Quinta, 17 de Maio de 2012
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O díficil retorno

Após a luta para se livrar das drogas, dependentes químicos têm outra dura batalha: a reinserção social. Superar o preconceito e uma possível recaída é a etapa crucial para se vencer o vício

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Alexandre Mota e Daniel de Cerqueira


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As histórias se repetem. Os enredos em muito se assemelham. Protagonistas: adolescentes em crise de identidade, em busca de autoafirmação. Eles anseiam pertencer à turma mais popular do bairro ou do colégio. Para isso, cor­rem todos os riscos. Incentivados pelos amigos, embarcam numa longa e perigosa viagem. A porta de entrada costuma ser o álcool. No percurso passam pela ma­conha e geralmente terminam em cocaína oucrack. Mas o que esses jovens não imaginam é que o caminho de volta não é tão sedutor quanto o da ida. É penoso, árduo. “O retorno é possível, mas o melhor é não comprar o bilhete de ida”, recomenda M.S., 25 anos, ex-dependente químico. O jovem fala com a propriedade de quem já passou por todos os percursos dessa viagem. Ape­sar de estar há seis anos limpo – expressão usada para se referir ao período longe do vício –, M.S. lembra que a droga é como uma tatuagem. “Você pode até conseguir se livrar, mas jamais das marcas que ela deixa.” Ele se refere principalmente a uma difícil etapa do regresso: a volta ao convívio social. A luta contra o preconceito, o estigma e a marginalização. “Alguns tratam os drogadictos como leprosos”, desabafa. E o medo à discriminação é tamanho que, assim como o rapaz, outras pessoas ouvidas pela reportagem, preferiram não se identificar. Elas receiam ser julgadas pelo passado.
M.S. encontrou no esporte o prazer após se livrar das drogas
M.S. encontrou no esporte o prazer após se livrar das drogas

O temor tem fundamento. Afi­nal, a desconfiança começa dentro de casa. “Por já estar ferida pelas atitudes do dependente, a família, muitas vezes, tem dificuldade de acreditar na sua recuperação”, afirma a psicóloga Cristiana Abreu Souza, coordenadora da Ampare – entidade que oferece tratamento e apoio a dependentes e família. “A parte mais difícil não é a abstinência, mas sim a a reinserção social”, assegura a especialista.

Ao retornar de uma internação, muitos dizem se sentir um peixe fora d’á­gua. M.S. ficou dez meses se tratando em uma comunidade terapêutica e afirma que “encarar o mundo aqui fora foi a parte mais difícil”. Hoje ele cursa faculdade e busca estágio, um dos motivos para não se identificar. “Ninguém vai me dar oportunidade se souber que sou um adicto.” Para Raquel Martins Pinheiro, diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, o preconceito se deve à associação que se faz da droga com o crime e a marginalização. E o preconceito não é apenas em relação ao passado, mas também à sua presente renúncia a outro tipo de droga: o álcool. “Na balada ou nas festas, as pessoas me tratam como um extraterrestre por eu não beber”, conta M.S.

Outro ex-usuário que também reforça o estranhamento das pessoas quando declara o não-uso de bebida alcoólica é o músico mineiro Wilson Sideral. “Já cheguei a inventar que estou tomando antibiótico para barrar a insistência das pessoas.” Com a intenção de alertar os jovens em relação ao uso das drogas, lícitas ou não, Sideral emprestou sua imagem a uma campanha do Centro Mineiro de Toxicomania. “A droga é uma ilusão, pois ela te dá um prazer momentâneo, mas em contrapartida te toma os melhores prazeres da vida, como comer bem, dormir bem e se relacionar bem com as pessoas”, destaca. Sideral é um exemplo de um ex-viciado que conseguiu percorrer o caminho de volta e se reinserir na sociedade.

Aliás, neste caminho de volta, a família exerce papel fundamental. Breno Almiro de Moura, 34, conhece bem o que é isso. A combinação álcool, cigarro, maconha e crack foi destruindo aos poucos sua vida. Breno passou a ficar agressivo, emagreceu quase 20 quilos e tinha dificuldade de memorização. Atentos aos sinais, os pais do rapaz procuraram ajuda. Orientados por um grupo de apoio, eles passaram a impor limites ao filho. “Passei a ter horário para chegar em casa. Fui perdendo tudo, a confiança deles, minha liberdade e até uma namorada”, conta. Com tantas perdas, ele finalmente aceitou ajuda. Depois de um ano de tratamento em uma comunidade terapêutica, Breno se livrou do vício. “Faz quatro anos que estou limpo”, conta com orgulho, atribuindo também aos pais a vitória. “Sem eles eu não conseguiria.”

