Hoje pode parecer ficção, mas houve uma época, mais precisamente nos anos 50, que a dengue foi considerada extinta do Brasil. Atualmente, a doença é caso de saúde pública no país e a grande luta é para controlar epidemias frequentes em diferentes localidades. No início dos anos 80, antes do isolamento do HIV, especialistas trabalhavam com a probabilidade de a tuberculose se estabilizar no mundo e não mais existirem infectados no ano 2000. Hoje, 6 mil brasileiros morrem por ano devido à doença. Casos de febre amarela estavam restritos às regiões Centro-Oeste e Norte, agora também podem ser encontrados em locais do Sudeste e Nordeste.
A grande pergunta que assusta a todos é: por que vírus, bactérias e outros micro-organismos causadores dessas e outras doenças estão voltando com força em uma época de tamanha evolução da ciência? A resposta simples é que eles não estão voltando, simplesmente porque nunca foram embora – vivem há mais tempo que o homem em nosso planeta. A mais complexa é que altamente adaptáveis às mudanças do meio ambiente, esses micro-organismos estão sendo influenciados pelo aquecimento global e a consequência, segundo especialistas, será um aumento, daqui a alguns anos, de cerca de 30% da população mundial exposta a doenças transmitidas por eles.
O médico infectologista e professor da Unifenas Antônio Carlos de Castro Toledo Jr. explica que o aquecimento do planeta está causando aumento de chuvas e umidade em vários países. O resultado, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que essa alteração está favorecendo a expansão de mosquitos, que podem atingir áreas nas quais esses insetos não estão presentes atualmente. “Outro problema é o desmatamento de florestas virgens na Amazônia, África e Ásia. A ocupação desordenada dessas regiões deve expor o homem a novas doenças, ainda desconhecidas, e que têm alto potencial de gravidade”, afirma o médico.
Há ainda fatos como a facilidade, atual, de homens se locomoverem por todo o mundo e levarem mais do que a bagagem para as terras visitadas. 8 “As epidemias desconhecem fronteiras. Elas são uma ameaça potencial para todos os países”, observa Toledo Jr. Ele diz que uma das maiores preocupações da comunidade científica, neste momento, é a gripe aviária. Apesar de não se saber se essa epidemia ocorrerá em seres humanos, ou quando ela ocorrerá, o maior temor é que a doença seja tão agressiva como a que atingiu o mundo em 1918-1919, que ficou conhecida como gripe espanhola.
Para que um problema dessa dimensão não aconteça, especialistas e governos tentam traçar estratégias específicas para o controle e redução do número de casos de doenças infecciosas. O mais eficiente modo de controle é a vacina, porém, ainda não foi descoberta para pessoas infectadas por aids, hepatite C, dengue, malária, para citar algumas.
Outra forma de controle é o tratamento precoce dos doentes, para prevenir a transmissão a pessoas saudáveis. Mas essa é uma ação que depende de investimentos e, muitas vezes, a desigualdade social, segundo o infectologista do Hospital Oswaldo Cruz de São Paulo, Stefan Cunha Ujvari, pesa, e muito, neste combate. O médico lembra o caso da África e o fato de alguns países desse continente terem até 25% de sua população infectada.
“A preocupação não é somente com a falta de verba para a saúde, mas no fato de a maioria dessas pessoas não ter acesso a remédios. O resultado é que há uma progressão muito rápida da aids que diminui a defesa do paciente e o torna mais suscetível à tuberculose, por exemplo”, diz Ujvari. O problema é que, associado à aids, o parasita da tuberculose fica mais resistente, comprometendo a eficácia dos medicamentos.
Se fosse um caso isolado já seria preocupante, mas o fato é que a multirresistência a remédios tem aumentado nos últimos anos. Primeiramente, os especialistas pensaram que as bactérias multirresistentes estavam presentes somente no ambiente hospitalar. Agora, há casos de aumento de resistência em casos de malária em algumas regiões da África e da Ásia, e também da tuberculose, em todo o mundo. “A resistência antimicrobiana pode ter várias causas diferentes, como uso inadequado de antibióticos, principalmente associado à automedicação, e dos antimicrobianos na agricultura e pecuária”, observa o médico Toledo Jr.
O mais preocupante em todo esse processo é que a doença causada por um micro-organismo multirresistente pode ser de difícil tratamento ou ainda pior, intratável. Há também o fator do custo do tratamento das doenças, que ficam mais caros. “No Brasil, existem realidades de saúde tão diversas quanto o tamanho do país. De modo geral, o setor de saúde funciona no limite de sua capacidade na maior parte do Brasil, o que já apresenta um risco no caso de uma epidemia. Outro problema é a pouca experiência e preparação para identificar doenças pouco frequentes e o pequeno número de profissionais formados e com experiência em epidemiologia de campo”, analisa Toledo Jr.
Para ele, o grande desafio é envolver todos os setores da sociedade para o avanço na área de vigilância epidemiológica. Se o papel do governo é prover os meios necessários para a vigilância e controle das doenças, o médico infectologista diz que o papel dos profissionais de saúde é fundamental para a educação e disseminação de informações para a população. “A sociedade deve seguir as recomendações técnicas, como manter a vacinação em dia, tomar as medidas preventivas necessárias, como combater os criadouros do mosquito. Os micro-organismos adaptam-se rapidamente às novas realidades. É preciso que a sociedade funcione de forma articulada para ser mais rápida ainda”, diz.