Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Favela para inglês ver

Acompanhamos um grupo de estrangeiros em um tour pelas comunidades da Rocinha e Vila Canoas, no Rio de Janeiro, e registramos as impressões e curiosidades deste tipo de turismo, no mínimo, diferente

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Alexandre Brum


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O tamanho da Rocinha impressiona os visitantes

Monumentos, museus, igrejas, galerias de arte, paisagens naturais... São incontáveis os atrativos que uma cidade turística tem a oferecer aos visitantes. Dependendo do lugar é preciso escolher a dedo o que entrará no roteiro. Geralmente elegemos o que há de melhor, mais rico e bonito, certo? Nem sempre. Há outros cenários não tão belos, mas que despertam o interesse de milhares de turistas. As favelas cariocas, por exemplo. Se para nós elas fazem parte de um cenário banalizado e  geralmente evitado pelo medo da violência, para os gringos elas são uma atração turística: eles pagam para conhecê-las. 

São mais de 10 mil turistas estrangeiros que passam pelas favelas cariocas por mês. As mais procuradas são a Rocinha e a Mangueira. Mas há também roteiros que incluem vilas menos urbanizadas, co­mo a Vila Canoas, a Tavares Bas­tos e o Morro dos Prazeres. Para entender o que atiça tanto a curiosidade dos estrangeiros, a reportagem da Viver Bra­sil foi até o Rio de Ja­neiro. Esco­lhemos uma das agências pioneiras na realização do passeio – a Favela Tour. Co­ordenada por Marcelo Arms­trong, ela realiza o roteiro há 17 anos. A demanda é tão grande que há saídas diárias para a Rocinha e a Vila Canoas.

Para garantir a segurança dos clientes, os percursos são previamente acertados com a Associação de Moradores. As agências sabem onde devem ou não passar. Os tours são feitos em vans, micro-ônibus ou jipes, dependendo da agência. Os preços vão de 65 a 90 reais. Os grupos variam de 3 a 12 pessoas. “Qua­se a totalidade é estrangeira,” avisa Arms­trong. A informação é confirmada durante o nosso passeio. Das 11 pessoas que compunham o gru­po, apenas eu e o fotógrafo éramos brasileiros. Os outros se dividiam entre  dinamarqueses, noruegueses, alemães e chilenos. Muitos ali só conheciam favelas pela TV.

­A primeira a ser visitada foi a Ro­­cinha – a maior da América La­tina. “São 56 mil habitantes”, infor­ma o guia Alfredo Souza. Na subida da es­trada da Gávea, en­trada para a favela, é feita a primeira parada. Dali se tem vista privilegiada do Rio de Janeiro. Ar­tesãos locais expõem trabalhos na rua para os visitantes. Alguns fazem compra. Mas o que mais fisga os olhares são as imagens dos barracos morro acima, clicadas incessan­temente pelas lentes dos turistas. O guia Alfredo pede cautela. “Por favor, não focalizem casas e pessoas, façam somente imagens gerais.”


Perguntamos se existem regras acertadas com os traficantes locais, mas o guia nega. Diz apenas que é preciso usar o bom senso. Continuamos subindo o morro. As reações são um misto de contemplação com curiosidade. A segunda parada é na laje de uma casa. De lá se tem uma panorâmica de to­da a extensão da favela. Admirados com o tamanho da comunidade, eles perguntam que tipo de gente vive ali. Querem saber qual a fonte de subsistência delas, se o governo dá algum auxílio financeiro. O guia explica que são pessoas comuns, estudantes e trabalhadores que exercem diferentes tipos de atividades. Quanto ao auxílio, ele brinca mostrando um gato de luz. “Já que o governo não ajuda, as pessoas dão o famoso jeitinho brasileiro”, diz.


Após perguntas, explicações e fotos, seguimos rumo à última parada dentro da Rocinha. No largo do Boiadeiro, rua onde se localiza a maior parte do comércio, eles têm a primeira oportunidade de caminhar pela favela. Em alguns se nota certo receio, como na mãe e filha alemãs. Já os dinamarqueses, mais destemidos, quase se perdem do grupo. Fazem uma parada em frente a uma banca de açougue a céu aberto e querem saber o preço do frango exposto ali, inteiro, depenado em plena rua. “Não me parece muito higiênico”, confessa a norueguesa Eva Gullikstad. 


A presença de lojas, agências bacárias e correio também causa estranhamento. “Não imaginava que tinha essa estrutura”, confessa um dos dinamarqueses. Depois de caminharem dez minutos por entre comerciantes, moradores, carros e motos, o passeio da Rocinha é encerrado. Dentro da van, eles trocam as impressões. Dizem-se surpresos com o contraste entre os pontos turísticos antes visitados como o Cristo, o Pão de Açúcar e a Rocinha. A desigualdade social também salta aos olhos. Para quem está hospedado em hotéis cinco estrelas em Ipanema e Copacabana, as casas da Rocinha são mesmo muito distantes da realidade.


O outro destino, a Vila Canoas, fica em São Conrado. Com proporções infinitamente menores, o local é mais tranquilo. A primeira parada é na sede do projeto social Para ti. “Cerca de 80% da escola do projeto vem dos recursos das visitas dos turistas pelo Favela Tour”, conta Alfredo. Lá eles também podem comprar artesanato local. O casal chileno Eli Cadena e Ignácio Zarate estava em lua-de-mel e levou para o filho que esperam um sapatinho de lã com a bandeira do Brasil. Para eles, as favelas não causam tamanho impacto, já que no Chile elas também fazem parte do cenário das grandes cidades. “Só nos surpreendemos com o tamanho. É enorme”, dizem.


Antes de iniciar a caminhada, há o pit stop em um boteco local. Eles compram água, cerveja, refrigerante. Ole Mikael, um simpático dinamarquês, se transformou em Papai Noel ao comprar balas para a criançada, que não o largou mais. No trajeto por entre as ruelas, as câmeras não param um minuto. Cada passo é um flash. Casas, bares, pessoas são fotografadas pelas lentes curiosas. Um dos dinamarqueses entra, sem ser convidado, em uma das casas. Ao se dar conta da falta de gentileza, bate em retirada.


Ao final do passeio, a maioria sai com uma imagem diferente daquela preconcebida. Eles se surpreendem com a recepção dos moradores. Também imaginavam um ambiente mais violento e miserável, como aquele retratado nos noticiários da TV. Apesar de se indignarem com a pobreza e a falta de estrutura das casas, percebem que na favela mora gente comum, na maioria trabalhadores menos afortunados e não criminosos como eles supunham. “Esse é o objetivo do tour. Não queremos romancear a favela, mas sim mostrar uma visão mais realista, menos estereotipada. Fa­la­mos dos problemas sociais, da violência, do tráfico, mas mostramos que lá não tem só isso”, esclarece Marcelo Arms­trong. E, por algumas horas, o Cristo Re­den­tor, o Pão de Açúcar e a praia de Co­pa­cabana ganham contornos de po­breza e miséria nes­te verdadeiro Carnaval da desigualdade pre­sente na Ci­dade Maravilhosa.


Galeria de Fotos

Artesanato feito pelos moradores da Vila Canoas chama a atenção
Artesanato feito pelos moradores da Vila Canoas chama a atenção

 
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