Sexta, 18 de Maio de 2012
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Desaparecidos

Crianças que somem num piscar de tempo; familiares que vivenciam, a partir dali, um eterno luto

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Fotomontagem: Paulo Werner / Fotos: Robson Regato, Joel Rocha, Daniel de Cerqueira


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Perderam-se nos labirintos deste imenso planeta. A história de crianças e adolescentes congelada nas fotos ao lado ou espalhadas na internet e locais públicos, até aí completa, lustradas como a do melhor filho, se eclipsa. Não se sabe o que ocorre depois daquele efêmero instante de tal dia, tão macerado na mente da mãe e diluído nas estatísticas de mais um caso nas delegacias de polícia. Sumiram num mundo imenso, populoso, mas também vigiado, conectado, da era da informação ligeira. Onde estão? Ninguém viu, não há notícia, numa escala dolorida de suspense que eleva o desespero do choque inicial, a culpa por não ter sido capaz de evitar o desaparecimento, a impotência, a dor da perda ao sofrimento crescente. À ferida que não se cicatriza ao lado da esperança nunca perdida, a determinação de virar o mundo e encontrar o filho vivo, crescido, pouco diferente de quando se foi. Misturam-se nesta ambiguidade da ausência sem perda concretizada: o luto eterno enquanto dura a falta de resposta.

Processo inacabado, sem fim, que tira as mães do curso natural da vida e pereniza a dor. “Quando o filho desaparece é pior que a morte, porque é uma dúvida constante”, diz Ivanise Esperidião da Silva, mãe de Fabiana, sem notícias desde 23 de dezembro de 1995. Foi a uma festa, perto de casa, no bairro Pirituba, zona norte de São Paulo e não voltou. Fo­ram 30 minutos entre a saída de casa e chegada da mãe à sua procura. Peregrinou por delegacias, hospitais, IMLs e entrou em estado de choque por 53 dias, quando teve de ser internada. O conflito maior era com Deus: por que eu? “Nunca havia ficado sem a minha filha. Se Deus quisesse castigar que me levasse e a trouxesse de volta.”


Sobreviveu, Fabiana não retornou nestes 13 anos longe de casa e ela conseguiu ultrapassar essa fase de de­sespero. “Depois que tive o segundo AVC, agradeci a Deus por não ter me deixado morrer sem saber o que ocorreu”, afirma Ivanise. Quer uma resposta como as outras mães, são otimistas, determinadas a encontrar sob qualquer custo os filhos e sempre acreditam, ou melhor, têm certeza de que estão vivos. Qualquer pista cria expectativa e a obrigação de segui-la, desdobra nos questionamentos do será que fiz tudo, não foi insuficiente? Empurrou Ivanise a ir de São Paulo ao interior da Bahia, 600 km de Salvador, para conferir foto enviada por morador da cidade que parecia com Fabiana. Mostrou à filha que mora com ela, ao ex-marido e mesmo diante da negativa de que não havia semelhança com a filha desaparecida, foi até lá. “Levei roupas da Fabiana. A vontade de ser é maior que a frustração da volta.”


Assim resiste à tragédia da vida, que se repete na de outras mulheres, juntas na ONG Mães da Sé, onde tentam se habituar a ela. O que não passa, mas só aumenta, é a ferida aberta com a falta de notícias. “A incerteza é que me mata aos pouquinhos. Minha filha, que criei para casar, me dar netos, passou metade da vida fora. Se tivesse morrido, já teria me acostumado”, diz Ivanise. Daí a dor ser maior, avaliam, do que ter filho morto. Quantificada em pesquisa da psicóloga Sandra Rodrigues de Oliveira para a tese de mestrado Onde está você agora além de dentro de mim, da PUC do Rio de Janeiro, onde ouviu 11 mães de crianças desaparecidas.

 

“Elas acham que os filhos estão sofrendo. Têm a imagem de que são violentados, coagidos, forçados a trabalhar”, diz Sandra. Não se conformam com a perda abrupta de uma criança saudável, que sumiu num segundo de descuido e se sentem culpadas por não terem impedido. A telefonista Francisca Ribeiro Santos puxa num instante o fio da memória daquele fatídico 2 de outubro de 2007: o único filho Hugo, na época com 10 anos, havia ido à aula das 11h às 15h, fez prova de matemática, voltou para casa, foi brincar em frente à casa em Guarulhos, na Grande São Paulo. “Às 18h15, minha cunhada, que cuidava dele, disse que estava na hora de entrar, tomar banho”, lembra Francisca. É o último registro da vida de Hugo com a família: há 1 ano e 6 meses, ao mesmo tempo, curtos e longos. “É como se fosse ontem, mas a dor prolonga-se, intensifica a cada dia.”


