundamente a produção e o consumo e, de outro lado, que se estendia também a todos os países, industrializados e emergentes. Era, enfim, uma crise global cujas proporções, tanto do ponto de vista de sua profundidade quanto do ponto de vista de sua extensão, são incertas e não sabidas.
Se a crise é global, esforços para enfrentá-la no âmbito nacional são louváveis, necessários, mas insuficientes. Urge ações coordenadas internacionalmente com foco nas suas prioridades. Primeiro, restabelecer a credibilidade e o funcionamento do sistema financeiro. Segundo, retomar o crescimento econômico e a recuperação dos empregos. Equilíbrio fiscal e controle da inflação serão cuidados no futuro quando o crescimento econômico retomar o seu curso normal.
Ações coordenadas internacionalmente não são apenas aquelas objeto de decisões de instituições multilaterais como o FMI, o Banco Mundial ou algum órgão das Nações Unidas. São também decisões de governos nacionais que se complementam, mormente nas principais economias do mundo. Por essa razão, há uma expectativa muito grande sobre o resultado das medidas que estão sendo tomadas pela administração Obama nos Estados Unidos.
Do lado do sistema financeiro, o governo americano anunciou um programa de recuperação dos bancos. Propõe a criação de uma entidade pública para administrar os créditos tóxicos, retirando-os dos balanços dos bancos para que estes possam se capitalizar e voltar a oferecer crédito. Um ponto crucial para o êxito do programa será a proteção dos depósitos e, para isso, torna-se fundamental evitar que os bancos quebrem. O programa será financiado pelo Banco Central americano. Se bem-sucedido, como foi o Proer do governo Fernando Henrique aqui no Brasil, o primeiro passo para a recuperação da economia está dado com repercussão sobre todo o sistema financeiro internacional. Se não, a recessão internacional continuará.
Do lado da produção e do consumo, o presidente Obama aprovou no Congresso um programa de investimentos públicos para estimular o crescimento. Seus impactos sobre a economia americana serão mais lentos. Seus efeitos sobre a economia global são muito mais incertos. Se ao programa estiverem associadas medidas protecionistas, seus efeitos sobre o comércio internacional será negativo e a recessão mundial, em consequência, mais extensa.
O mundo espera pela recuperação da economia americana e pela possibilidade de acesso ao seu mercado, ainda o maior do planeta, condições necessárias para o fim da crise.