Quinta, 17 de Maio de 2012
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Entrevista

Valor Humano em Alta

Presidente da quarta maior rede de postos de combustíveis do país (Alesat) e da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas, Sérgio Cavalieri afirma que o sucesso das empresas depende da adoção de uma gestão que valoriza acima de tudo o homem. “O capitalismo é voraz, privilegia o lucro. Defendem

Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Uma revolução silenciosa e pacífica está soprando no meio empresarial brasileiro, promovida pela Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE). Com o desafio de levar a doutrina social cristã para o dia-a-dia das empresas, a entidade, fundada por empresários europeus em 1932, fincou raízes no Brasil nos anos 60, e reúne mais de mil empresários – cerca de 130 são mineiros – em torno de um ideal. Valores como ética, transparência, sustentabilidade, responsabilidade social e valorização do capital humano são os pilares desse ideário que a entidade se propôs a disseminar no mundo empresarial. “O capitalismo, por si só, é muito agressivo; ele é brutal se não houver determinadas regras. As regras que defendemos para o capitalismo são as dos valores cristãos,  humanos. O homem deve vir em primeiro lugar”, resume o empresário Sérgio Cavalieri, presidente do conselho de administração da Alesat Combustíveis, uma das mais bem-sucedidas organizações mineiras, integrante do Grupo Asamar, e presidente da ADCE em Minas. A seguir, ele explica como tem sido o trabalho da ADCE e como ele pode contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.

Como os valores cristãos podem contribuir para o mundo dos negócios?
O momento atual é de crise econômica, que se instalou recentemente, mas existem outras muito maiores que estão aí por trás, como a crise social. Temos um contingente grande de pessoas excluídas, muita pobreza e miséria espalhadas não só no Brasil, mas no mundo todo. E a crise ambiental. Vivemos um ataque ao planeta, provocado pelo desenvolvimento muito ace­le­ra­do das sociedades, e que visava somente ao aspecto econômico, à geração de lucro, ao consumismo. As propostas da doutrina social cristã, abraçadas pela ADCE, defendem modelo mais equilibrado, no qual a parte social, o homem, vem em primeiro lugar. Essa postura traz contribuição inestimável para que tenhamos uma sociedade mais justa e fraterna,  na qual o homem seja mais bem atendido, em todos os aspectos: econômico, social e ambiental.

Tradicionalmente, sempre houve dissociação entre o mundo do capital e a espiritualidade. Isso embruteceu o mundo dos negócios?
Creio que sim. Nós ainda consideramos o capitalismo como o melhor sistema econômico, porque ele preserva a liberdade de empreender, dá oportunidade a todas as pessoas. Mas o capitalismo, por si só, é muito agressivo. As regras que defendemos para o capitalismo são as dos valores cristãos, a dos valores humanos, porque acreditamos que não bastam as regras criadas pelos homens – essas são falíveis e nem sempre respeitadas. O que vemos é o homem criando cada vez mais regras escritas: de mercado de capital, de defesa da concorrência, de livre mercado, da bolsa de valores. Mas como o capitalismo é voraz, e privilegia o lucro, por isso, o homem está sempre dando jeito de contornar, burlar e ultrapassar essas regras; e assim surge uma postura mais embrutecida desse sistema, menos espiritualizada, que faz com que as pessoas enxerguem menos o outro. Começa, assim, uma atuação egoísta, focada apenas no ter, e esquecendo-se do ser, esquecendo-se de que, na realidade, a economia e as empresas existem para privilegiar o homem. O limite das pessoas, das empresas e da economia, é o limite do respeito ao outro, de querer o bem do outro, de querer o bem da sociedade. Isso é o oposto do egoísmo, da avareza, dessa busca desenfreada por acumular riquezas, que, no fundo, não levam à felicidade. Isso já está comprovado.