Não consegue trabalhar, está de licença médica, pensa no filho todas as horas, conversa sozinha, sonha que está com ele. A vida fica em suspense, fora da realidade até o desfecho do que ocorreu. “Impossível alguém desaparecer igual a pó. Você vive numa tristeza eterna, sempre na expectativa”, afirma a ex-deputada paranaense Arlete Caramês, mãe de Guilherme, desaparecido em 1991, da porta de casa, em Curitiba, quando estava com 8 anos. Passaram-se 18 anos sem o único filho, nenhum indício dele, só o acompanhamento das transformações da sua adolescência, da juventude em simulações de fotos no computador. Só ali faz ideia de como está Guilherme, o filho que custou a ter aos 40 anos. Agarra-se na esperança de revê-lo como nas fotografias e na ajudaa outras mães na mesma situação. Ela, como Ivanise, fundou uma associação de socorro às famílias de pessoas desaparecidas. “A gente se sente mais útil, podendo dar a mão a quem não sabe aonde ir.”

Isto ocorre com a maioria dos pais que, depois do choque do sumiço, sente a falta de auxílio social. “Quando morre, as pessoas dão todo o apoio, mas quando desaparece é durante um período, depois voltam à vida normal e as mães não. Elas se sentem desprezadas”, explica a psicóloga. Sobra até para os maridos, os companheiros, que acreditam não sentir a mesma dor e os filhos que ficaram. “O que desapareceu sempre é melhor, mais bonito, o que está junto é bagunceiro.” Coisas que não se entendem, apenas nas associações onde elas se juntam à procura de solução para o problema, quase sem a presença de homens. Foi na de Arlete Caramês que surgiu a proposta de exigir a procura imediata.


Antes da lei nº 11.259, de 2006, a busca pelos desaparecidos só ocorria após 48 horas da ocorrência policial. Hoje, as delegacias são obrigadas a informar imediatamente às polícias Rodoviária e Federal, portos, ae­roportos e terminais de ônibus. “Logo após a ocorrência, a autorização dos pais, as fotos são publicadas na internet e em cartazes”, diz Hugo e Sil­va, titular da Delegacia Especializada de Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, de Minas. A equipe policial sai às buscas e se a criança ou o adolescente é localizado, passa por atendimento psicossocial antes de ser devolvido à família.

“A maioria, 98% dos adolescentes, não desaparece, foge em razão de conflitos. Ele é sintoma da desorganização familiar”, afirma Hugo e Silva. Há outros casos, de disputa de guarda, quando um dos pais sequestra o filho, e os raptos. De 10% a 15% permanecem sem solução por longo período. “Pela minha experiência, essas famílias não devem perder a esperança, nunca desistir.” As fotos vão continuar espalhadas, envelhecer com a ajuda do computador enquanto não se vê no real, passar de mão em mão em contas de luz até uma resposta à aflição dessas mães eternamente machucadas. A dona de casa Carla Kymaria Oliveira vive há 1 ano e 9 meses à espera do filho caçula João Vitor, que foi buscar presente de aniversário para o pai no bairro Eldorado, em Contagem, Grande BH, e sumiu. “Ele era os meus olhos. Hoje minha vida é uma tragédia, ninguém sabe o que sinto”, diz.

Guarda os brinquedos do caçula, o coelhinho que ganhou quando nasceu há 9 anos, as camisas preferidas. Vai a locais onde pressente estar o filho e já se deparou com DVD, onde tem quase certeza ser o seu João Vitor em companhia de uma mulher e aguarda a apuração policial. “Se tivesse dinheiro, já teria o encontrado, porque quem sofre sou eu, os filhos deles (dos policiais) estão em casa.” Desabafa, chora, se atormenta, mas, como ocorre com todas as mães, aferida na pesquisa da psicóloga San­dra, vive à espera de o filho chegar pelo portão e se juntar aos quatro irmãos, ao pai Charlston Ferreira e a ela. Deixar esse luto eterno, de quase dois anos, cauterizar a ferida, voltar à vida como deve ser e é para a maioria das pessoas.

 


Galeria de Fotos

Onde está você agora?

O que fazer
- Procurar as delegacias de pessoas desaparecidas, onde será feita a
ocorrência e autorizada a publicação da foto no site da Rede de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDesap), da Secretaria Especial de Direitos Humanos 
- A busca tem de ser imediata, logo após a ocorrência policial, segundo a lei 11.259, de março de 2006. Antes, a procura só ocorria 48 horas depois de registrado o desaparecimento

Números
- 126 adolescentes e 26 crianças desaparecidos em Minas
- 1.247 casos registrados na ReDesap
- De 10% a 15% das ocorrências registradas no país, que podem chegar a
40 mil crianças desaparecidas por ano, permanecem sem solução por longo período

Onde há mais sumiço
1º Rio de Janeiro
2º São Paulo
3º Minas
4º Paraná
5º Distrito Federal

Fonte: Delegacia Especializada de Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, site da ReDesap, ONG Mães da Sé

 

Foto: “Ele era os meus olhos. Hoje minha vida é uma tragédia, ninguém sabe o que eu sinto”

Carla Oliveira, dona de casa
Seu filho, João Vitor, 9 anos, desapareceu há 1 ano e 9 meses


 


 
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