Henrique Meirelles já é o presidente do Banco Central que mais tempo ocupou o cargo. Em 2003, ele enfrentou várias turbulências da economia e muitas críticas pela alta taxa de juros. Mas nada que se assemelhe à crise atual que, garante, é a pior da história mundial desde 1929. Apesar da confiança que demonstra, ele admite a possibilidade de permanecer no cargo até o final do governo Lula, adiando o sonho de disputar o governo de Goiás no ano que vem. Tudo vai depender da evolução da crise. Meirelles esteve em Belo Horizonte e conversou, com exclusividade, com a Viver Brasil.
Há hoje no Brasil um grande desencontro de informações. Setores do governo afirmam que o país está recuperando sua economia, apresentando crescimento de vendas. Do lado do empresariado, a fala é outra. Dizem que as dificuldades estão aumentando. Como o senhor vê esta situação?
No Brasil de hoje, de um lado existe uma desaceleração importante. Ano passado crescemos a uma taxa de 5%. Este ano vamos ter um crescimento positivo, mas com taxas bem menores. Então existem sim razões para as pessoas ficarem preocupadas com a desaceleração econômica. É o efeito da crise mundial. Mas o fato de o Brasil estar mais preparado para enfrentar a crise do que no passado, faz com que o desempenho do país seja melhor que a média mundial. Então as duas situações são verdadeiras. Existe uma desaceleração real, mas, ainda assim, estamos apresentando crescimento da economia. Importante que vamos crescer acima da média mundial e sair desta crise melhores do que entramos, em termos relativos. Para isto, estamos tomando uma série de medidas que vão surtir efeito gradualmente, mas eles se tornarão mais e mais aparentes com o passar das semanas e dos próximos meses. Estamos atentos e, se houver necessidade, novas medidas serão implementadas para assegurar o crescimento econômico.
O senhor falou, durante sua exposição, que o Brasil será o primeiro a sair desta crise. Mas é possível algum país sair da crise isoladamente, fora do contexto mundial?
Não há dúvida de que a crise é global e vai haver um momento de recuperação global. No entanto, nem todos os países têm condições iguais e nem todos sairão ao mesmo tempo. Alguns sairão da crise antes dos outros e nós esperamos que o Brasil seja um dos países a liderar o processo de saída, em função de suas melhores condições de quando da entrada na crise. Condições da reserva, da estabilidade econômica, da dívida pública cadente em relação ao produto interno, e também pelo fato de termos entrado nela com uma demanda interna muito forte, impulsionada pela melhora no emprego e na renda.
Nosso mercado interno é capaz de sustentar o nosso desenvolvimento?
Sim, esta é uma das grandes forças do Brasil. Mais de 41 milhões de pessoas cruzaram a linha da pobreza para cima, nos últimos cinco anos.
A classe média se tornou maioria no Brasil. Isso dá condições ao país de ter, hoje, crescimento impulsionado pela demanda doméstica. O Brasil criou um milhão e meio de empregos, em média, por ano nos últimos cinco anos. A renda média tem aumentado, inclusive de janeiro de 2008 a janeiro de 2009, aumentou, em média, 5%. A massa salarial mais de 7%.
Apesar da taxa de crescimento, segundo as previsões, ficar próximo de zero, em 2009, há sinais de que o país não terá uma taxa de desemprego tão alta. O senhor acha que é isto mesmo que acontecerá?
A taxa de desemprego está subindo um pouco, mas, certamente, não vai atingir aqueles níveis de 2002, 2003, quando assumimos. A taxa de desemprego deverá se situar num patamar bem mais baixo do que no início deste governo.
A que taxa o Brasil precisa crescer para manter o nível de emprego e abrir outros novos e, assim, atender a população que vai chegando ao mercado de trabalho anualmente?
O Brasil cresceu nos últimos anos a uma taxa média de 5%, contra um crescimento de 1,9% no período 1999/2003. Portanto, eu acho que o Brasil tem uma possibilidade de ter um crescimento nos próximos anos que poderá se aproximar dos 5%.
O senhor é um profissional com larga experiência no setor financeiro, especialmente no setor bancário, por já ter sido presidente de um banco internacional. Na sua avaliação, qual o diferencial do sistema bancário brasileiro nesta crise?
