Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Mercado Financeiro

Volta por cima

Após passar por várias crises, Banco Rural consegue se re-erguer e registra lucro de 50 milhões de reais em 2008

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: Ilustração: Paulo Werner


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Ocenário é de crise financeira internacional. Provocou movimentos no mercado jamais imaginados, como a falência do gigante norte-americano Lehman Brothers e a venda de outro monstro do sistema financeiro, o Merrill Lynch, para o Bank of America. Diante de uma realidade tão preocupante seria quase impossível imaginar o crescimento de instituições financeiras no Brasil, principalmente se o banco em questão tiver passado por tantas outras crises recentes que, para muitos analistas, seria a derrocada final. Mas é justamente o que está ocorrendo com o banco mineiro Rural. No ano passado, a instituição financeira conseguiu aumentar seu lucro de 26 milhões de reais registrados em 2007 para 50 milhões de reais. Existem, segundo o presidente João Heraldo Lima, algumas razões básicas para esta retomada do crescimento. A principal delas foi que o banco aprendeu muito a lidar com crises. Nos últimos anos, passou por várias situações adversas. Uma delas foi no fim de 2004, com a falência do Banco Santos, que provocou dificuldades para instituições financeiras de pequeno e médio portes. Outro momento  foi em meados de 2005 – mas desta vez, sozinho – com o escândalo político do mensalão, que provocou a queda de ministros, a cassação de mandatos de parlamentares e o indiciamento de pessoas importantes envolvidas no esquema de recebimento de propinas e caixa dois. “Adquirimos experiência forte para lidar com situações desse tipo. O fator determinante para o Rural ter conseguido superar as crises foi a qualidade de sua carteira de crédito”, diz Lima. Como o banco tinha clientes bons pagadores, conseguiu atender à alta demanda de resgates no auge do mensalão.


Superada a crise, o Rural passou por processo de re-estruturação. Entre outras ações, houve o fechamento de 67 das 90 agências, ajustes no quadro de pessoal e redução de 15 para quatro no número de diretores. “Hoje, temos um banco menor, mais enxuto, mais administrável. Chegamos a um tamanho que o conhecemos 100%”, assevera o vice-presidente administrativo, Vinícius Samarane. A expertise adquirida anteriormente foi fundamental para que os executivos percebessem, em junho do ano passado, que os ventos no mercado financeiro estavam mudando e que uma grave crise se aproximava. “Sabíamos que haveria mudanças e começamos a nos perguntar o quê e como deveríamos agir, pois não sabíamos das proporções da crise”, relembra o presidente João Heraldo Lima.

 
Uma das ações do banco foi nas operações com o consignado – que são de longo prazo, pois podem chegar até 72 meses – que registravam elevação. Mas diante da nova realidade do mercado financeiro mundial, foram reduzidas e isto fez com que o segmento demandasse menos recursos e não pressionasse o caixa do banco. “Ao reduzir a produção do consignado, geramos o seguinte efeito: emprestamos volume próximo ao que seria recebido das prestações
dos contratos anteriores. Do ponto de vista de caixa, o consignado ficou mais neutro. Com isto, transferimos seus recursos para reforçar o middle market (mercado de pequenas empresas)”, explica o presidente do Rural.


Vinícius Samarane e João Heraldo: aprender com a crise
Vinícius Samarane e João Heraldo: aprender com a crise

Esta estratégia foi fundamental. Enquanto as grandes instituições financeiras do país cortaram o crédito para as empresas de pequeno e médio portes, o Rural ampliou os recursos neste segmen­to. “Tiramos de uma operação longa para aplicá-los em outra que oferece liquidez”, afirma Sa­ma­rane. A ação teve seus louros colhidos pelo banco, pois o Rural viu sua rentabilidade nestas operações aumentar. “É um caso clássico da oportunidade surgida dentro da cri­se”, diz João Heraldo Lima.

Outra mudança na gestão do banco foi sua total profissionalização. Até meados de 2008 o Rural era presidido por Kátia Rabello, sua controladora, que deixou a presidência para assumir a do conselho de administração. Também fazem parte do conselho o ex-diretor Plau­to Gou­vêa, além de João Heraldo Li­ma. “Muito em breve traremos no­mes de fora, independentes, de notória competência e capacidade”, antecipa o presidente do Rural, sem revelar nomes. A intenção é ter um conselho atuante e profissional, o que reforça sua governança corporativa. O Rural também intensifica a política de aproveitamento da prata da casa. Funcionários jovens na idade, mas velhos de casa, que comprovaram sua competência e comprometimento com o banco estão sendo promovidos a cargos estratégicos.

 

A meta de crescimento do Rural para 2009 é entre 20% e 30%, o que pode ser considerado razoável em virtude da crise internacional e porque será sobre uma base bem maior  que a do ano passado. E essa elevação, de acordo com os planos do banco, ocorrerá sem alteração de seu foco. “Uma das razões da história de sucesso do Rural ao longo dos 45 anos foi saber manter o foco. Estrategicamente, acreditamos nos dois segmentos, o middle market e o empréstimo consignado. Estruturalmente, todas as condições macroeconômicas do país apontam que estes segmentos continuarão demandando crédito”, salienta Lima. O crescimento não será físico, em número de agências, mas operacional e por meio de parcerias. A expansão do Rural será nas regiões centro-sul e Nordeste do Brasil, onde há maior concentração de agências. Ao todo são nove, das 23 existentes.


O principal executivo do Rural acrescenta ainda que, além da manutenção do foco, outro fator preponderante para o crescimento do banco foi sua atuação no exterior. Atualmente, a instituição mantém o Rural In­ter­national Bank, em Nassau, capital das Bahamas, e o Rural Europa, em Portugal. Segundo Heraldo Lima, a área internacional é uma complementação dos serviços prestados no Brasil, principalmente na área de comércio exterior. “Isso é um diferencial importante porque nossos concorrentes (pequenos e médios bancos) não têm estrutura no exterior”, pontua o executivo. A crise internacional prejudicou um pouco as operações de comércio exterior, mas em seu auge elas chegaram a representar quase 40% dos resultados do banco, dentro do segmento de middle market. E a meta é fazê-las voltar a crescer.

Foto: Daniel de Cerqueira

 

Balanço

Carteira de crédito

2007  R$ 805 milhões
2008  R$ 1,054 bilhão

Depósitos

2007  R$ 1,047 bilhão
2008  R$ 1,350 bilhão

Patrimônio líquido

2007  R$ 340 milhões
2008  R$ 370 milhões

Lucro líquido
 
2007   R$ 26 milhões
2008   R$ 50 milhões


 
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