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Artigo
Nunca o Brasil esteve diante de um cenário – fruto da crise mundial – tão favorável à percepção de que precisamos fazer reformas para ganhar competitividade. Essa crença teria que gerar algo benéfico para o Brasil, mas o que se percebe é que a nossa conjuntura atual é dominada pela vanguarda do atraso. Três poderes que não se toleram, ao conviverem sem a menor harmonia, potencializam nossas fragilidades morais, jurídicas, políticas e econômicas. Se ao menos esses confrontos causassem um processo de ruptura, cuja recomposição nos levasse a um futuro melhor, eles poderiam valer a pena. A inércia, a que assistimos, parte do princípio de que as reformas encontram barreiras, intransponíveis, nos feudos encastelados no arcabouço da nação, provocando um engarrafamento de escândalos, amparado, ainda, no falso dogma de que ministério é fazenda de porteira fechada, onde predominam as correntes partidárias, em nome de uma falsa governabilidade.
Tudo a que estamos assistindo ocorre, justamente, na hora em que o povo brasileiro precisaria estar unido e, em multidões, ocupando praças públicas, clamando pelas reformas, a começar pela que emperra todas as outras, ou seja, a reforma política. Parece que o Brasil e o mundo ainda não se deram conta de que a situação, sem precedentes, hoje vivenciada, extrapola toda e qualquer previsibilidade. As incertezas não podem ser detectadas pelos agentes comprometidos com a ordem que aí está, em função do esgotamento do modelo econômico que, agora, desune os mercados, em escala globalizada. Neste contexto, considero louvável o esforço que a presidente Dilma tenta realizar, atirando em todas as direções com razoável pontaria, antes que seja demasiadamente tarde. É um estilo diferente de seus antecessores e revela que ela não tem medo do confronto, visando aplainar o terreno de um tempo que possa estar por vir.
Este ano poderia ser marcado pelo surgimento de novas lideranças, a partir das eleições municipais, que não estejam vinculadas aos remendos e arranjos em nível nacional. Seria um bom começo e claro recado àqueles que disseminam, com suas ações, a falta de ideologia e de princípios nas representações partidárias. Einstein já dizia que não se pode resolver um problema com os meios que o criaram. Com base nessa máxima, quem sabe, estejamos no limiar de uma nova era, formada por movimentos que dissolvem, recriam e transformam a realidade ainda existente? Delfim Netto sempre pilheriou que os números, sob tortura, confessam qualquer coisa. Mas os números revelados pela economia mundial apontam que ela não se pode defender quando é agredida. No entanto, ela se vinga na hora certa, como agora está acontecendo. Creio ser essa temática a origem desse colapso mundial. E é preciso que a sociedade acorde e esteja receptiva à quebra de velhos paradigmas, para superar todas essas mazelas.
A coragem da presidente Dilma poderia ser colocada, uma vez mais, a serviço do Brasil se ela tomasse a iniciativa de promover, verdadeiramente, a reforma política. Não tenho a menor dúvida de que tal fato incendiaria, no bom sentido, o país. A ausência de uma lógica partidária nítida, facilmente perceptível no quadro político atual, expõe as fraturas ideológicas e programáticas que obrigam um conjunto de pessoas a se abrigarem em uma mesma agremiação política, passando a orbitar na ânsia do poder que almejam usufruir. Se nada for feito a tempo e a hora, continuaremos na mesmice de sempre: apresentaremos, continuamente, indicadores econômicos apenas razoáveis, muito abaixo de nossas reais potencialidades. Acorda, Brasil! E aqui não vale o célebre corolário do Zé Simão, apenas defensável no campo em que ele milita, o humor: “Que eu vou dormir!”...
Wagner Gomes, administrador de empresas
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