Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Ele não para de faturar

O empresário Augusto Martínez, da Construtora Mudar, prevê faturamento duas vezes e meia maior em 2009 com o aumento de 400% no número de unidades construídas. Segundo especialistas, setor da construção civil deve ser a mola propulsora para a retomada do crescimento no país

Texto: Silvânia Arriel e Ana Magalhães | Fotos: Nélio Rodrigues


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Era final de tarde e via-se de cima Jacarepaguá, o mar, a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. “Você está com sorte: não há vento.” O ultraleve desliza, sem turbulência. Antes de decolar, havia checado e re-checado todos os equipamentos fora e dentro do apertado aviãozinho, verificadas as condições meteorológicas. “Não podemos ir até as nuvens, não é permitido.” Manteve a altura de 500 pés (167 metros de altura), de olho nos urubus, que espaçadamente apareciam nos céus. “Não se assuste, vou desligar o motor. É hora de preparar para o pouso.” O ultraleve desce sem percalços no aeroclube, numa sequência prevista, estudada, pesquisada. Não há erro. A curta viagem sobre os ares cariocas é extensão da vida do empresário Augusto Martínez, o piloto deste avião e de quatro empresas nas áreas de construção e saneamento, acoplados no grupo imobiliário AGM.

O jeito de agir ali, na cabine do ultraleve, vem da forma como este economista, com curso de extensão em Harvard, lida com os negócios: voa alto até onde o lucro se distende, sem sair do prumo capitalista. Transmutou de produtos para consumidores de alta renda para os de baixa, quando somou o poder de compra deste estrato social, agora afeito ao sonho de consumo da casa própria, ao déficit habitacional do país de 7,2 milhões de unidades. Adição certa: a Construtora Mudar, voltada para esse público, vai faturar este ano 320 milhões, 156% a mais que em 2008. Era para ser acima, mas as restrições ao crédito provocadas pelas turbulências mundo afora fizeram-na voar pouco mais baixo, com trajetória ascendente. A crise, garante ele, só afetou a empresa no quesito financiamento aos clientes e acredita que haverá é oportunidade a quem estiver bem posicionado no mercado. Encontra eco de que a construção civil passará com certa distância deste turbilhão.

“Este é um setor estratégico, fundamental para a recuperação da 8
economia, porque movimenta toda a cadeia produtiva”, diz Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios. É onde o governo deverá agir com rapidez, acredita o especialista, com forte subsídio ao sistema de financiamento a consumidores de baixa renda. Justamente aí o foco dos clientes da Mudar, que prevê crescimento este ano. Os números são quatro vezes maiores: de 1,8 mil unidades construídas no ano passado a 7 mil nestes 12 meses, de 160 milhões o valor geral de vendas (VGV) a 650 milhões.

Efeito da visão de 360 graus do mercado, da experiência do setor financeiro, empresarial e da capacidade de contratar as pessoas certas. “Fiz o de­ver de casa, estudo os concorrentes há quatro anos e os funcionários são desta classe”, diz. São os que conhecem a dureza de perto e há explicação: “Não adianta eu pegar engenheiro, que faz apartamento de um milhão, e colocar para construir um de 80 mil. Vai gastar este valor só no banheiro.” O outro não, e usará material de qualidade como se fosse para sua casa. Senso apurado em anos ao longo de sua carreira, que começou em bancos, empresas de que virou dono: a Éden, de sistema de computadores, e a Reebook, de material esportivo. Depois a guinada para pousar na área imobiliária quando foi vice-presidente da Companhia Auxiliar de Empresas de Mineração (Caemi), dona da MBR, e teve a missão de mapear as áreas ociosas com vocação imobiliária. Deu com colosso de 32 milhões de metros quadrados da região da lagoa dos Ingleses e do Miguelão, trevo de Ouro Preto e serra da Moeda, na Grande Belo Horizonte.

“Percebi que o pessoal com poder aquisitivo era o que havia sido criado em casa e morava em apartamento. A grande maioria queria que os filhos tivessem a mesma infância”, lembra Martínez. Faria isto e encurtaria a distância, tão prezada pelos mineiros, ao levar escola, comércio para dentro do condomínio. Buscou ajuda de consultoria nos Estados Unidos para o projeto, mas quando ficou pronto a Caemi resolveu que não sairia do seu rumo: a mineração. Propôs a venda do terreno por 15 milhões e ele deixou a vice-presidência para ser empresário. Sem ter o montante de dinheiro, associou-se ao Al­phaville de São Paulo e vendeu os 1.545 lotes em 24 horas. Proeza que deve ser cravada no Guiness Book, o livro dos recordes. “Não tenho dúvida de que acertamos no preço do lote.” Também de ter vendido o empreendimento no final de 2006 para a Inpar, por 200 milhões de reais.