“A droga é uma ilusão”, diz Sideral, que conseguiu se livrar do vício
“A droga é uma ilusão”, diz Sideral, que conseguiu se livrar do vício
Além da família, a internação de 12 me­ses em uma comunidade terapêutica serviu para que Breno superasse a crise de abs­tinência e se mantivesse afastado das drogas. Mas nem sempre o isolamento é o único caminho. No caso de M.E.N., 17 anos, o tratamento para se ver livre das drogas engloba apenas reuniões, palestras e psicoterapia individual e em grupo. Os Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas funcionam em regime de permanência-dia. A diretora do CMT, Raquel Martins Pinheiro, afirma que o regime é adequado pois acredita que o isolamento proposto nas comunidades terapêuticas não contribui para a volta ao convívio social. “O objetivo é fazer com que o abusador de álcool ou outro tipo de droga reduza drasticamente ou pare com o uso, mas que continue a conviver socialmente”, explica.
Breno e os pais: “Sem eles, eu não teria chegado aqui”
Breno e os pais: “Sem eles, eu não teria chegado aqui”

Para a menina M.E.N. o tratamento foi suficiente. Mas além de usar a droga, ela traficava. Descoberta pela polícia, a menina de classe média teve que passar uma noite na prisão. Pesadelo que ela não esquece. “Foi horrível”, emociona-se. Mas o sofrimento parece ter servido como lição. Liberada pelo Juizado da Infância e Adolescência sob pena de fazer tratamento, a menina hoje quer distância das drogas. Recentemente se submeteu a uma prova de fogo. Foi para um cruzeiro marítimo com os amigos do colégio. Or­gu­lho­sa, assegura que resistiu a todos os tipos de droga, inclusive o álcool.


Apesar de adotar o regime permanência-dia em casos como na menina M.E.N, a psicóloga da Ampare, Cristiana Abreu, defende que, em alguns casos, a internação é a única saída. “Refor­çamos psicologicamente os dependentes para que eles consigam lidar com a situação da droga ao saírem.” De qualquer forma, nenhum tratamento é infalível, como lembra psiquiatra Tatiana Mourão, especialista em recuperação para dependentes. “O índice de recuperação nas comunidades terapêuticas, assim como nas casas de permanência-dia, é de apenas 30%”. Para os especialistas, o baixo percentual é explicado principalmente pela dificuldade em enfrentar a nova realidade. “Algumas vezes, a pessoa faz o tratamento, consegue ficar sem usar. Mas ao acontecer um problema ou uma perda, ela busca o alívio para a dor na droga”, alerta a psiquiatra Tatiana Mourão.

 

 

Daniel: esperança na segunda internação: “Vou conseguir”
Daniel: esperança na segunda internação: “Vou conseguir”

Daniel Soares Toledo, 26 anos, passou por isso. Há três anos, ele completou o tratamento na Ampare e saiu recuperado. Mas a sentença inesperada de um processo judicial pela participação num roubo de carro o fragilizou. “Já estava limpo há um tempo, trabalhando, namorando. Mas, quando saiu a condenação, entrei em desespero.” A dificuldade em lidar com o problema o levou a recaída. “Busquei refúgio na droga e mais uma vez ela me escravizou. Chegava a gastar o salário do mês em uma única noite.” Daniel reiniciou o tratamento há alguns meses. 


O psiquiatra Arnaldo Madruga, pioneiro na recuperação de dependentes em Minas, alerta que um escorregão faz parte do percurso. “A dica é recuperar o fôlego e retomar o tratamento.” Para ele, uma das formas de prevenir as recaídas é buscar substitutivos à droga: uma viagem, um grande amor, ver o pôr-do-sol, ler  bom livro, ir a boa peça de teatro. O ex-dependente Breno concorda e acrescenta: “Hoje descobri outras formas de prazer bem melhores a um preço mais em conta”, brinca Breno.

 

Marcos e Thiago, unidos na luta contra o vício
Marcos e Thiago, unidos na luta contra o vício

A luta de perto

Um dos tratamentos mais comuns, mas também polêmicos, quando se fala em dependência química, é a internação nas chamadas comunidades tera­pêuticas. Popularmente chamadas de fazenda, por estarem geralmente localizadas em região rural, elas têm normas e leis próprias. Para entender a dinâmica desses lugares, a reportagem passou o dia na Comunidade Terapêutica da Ampare, em Divinópolis, Minas. Acompanhamos um dia da rotina dessas pessoas que têm a liberdade cerceada por alguns meses, buscando se libertarem do vício aprisionante das drogas.


O local é simples, mas bastante acolhedor. Logo na entrada, jovens, entre 20 e 30 anos, trabalhavam na horta. Eles praticavam a laborterapia, ou seja, o trabalho como terapia. A cada semana, os internos se revezam nas funções: plantam, arrumam quartos, lavam banheiros, cozinham, lavam roupas, enfim, realizam todas as tarefas domésticas da casa. Para driblar os olhares desconfiados, nos aproximamos e explicamos o objetivo da visita. Disse que entenderia os que não quisessem aparecer por medo do preconceito ou vergonha. “Vergonha? Eu teria que ter vergonha se não tivesse aqui me tratando. Mas não, tenho uma doença e estou é buscando a cura”, rebateu o carioca Kleber César Machado, 28 anos.