A crise financeira dos anos 90, no Brasil, ensinou ao setor regulamentar brasileiro, especialmente ao Banco Central, muita coisa. O Banco Central
do Brasil cresceu muito e a regulamentação e fiscalização do sistema, durante esse período, avançaram e, hoje, são consideradas modelo mundial. As normas brasileiras são mais rígidas, o escopo da fiscalização mais amplo. Temos 21 tipos de entidades no mercado financeiro brasileiro, todas elas fiscalizadas e normatizadas no Banco Central, diferentemente de outros países, onde isto não acontece. Nos Estados Unidos, por exemplo, em algumas situações, faltaram a regulamentação financeira e a supervisão. Portanto, esta é uma das características importantes de nosso sistema: fiscalização rigorosa e uma normatização cuidadosa.
Mesmo respeitando-se as diferenças entre os países, o senhor acha possível que se consiga chegar a uma situação de normatização mais universal do sistema financeiro?
Sim, existe um avanço neste sentido, que está sendo coordenado pelo chamado Fórum da Estabilidade Financeira, que, inicialmente, era constituído apenas pelos países industrializados da Europa e pelos Estados Unidos e que agora passa também a ter os emergentes, Brasil, China, Índia. Isto vai permitir que se padronize um pouco mais estas normas regulatórias mundiais. O Fórum da Estabilidade Financeira vai fazer recomendações fortes a todos os países sobre a normatização bancária.
As crises financeiras são cíclicas e causam sérios problemas ao mundo. O senhor acha possível evitá-las?
Nós não vamos eliminar os ciclos econômicos, mas, certamente, poderemos eliminar crises graves e sérias como esta. Essa é a finalidade de todo o trabalho que está sendo feito atualmente. Mas temos que lembrar que esta é a pior crise desde 1929, portanto espera-se que deixe lições para que se evitem outras desta magnitudade.
A estabilidade política contribui no enfrentamento destas crises financeiras?
Este é um outro ponto forte do Brasil que tem uma democracia consolidada, um sistema jurídico independente.
Em outros tempos, a economia brasileira foi contaminada pela situação política e econômica da América Latina. O senhor acha que este risco de contaminação já não existe?
Hoje o Brasil está numa situação muito forte do ponto de vista econômico. Não dependemos mais de situações de ordem regional. O país tem uma economia reconhecida mundialmente, é grau de investimento e, portanto, tem condições de ter postura própria, sem depender, necessariamente, da avaliação da região. Há que se considerar também que a América Latina, como um todo, tem se fortalecido economicamente na última década.
Por causa da queda na taxa Selic, já se anuncia que haverá queda na remuneração da caderneta de poupança. Como ficará este poupador, especialmente os pequenos, com as mudanças que estão por vir?
O pequeno poupador certamente estará protegido e não tem com que se preocupar. Não há dúvida de que uma série de questões da economia brasileira, uma série de montagens estruturais que estavam ancoradas em taxas de juros elevadas e com a queda das taxas de juros nos últimos anos, algumas coisas estão sendo reformadas. Mas não há dúvidas de que o poupador brasileiro, independentemente de onde tenha aplicado, está protegido, inclusive pela estabilidade econômica.
O poupador, grande ou pequeno, que se acostumou com rendimentos a taxas elevadas, terá então que se acostumar com uma nova situação, de menor remuneração nas aplicações?
As taxas de juros que prevalecem no Brasil hoje são, sem dúvidas, as menores de muitos anos. Quando assumimos o governo a taxa de juros real era de 17%, hoje é de 5%. Então existe um processo normal. De um lado as taxas de juros são menores, mas de outro existe maior estabilidade, maior segurança. Não se teme mais aqueles planos econômicos que se tinha no passado, aquela insegurança que cada um tinha em relação ao seu patrimônio. Hoje não existe isto mais. O Brasil é um país estabilizado, com todas as condições de oferecer segurança à sua população e aos seus investidores no sistema financeiro.
Agora uma questão sobre o seu futuro político. A crise financeira pode atrapalhar os planos do senhor de disputar o governo de Goiás? Esta é realmente a sua pretensão política?
No momento estou totalmente dedicado às questões do Banco Central e não tenho tido tempo de pensar no futuro.