A cada dia sua pena na sofreguidão da vida. Num longo ontem, de mais de 4 anos, isolada no árido campo de refugiados de Ruweished, no deserto da Jordânia, terra de ninguém, onde foi parar após ter sido expulsa por milícias xiitas de Bagdá, no Iraque, no fim da era Saddam Hussein. Hoje, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, à procura de emprego, num português quase afiado. Língua tão díspar do árabe que diz ter aprendido a fórceps após perder o filho do ventre porque ninguém a entendia no hospital. “Prometi que ia aprender o português para não sofrer mais.” Aprendeu, assimila aos poucos as enormes diferenças culturais, de ver namorados em locais públicos, de mulheres com a cabeça descoberta, mas se choca com pessoas que vivem nas ruas. “Tenho medo de que isto ocorra comigo. Ele é brasileiro e a gente que não é?”, afirma Huda Al-Bandar, protética, sem nenhuma cidadania neste enorme planeta, casada, mãe de dois meninos, uma dos 107 palestinos refugiados de guerra acolhidos pelo Brasil em setembro de 2007.
Essa gente teme não conseguir se manter no país depois do final de setembro, daqui a três meses, quando termina o prazo de ajuda financeira do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). “Lá a gente tinha medo da guerra, aqui da fome”, diz Huda. O ontem se realça no sofrimento hoje, mais ameno, de mudanças tão drásticas: o deserto, onde eram vigiados e só podiam sair para ir a hospitais, não tinha escola, ninguém trabalhava, não havia o que fazer. Viviam em tendas, ora sob calor muito forte ora sob frio intenso, constantes tempestades de areia num lugar infestado por escorpiões.
Agora, em temperatura mais amena, com direito de ir e vir, a preocupação se volta para a sobrevivência numa queixa uníssona, entre gestos e muito falatório em árabe. Querem mais: emprego, cidadania brasileira, aposentadoria para os maiores de 65 anos, manutenção do auxílio financeiro e do pagamento do aluguel das casas. “Por que eles trouxeram a gente para cá?”, pergunta Walid Al-Tamimi, marido de Huda e sua intérprete. Não fala português, a maior dificuldade dele e da maioria dos que estão em Mogi das Cruzes para arranjar emprego. Os mais jovens e crianças aprenderam logo. Os adultos não, mal falam uma palavra na língua de Camões, reclamam que só encontram trabalho pesado, de carregador, no fundo da loja. Walid ficou só uma semana no emprego, porque teve problemas de coluna. “No que vou trabalhar?” A saída foi abrir cybercafé na garagem de casa, com recursos enviados pelo pai de Huda, que é editor em Bagdá.
“A loja pode dar certo e se não der?”, questiona novamente o marido da protética, que era contador no Iraque. Estende a reclamação para outros compatriotas: a família da confecção de bolsas, casacos de couro e a do lava-jato. “Eram quatro pessoas e agora vieram mais três. A mãe é doente, diabética, e dorme no chão. Como ele vai manter a família com 600 reais por mês.” É Houssam Alluh, dono de dois lava-jatos, que resolve falar com a reportagem, não na casa, porque era a hora do almoço, naquele domingo, 31 de maio, mais de 17 horas.
Tira cigarro, fuma, ato corriqueiro entre os homens entrevistados, reclama que o dinheiro ganho com o seu trabalho é insuficiente para proporcionar uma vida boa à família, que se cansou de sofrer e ameaça acampar em Brasília, onde já se encontra um grupo para pressionar o Acnur a enviá-los a outro país. Logo entra a mãe Nuzha, a tia Aisha Elooh e o filho Aiham, recém-chegados da Faixa de Gaza. Realçam ainda mais, em altos tons decibéis, as queixas de Houssam. “Se for para sofrer aqui, prefiro voltar para casa, morrer na guerra”, diz Nuzha. “Não tenho documentos, estou clandestina”, completa a tia Aisha. Só o pequeno Aiham fica quieto no canto da cama, improvisada no escritório de Houssam, e apenas dele é permitida fotografia.
As reclamações só param um instante para Houssam dizer que gosta do povo daqui. “Mas, se o Brasil não me quer, vou para outro país.” As lamúrias logo voltam e encontram eco em outra casa: a do pessoal que confecciona bolsas de couro, já em tom mais ameno, onde há três gatos, é oferecido chá preto para as visitas e firmado o compromisso de escrever tudo o que se queixarem. Com a ajuda de intérprete do xeique Hosni Abd-Elhamid, há 4 anos na liderança da mesquita em Mogi das Cruzes, a família de Rahmah Mahmud Abo Samak cobra, como os outros, emprego, aposentadoria, atendimento médico para a mulher, Taher, e lembra saudosistas da época em que moraram no Iraque. Lá tinham casa, cesta básica todos os meses. Taher, a mãe, mostra a foto do neto, Saddam, mesmo nome do ditador iraquiano, que mora na Jordânia. Outra filha vive no Canadá.