Kléber Machado: “Quero sair daqui e voltar a estudar”
Kléber Machado: “Quero sair daqui e voltar a estudar”

O jovem está ali há quatro meses. Faltam pelo menos cinco, já que o tratamento completo tem duração mínima de nove. Mas o longo tempo pela frente não desanima Kléber. “Eu quero sair daqui e retomar a faculdade de Educação Física, fazer um curso e trabalhar na recuperação de dependentes”, planeja. Pertencente a família de classe média alta, Kléber diz que a droga paralisou sua vida e, por isso, tem ânsia de retomá-la.

Quem também busca motivação para se livrar do vício é Leandro Car­los Alves, 25 anos. É pela filha que ele quer sair dali limpo. O rapaz já teve a vida por um fio. “Entrei em coma duas vezes por overdose.” E não foi só a saúde que Leandro destruiu. As relações familiares também foram estremecidas. “Chegava em casa louco, quebrando as coisas. Roubava tudo que via pela frente, até mantimento de casa cheguei a vender para comprar droga.”

 

Antes das refeições, os internos fazem oração
Antes das refeições, os internos fazem oração
Um dos mascotes da turma é o simpático Gustavo Henrique Bitar. Com apenas 19 anos e aparentando 16, Gustavo estava feliz da vida. A explicação: “Fui aprovado no fechamento.”  A cada três meses eles passam pela avaliação psicológica que os credenciam para a próxima etapa ou não. Ele conta que começou a experimentar drogas com 11 anos com a tur­ma do bairro e acabou ingressando num mundo mais perigoso que supunha. “Vi que meus companheiros  estavam sendo presos, assassinados ou morrendo de overdose.” Gustavo chegou na Ampare com 15 quilos a menos. “Quero isso para mim mais não. Viver de cara limpa é bom demais!”.
Leandro Alves busca na filha forças para se recuperar
Leandro Alves busca na filha forças para se recuperar

Ao longo do dia foram muitas as histórias ouvidas. Praticamente todos se dispuseram a narrar seu caminho em direção à droga e a tentativa de regresso. Agora eles querem traçar um roteiro diferente. Jovens como Rodrigo, 29, que espera conseguir se livrar do vício para terminar o curso de Direito. Ou como Thiago Xavier de Lima, 28, que promete buscar os programas que considerava caretas, como ir ao cinema, jantar fora, para não se deixar cair em tentação novamente. Até mesmo os reincidentes como Marcos Paulo, 34, e Márcio André Cordeiro, 29, acreditam que dessa vez será diferente. “Cansei de usar droga, ou melhor, cansei de deixar ela me usar”, desabafa Marcos.

Mas a realidade não é tão animadora quanto os depoimentos ouvidos. Segundo estatísticas, apenas 30% daqueles que estão ali sairão realmente recuperados. Por isso, sem dúvida, o melhor mesmo é não entrar na viagem, pois o caminho de volta é um verdadeiro labirinto. Tem saída, mas nem todos conseguem encontrá-la.

Famosos e as drogas

Não são poucas as celebridades envolvidas em escândalos sobre o uso de drogas. Muitas delas buscam tratamento, mas nem sempre vão até o final. Assim, grande parte acaba sofrendo recaídas um tempo depois

Casagrande
Em 2008, o problema com as drogas do ex-jogador e comentarista esportivo Walter Casagrande Júnior veio à tona novamente.

Na década de 80, ele já havia sido flagrado portando drogas. Ao que tudo indica, Casagrande nunca abandonou completamente o vício. Após quatro overdoses e sofrer um acidente, ele foi internado involuntariamente pela família em uma comunidade terapêutica.

Fábio Assunção
Em novembro de 2008, o ator Fábio Assunção que também já tinha tido problemas com drogas, deixou a novela Negócio da China para se internar numa clínica de reabilitação.

Vera Fisher
Em 1998 a atriz admitiu ser viciada em cocaína e se internou em uma clínica para se tratar.

Outros

- Diego Maradona -  Foram inúmeras as vezes que o ex-jogador argentino tentou se livrar do vício. A dependência da cocaína já é pública. 
- Edinho, filho de Pelé - O ex-goleiro também se internou para tratar sua dependência química.
- Cássia Eller - A roqueira morreu de infarto decorrente do uso exagerado de cocaína e álcool. 
- Marcelo Silva, ex de Susana Vieira - o caso mais recente de dependência química levou à morte o ex-marido da atriz Susana Vieira, vítima
de overdose .


 
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