Ecos de uma Profissão: Medicina Legal?
A saúde pública,
cujos profissionais recém-formados viam nela um sonho de
carreira, virou palco
de demandas judiciais e quem hoje a integra se tornou seu refém
O aviltamento da profissão médica tem se acentuado ao longo dos tempos. Antigamente o médico de família, hoje em franco desaparecimento, atendia gerações inteiras, mostrando-se verdadeiro mestre na arte do diagnóstico. A especialização mercantilizou a medicina, antes um sacerdócio, tornando-a um grande e lucrativo negócio para uma seleta casta de profissionais, atrelada a um elaborado processo de diagnose, precedido da exigência de uma parafernália de caríssimos exames laboratoriais. Já quem contrata um plano de saúde, na vã expectativa de contar com uma boa cobertura, começa sua peregrinação ao procurar atendimento em médico credenciado, que só tem vaga imediata se for para consulta particular. Os consumidores dos planos de saúde crescem em progressão geométrica, enquanto os médicos e hospitais credenciados têm um crescimento vegetativo. É como se os grandes planos de saúde estivessem se massificando para cobrir os custos decorrentes das ações judiciais de contribuintes antigos, constantemente demandando serviços não previstos nos contratos firmados há mais de 20 anos. Cirurgia para redução do estômago, para tentar eliminar a obesidade mórbida, e colocação de stents – dispositivos para alargar artérias – são alguns exemplos de procedimentos nem sonhados há duas décadas. O CH – coeficiente de honorários – criado para proteger o trabalho médico, desvalorizou-se escandalosamente se comparado ao salário mínimo; e mais de 70%, se comparado ao IPC. Ao compararmos a atual diária hospitalar com a de 10 anos passados, a diferença se torna gritante pelo lado das receitas, na medicina particular. Já pelo lado do SUS, é quase uma questão de mendicância. E as condições de internação deixam muito a desejar. A União e os estados ainda contribuem para o esvaziamento da profissão, ao retirar gratificações que antes compunham o salário desses profissionais. Ao substituírem a carreira de médico pela de assistente de saúde, igualam os médicos aos afins. Tudo isso constitui um flagrante desrespeito ao pacto laboral. A saúde pública, cujos profissionais recém-formados viam nela um sonho de carreira, virou palco de demandas judiciais e quem hoje a integra se tornou seu refém. Por outro lado, as prefeituras, ao contratarem médicos para atender ao Programa de Saúde da Família (PSF) registram um sem-número de exigências para que seu contratado possa ter um salário razoável. Isso o torna escravo de plantões, prescrições estimuladas – mediante diversas formas de incentivos – por laboratórios de equipamentos e medicamentos ou de múltiplos subempregos. E assim esse profissional passa a viver a denominada situação limite, o que provoca altíssima rotatividade nesse tipo de vínculo empregatício, além de desacorçoar a relação médico-paciente. A remuneração do médico assalariado – lembram que ele já foi um autônomo muito bem-sucedido? – tornou-se tão pífia, que esse profissional, por paradoxal que pareça, já não mais consegue contratar, sequer, um plano de saúde decente. E agora, doutor?