Aí, depois de ter dado um sobrevoo por Minas, aonde ele já foi de ultraleve da capital carioca a Belo Horizonte, podemos voltar ao Rio de Janeiro, na sede da Construtora Mudar, num prédio sóbrio, escritório compacto, claro, moderno, com funcionários alinhados ao poder aquisitivo dos clientes. “Vi que em Alphaville não havia como crescer alem de determinado limite.” O espaço estava restrito, mas não o de imóveis para o consumidor de baixo poder aquisitivo. Focou todo seu senso afinado neste segmento. “Transito bem por todas as classes”, ressalva o empresário com prontidão, até para justificar o não-pertencer à classe como seus funcionários. Alia-se na fileira do capitalismo que se alicerça na lei da procura, não nas benesses estatais, e começa a levantar as ba­ses da construtora, criada no final de 2004. “A Mudar é um quinto se comparada às concorrentes.”

Faltava torná-la conhecida. Foi aí que surgiu a proposta de participar do quadro quinzenal Cons­truindo um Sonho, do programa Domingo Le­gal, de Gugu Liberato, no SBT. É espécie de reality show, onde sua construtora teria de construir e reformar casas, em 12 dias, para famílias pobres escolhidas pela emis­­sora em conjunto com a Mu­dar. Aceitou o desafio, montou equi­pe só para o quadro, investe 200 mil na casa e outros 150 mil em inserções e também participa do programa junto com Gugu Liberato. O que já lhe rendeu fama: “Não preciso mais fazer reserva em restaurante.” Bônus da notoriedade, que Martínez diz não querer para ele, mas à Mudar: “Senão seria ator da Globo”, afirma com a experiência de quem consegue garantir a imagem na primeira tomada e a simpatia do público.

O quadro bateu de frente com o Fantástico, da Rede Globo, com picos de liderança de audiência e centenas de cartas que chegam à construtora e ao SBT. No início deste mês, lá estava ele no escritório, no Rio de Janeiro, às voltas com a equi­pe, liderada pela arquiteta mineira Ronize Amaral, e depois foi a São Paulo gravar o programa previsto para ser veiculado nos dias 15 e 22 de março de uma casa reformada em Bragança Paulista. “O diferencial é ter gente boa, competente, ver o brilho nos olhos. Se for para arrastar o pé, que vá trabalhar na concorrência”, diz entre suas frases de efeito e das ideias que tem à noite8 ou em qualquer lugar e são gravadas. É, ele vive com gravador para não perder os planos, com fio de inspiração no dito do escritor francês Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.”

Faz, mas tudo pesquisado, analisado. “Ele toma decisão sabendo o que vai acontecer e dá certo”, afirma a mulher Maria Ângela. Como as suas pilotagens de ultraleve, quando se esquivou das investidas dos bancos para que abrisse o capital da construtora, assemelhasse-se às concorrentes Tenda e MRV. Elas foram parar na bolsa e viram suas ações, como de outras empresas, despencarem. “Percebi que não ia dar certo”, esclarece. Não que seja avesso ao lucro, mas adepto da cultura da meritocracia, de premiar quem produz, e se espelha no empresário Jorge Paulo Lemann, fundador do poderoso GP Investimentos e referência no mundo dos negócios.

Segue a lição na empresa, nem o filho Antônio Augusto Cezar de Andrade Martínez de Almeida, estagiário de economia, foge das avaliações periódicas.  “Ele é muito durão, mas acredito que a recompensa virá mais tarde”, diz. Os funcionários não fazem coro, o que também seria improvável. Disciplina que se estende para a vida do empresário: acorda todos os dias às 5h30, corre, faz ginástica, lê jornais brasileiros e de fora, trabalha e sempre reserva tempo para a família. Além de Antônio, há os filhos Pedro Henrique, estudante de medicina, Maria Luiza, que faz pedagogia, e a caçula Ana Sofia. “Tenho a vida toda organizada.” Sobram-lhe tempo até para as maratonas, já correu 18, incluindo Nova Iorque, Berlim, e refinamento: a roupa impecável, os gestos. Parece que nada foge ao previsto. Medo? “Respeito as coisas que não controlo.” O ultravele daquela tarde podia ser dominado, a empresa também. 


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Filosofia Augustiniana

O que o empresário segue em frases feitas ou de outros:

  • “O sucesso não ensina nada, o que ensina é o fracasso.”
  • “Funcionário que arrasta o pé que vá trabalhar na concorrência.”
  • “Embaixo posso ficar distraído, mas em cima, no ar, sempre focado. Qualquer problema é risco.”
  • “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.”
    Do escritor francês Jean Cocteau, gravada em cartão na sua sala do escritório.
  • “O chapéu de acionista é diferente de executivo. Se tiver alguém mais competente, vou deixar o chapéu.”
  • “Medo, não? Tenho respeito pelas coisas que não controlo. O resto tem de ser enfrentado.”
  • “As pessoas não exploram o potencial que têm. É questão cultural do Brasil, último país a ter escravo. Aqui pessoas bem-nascidas não trabalhavam. Isto faz com que o potencial não apareça.”

 
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