Aqui, além dos pais, está Ahmed, casado com Saja, que também trabalha na produção de roupas de couro. O material vem de fora, eles costuram e dizem ganhar pouco por peça, insuficiente para se manter sem o auxílio financeiro do Acnur. Há ainda o filho Mohammad, que deixou Mogi das Cruzes para jogar futebol no Grêmio Esportivo Social Carvalhense, em Carvalhos, no Sul de Minas. “Já fiz muitos amigos”, diz num português quase compreensível por telefone. Ficará lá um ano, dos quais se passaram 3 meses, depois não sabe o que será da sua vida.
O pai quer viver feliz com os filhos na casa alugada onde está e que os donos a teriam pedido de volta. “Não vou sair daqui.” Na sala com a TV ligada, tapetes, cortinas, decoração que se repete nas outras casas, o xeique mostra a mesa de centro improvisada, feita com caixa de madeira, numa demonstração de que não receberam nem móveis direito. “Não quero estar no Brasil, quando a ajuda financeira acabar”, afirma.
Ela vai cessar, como previsto. O Acnur estuda a possibilidade de estender essa assistência até o final do ano e manter nos casos mais vulneráveis, idosos, doentes, até 2010. “Mas vai depender da disponibilidade de fundos, 8
90% do orçamento é coberto por doações da comunidade internacional”, diz Luiz Fernando Godinho, porta-voz da agência da ONU para refugiados no Brasil. Até porque é o único país que dilatou o prazo para dois anos de assistência direta, com repasse de dinheiro e pagamento de aluguel. Uma família recebe em média 800 reais e o direito a casa. “O programa de reassentamento solidário oferece diversas oportunidades para que os refugiados possam se integrar à sociedade e, neste processo, ser capaz de gerar renda e se tornar autossustentáveis.”
O projeto começou a ser desenvolvido pela Cáritas Brasileira em maio de 2007, quatro meses antes da chegada dos refugiados. Foram alugadas e mobiliadas as casas, planejadas aulas de português, cursos profissionalizantes. Nos primeiros seis meses, os organizadores tiveram de se ater às condições médicas. “Eles estavam com problemas respiratórios, neurológicos, hipertensão, diabetes”, diz Antenor Rovida, gestor e coordenador geral do Programa de Reassentamento de Refugiados em São Paulo, ligado à Cáritas,ONG da Igreja Católica.
Reclamaram das casas, pediram cortinas, tapetes. “Fomos nos adaptando, mas eles querem sempre mais. A expectativa era de que iam ter tudo o que recebiam no governo de Saddam”, afirma. Se os maridos não permitiam que mulheres frequentassem as aulas de português na escola, enviavam professores às casas. “Os homens ficavam dormindo ou saíam, não quiseram ter as aulas.” Sem a fluência na língua, a dificuldade para encontrar emprego, se integrar à sociedade brasileira. “Nós não temos condições para arrumar trabalho, fizemos contato com árabes que moram na cidade. Mas também os refugiados não estão abertos.”
A situação se complica, mas os organizadores acreditam que o projeto desempenha a sua função e que agora depende deles, de esquecer as benesses recebidas no Iraque, no campo onde não tinham o que fazer, e pegar no pesado. “Não foi positivo reunir um grupo numa mesma cidade. Deveriam ter ficado separados porque, quando um vai para frente, o outro puxa, não se interagem”, avalia o gestor do programa. O que não acontece com as crianças. Elas já estão adaptadas ao país. Os filhos de Huda, Houssam, 9 anos, e Mahmoud, 6, falam português como qualquer brasileiro, têm amigos, adoram futebol. Houssam é torcedor fanático do Corinthians e Mahmoud, que nasceu no deserto da Jordânia, acha o Brasil enorme, verde.
“Ele só conhecia o campo. Quando chegou aqui, foi ao shopping, à praia, achou que o mundo era muito grande”, conta Huda. O mundo é grande, ela quer é obter a cidadania brasileira, pegar passaporte verde, e não o amarelo que possui, para poder visitar a família no Iraque, Líbano, e arrumar emprego. Até sonhou que estava trabalhando numa loja de roupas de bebê, aberta perto de casa. A realidade mostrou que não havia vaga. Está à espera, faz por onde. “Tenho medo do futuro dos meus filhos. Não quero que eles sofram como a gente.” Torce para que o passado e o presente não se repitam no que virá, que seus filhos sejam cidadãos brasileiros, não como ela, sem cidadania.