A ADCE atua como uma rede que reúne empresários e executivos, promovendo uma revolução silenciosa. Como as ideias são disseminadas no meio empresarial?
Na verdade, os valores da doutrina social cristã não são novos. Eles existem há mais de 150 anos. O que fazemos na ADCE é uma rede de relacionamento. Reunimos associações, que funcionam dentro do Terceiro Setor, como organizações sem fins lucrativos, e que têm a função de disseminar os conceitos da doutrina cristã para um número cada vez maior de pessoas. Mostramos que temos uma grande novidade, uma ótima notícia: se o mundo tem muitos problemas, nós temos alguns remédios para esses males. São soluções inspiradas por Deus, não foram criadas por nós. Por isso mesmo, são dicas muito sábias, e que de fato transformarão a forma de se conduzirem os negócios.  8 As pessoas geralmente dizem: “Mas se eu fizer, a empresa não sobrevive, não tem mais lucro, meu concorrente não faz isso”. Isso não é verdade.

Adotar esses valores pode ajudar até mesmo na sobrevivência dos negócios?
Sim. O mundo está mudando. Não há mais essa de “por detrás dos panos”: tudo está exposto. A internet expõe tudo, numa forma de comunicação que nos deixa nus: não há nada mais o que esconder. O que acontece em qualquer lugar do mundo, todos ficam sabendo, muitas vezes em tempo real. Assim, não há mais como uma empresa enganar um fornecedor ou funcionário, burlar uma regra e desrespeitar o meio ambiente, ou enganar o governo e deixar de pagar um imposto. E esse fenômeno, somado ao efeito da globalização, criou grande interdependência entre os grupos com os quais a empresa se relaciona – a sociedade, os empregados, o governo, os clientes, os fornecedores, os acionistas. Muitos líderes de empresas, pessoas que têm visão um pouco mais à frente das demais, estão começando a enxergar isso. Haverá, portanto, dois tipos de dirigentes: os que irão mudar de postura antes, e assim vão se agarrar aos valores humanos e praticá-los cada vez mais, para a sobrevivência dos seus negócios, e os que serão mais resistentes às mudanças, que irão se agarrar ao modelo antigo de gestão empresarial, mas que, com o tempo, terão de mudar porque a própria sociedade exigirá deles essa mudança.

São valores que transcendem as religiões?
Sim. Nós os chamamos de valores da doutrina social cristã, pois foram divulgados por Cristo, e depois, principalmente, pela Igreja Católica, mas são valores universais, que dizem respeito ao ser humano; dizem respeito à dignidade da pessoa, ao amor, à compaixão, ao querer bem ao outro. Valores presentes em todas as religiões.
 
Que ações demonstram que uma empresa está comprometida com esses valores?
A ACDE editou um livro, no ano passado, para expor isso ao mundo, de forma mais clara e concreta, que foi escrito por 50 pessoas, de 17 países, que usaram a internet para dar suas contribuições. O título é Rentabilidade dos Valores, o que já é sugestivo, pois indica que os valores também dão rentabilidade. Esse livro aborda os oito pontos que se relacionam permanentemente com a empresa: funcionários, fornecedores, clientes, governo, concorrentes, meio ambiente, comunidade e acionistas. A sustentabilidade de uma empresa está na relação com cada um desses grupos, e a responsabilidade por atender a esses oito grupos parte do principal acionista da empresa, dos principais gestores, dos dirigentes, que devem manter uma atitude coerente e consistente de enxergar o homem, sempre, em primeiro lugar.

E que ações são feitas para sensibilizar o empresariado?
A rede de relacionamento que criamos entre as empresas é fortalecida em encontros, nos quais os valores da doutrina cristã são divulgados. Estamos aperfeiçoando o nosso site na internet, que é um canal pelo qual as pessoas podem se expressar, deixar contribuições, falar com comodidade, expor pontos de vista, em todo o mundo. Localmente, temos encontros mensais, para os quais convidamos palestrantes, pessoas importantes no meio empresarial, político e até na própria Igreja, e durante eles levamos às pessoas nossa mensagem. Temos também um encontro de reflexão a cada seis meses, quando vemos a aplicação dessas ideias, ouvimos testemunhos. Faremos um congresso mundial em outubro, no México, que será muito importante, e terá a participação de pensadores de todo o mundo.

