Em crônica anterior, refutei a possibilidade de qualquer turbulência econômica brasileira desaguar num Plano Mantega – ou Margarina, em trocadilho infame –, como aconteceu mil vezes em passado recente, com tablitas, deflações, congelamentos e outras cascatas econômico-financeiras inúteis e passageiras.
Comento, agora, o atual aspecto político-social resultante da inquestionável evolução democrática do nosso país, numa comparação similar, focando importantíssimos aspectos conquistados a duras penas, que temos a obrigação de manter, custe o que custar, doa a quem doer.
Relembrando, de 1964 até a eleição de Tancredo Neves, a principal especulação política era qual general sucederia o que estava na Presidência da então falsa República.
Falsa porque estávamos em regime ditatorial com todas suas maléficas sequelas, abruptas e burras! – tortura; censura à imprensa; regime de exceção sem prevalecer as normas usuais da democracia, como a extinção do habeas corpus e do sagrado direito de ir e vir, natural em qualquer país civilizado; reservas de mercado, como a lei de informática que atrasou vinte anos nossa evolução digital; os prefeitos e governadores eram nomeados diretamente pelo sistema militar, tais como os senadores biônicos; a repressão era ampla geral e irrestrita a qualquer ação política que tentasse mudar o status quo.
Esse engessamento autoritário escondia no seu bojo as mazelas de sempre: a corrupção corria desenfreada, mas, como o quarto poder, a imprensa estava manietada, não havia divulgação das falcatruas e tudo ficava no intramuros da conveniência, muitas vezes recíproca. Além disso, os presos políticos sumiam, evaporavam-se nos porões da repressão, e ai de quem – mesmo pais e mães aflitos – fosse atrás dos seus entes amados... Muitos deles eram também mortos ou sucumbiam a acidentes inexplicáveis, como o sofrido por Zuzu Angel, na busca desesperada por seu filho Stuart.
Sabemos todos que a democracia não é um sistema de governo perfeito, pois é exercido por pessoas humanas, sempre falíveis. Mas é o sistema menos pior.
Na época, minha saudosa mãe residia no apartamento 1001 do edifício Solar, na avenida João Pinheiro, 85, em Belo Horizonte, e várias vezes era acordada de madrugada pelo pessoal do Dops, que lá ficava campanando a possível chegada da Dilminha, hoje nossa ministra e pré-candidata a suceder Lula, Dilma Rousseff, filha de mãe homônima, extremamente simpática e prestativa. Ótima, mas perigosa vizinha...
Prefeitos, governadores e senadores biônicos, com raras e honrosas exceções, também mereciam estar no time dos corruptos de hoje, e vários deles comprovam isso, como aquele atual deputado federal mil vezes processado por n crimes, até mesmo remessa de vultosa propina para a ilha de Jersey e outros paraísos fiscais, além de outras múmias políticas que você conhece.
A evolução democrática se firmou a ponto de não haver possibilidade do propalado terceiro mandato para Lula – a não ser que haja um brutal retrocesso da tão duramente conquistada evolução social, o que seria danoso para a sociedade, tanto que essa hipótese é totalmente refutada pela população esclarecida.
Não podemos abrir mão nem da estabilidade econômica, tampouco da política, pois elas são os maiores legados que deixaremos para nossos filhos! Ambas são faces da mesma moeda e dependem uma da outra, cabendo-nos, como cidadãos, preservá-las.