Não, leitores, a febre do avestruz não é um novo vírus como a febre amarela, o ebola, a gripe aviária, a febre suína – mal rebatizada, para evitar maiores prejuízos à suinocultura, de influenza A H1N1 – e tantas outras febres e gripes, já conhecidas ou ainda por eclodir. Trata-se de uma febre econômica que acometeu partes do Brasil há alguns anos. Uma empresa, a Avestruz Master, garantia ganhos acima da média do mercado para quem aplicasse dinheiro nela. Seu negócio seria tão lucrativo que a promessa era, diziam, plenamente factível. Isso até que, em 2006, a bolha estourou e dezenas de milhares de investidores perderam seu dinheiro.
Ainda em 2003, um investidor consultou-me sobre aplicar seu dinheiro em avestruz. “Você tem uma certeza e uma dúvida”, eu disse; “a certeza é: eles vão quebrar; a dúvida é: quando?” “Assim, se você não aplicar o dinheiro e a empresa não quebrar até o momento previsto para o resgate, você ficará triste; pode ocorrer, também, de você aplicar o dinheiro e resgatá-lo antes da quebra, e ficar feliz com o ganho extraordinário; por fim, você pode aplicar o dinheiro, a empresa quebrar antes do resgate e você perder tudo. A escolha é sua!” Embora a natureza do golpe seja a mesma, o rombo da Avestruz Master não foi tão grande quanto o do Madoff, aquele gestor de recursos em Nova Iorque que sumiu com alguns bilhões de dólares e hoje está preso, diferentemente dos responsáveis pela febre do avestruz. A história está cheia de outros episódios semelhantes, e tudo indica que outros mais virão. Fiquem atentos, leitores!
A febre imobiliária que atingiu os EUA e depois se transformou na presente crise econômica global não é idêntica à febre do avestruz, mas guarda semelhanças. Pessoas inventaram novidades e as venderam com a promessa de pagar rendimentos maiores que a média: não mais o avestruz, mas derivativos, ou um supostamente sofisticado sistema de avaliação de riscos etc.
O dinheiro novo que entra é usado para pagar o rendimento aplicado há mais tempo. A roda gira, aquece a economia, muitos ganham muito, até que alguém percebe que o rei está nu e o castelo desaba. Em síntese, essa é a história de todas as crises. O mais difícil é prever o momento em que ocorrerá o desabamento.
O ex-presidente do Banco Central norte-americano alertou para a exuberância irracional. No entanto, nada fez para furar a bolha; afinal, acabar com uma festa é sempre uma decisão antipática e politicamente muito difícil. Além disso, há analistas de plantão que provam não haver riscos e que o futuro será brilhante! Aliás, como faziam os responsáveis pela Avestruz Master! Para evitar bolhas e não arriscar o próprio dinheiro, é importante reconhecer que a palavra investidor mudou de sentido. Hoje, quem aplica dinheiro é chamado de investidor, embora tudo o que faça seja aguardar a valorização da sua aplicação. Em termos econômicos, a noção correta de investidor é aquele que constrói, que aumenta a capacidade de produção, que educa pessoas. A produção adicional é que permite pagar os rendimentos; sem ela, tudo o que ocorre é alguns ganharem e outros perderem.
Hoje, a modernidade trouxe enorme distância entre aplicadores e investidores, e apenas uma parte ínfima do dinheiro aplicado se transforma, de fato, em investimento. A mídia, usualmente, confunde aplicadores e investidores, assim como o Banco Central e alguns economistas; isso ajuda a criar novas bolhas! Fiquem espertos, leitores!