As empresas familiares podem exercer papel especial nesse sentido?
Eu acredito que seja mais fácil implantar esse estilo de gestão, que preserva os valores cristãos e os valores humanos, em empresas familiares, pois elas já têm esse forte vínculo de relação entre pessoas. Mas o interessante é que isso acontece sem que a empresa familiar perca a competitividade.

Como esse movimento pela ética, transparência, responsabilidade social e sustentabilidade pode tornar as pessoas mais felizes no trabalho?
É fácil perceber quando você entra numa empresa em que há respeito e valorização às pessoas e vontade de promovê-las, de se pagarem melhores salários, de oferecer melhores condições aos funcionários – como benefícios e participação nos lucros. Quando a administração é transparente e a gestão é de portas abertas, há liberdade para as pessoas se arriscarem e até para errarem, sem que sejam punidas com demissões. Quando uma empresa assume essa postura, o ambiente de trabalho é totalmente diferente: as pessoas trabalham mais felizes, desempenham melhor o seu papel e são as primeiras a falarem bem da organização. Começamos a perceber, hoje, com as mudanças que estão acontecendo no mundo, que um fornecedor que tem como parceiro uma empresa ética quer continuar fazendo negócios com ela.

Como o senhor encara este momento de crise? Ele pode gerar oportunidades e provocar reflexão sobre os rumos do sistema econômico?
Essa crise traz um aspecto favorável para a ACDE. Ela surgiu quando havia uma aparência de que tudo estava correndo bem na economia mundial: países em desenvolvimento se tornando emergentes, havia uma aparente riqueza em alguns mercados. De repente, esse mundo se desmoronou, e mostrou que o que o sustentava era um consumismo desenfreado, um excesso de crédito irrigando a economia, enquanto o que deve irrigá-la é o trabalho. Havia a riqueza, antes do trabalho – depois é que as pessoas iriam trabalhar para pagar por aquela riqueza. Ou seja, havia uma inversão de valores. Dessa crise, pode surgir um capitalismo mais moderno, menos voraz, que cultive outros valores, como a felicidade das pessoas, a segurança, a educação e a saúde para todos, o respeito ao meio ambiente.

Muitos empresários ainda veem os investimentos em capital humano e em responsabilidade social como gastos. A Alesat Combustíveis, da qual o senhor é presidente do conselho administrativo, tem conseguido surpreendente crescimento, ano a ano, com faturamento em permanente ascensão. A Alesat é um case da rentabilidade que os valores podem gerar para uma empresa?
Não só a Alesat Combustíveis, mas todas as empresas do Grupo Asamar, seguem uma filosofia de trabalho baseada nos valores cristãos, desde a fundação do grupo, em 1932. Mais do que tecnologia, qualidade, inovação, ou do que prédios, computadores ou lucro, o que nos tornou bem-sucedidos foi, em primeiro lugar, o fato de termos permanecidos fiéis aos valores da doutrina. Valorizamos nossos funcionários, mantemos uma relação de respeito com nossos clientes e fornecedores, de preocupação com o impacto das nossas atividades, no meio ambiente, principalmente no caso da Alesat, e respeitamos os nossos concorrentes. Tudo isso explica nossa trajetória.

Qual o maior desafio para um líder que pretende disseminar esses valores cristãos em uma empresa?
O maior desafio é a questão cultural. As pessoas são educadas nas faculdades, nos MBAs, para focarem na ideia de lucro. O lucro é importante, mas o mundo das empresas não é isso. Muitas pessoas estão presas ao modelo antigo, e mudar isso é um grande desafio.  


 
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