Quando nos apaixonamos, somos invadidos por sensações de êxtase. Às vezes, a experiência é breve e os sentimentos ou os parceiros vão embora. Mas também pode ser o início de um vínculo amoroso duradouro. Que é que nos atrai na pessoa amada? Impossível responder com precisão. Podemos ter uma vaga ideia, que apenas percorre o contorno do outro. Parece que sempre há um quê de imponderável em nossas escolhas afetivas e sexuais. Corpos e rostos bonitos nos atraem – mas também o humor, a gentileza, a inteligência aguçada, o alto status social. Certas preferências sexuais são universais. Como entendê-las?
O que mais se conhece sobre a teoria da evolução de Darwin é noção de sobrevivência dos mais aptos – o processo de seleção natural. A parte da teoria que versa sobre a seleção sexual foi negligenciada. Ora, a escolha do parceiro também determina os rumos tomados pela história evolutiva da espécie. Sem ela, o mundo que hoje conhecemos seria bem diferente.
Para Geoffrey Miller, especialista em evolução social, a inteligência humana evoluiu como adorno sedutor, pois trouxe vantagens na seleção sexual. Afinal, nem todas as conquistas humanas teriam fins de sobrevivência, sendo, antes de tudo, artimanhas de atração amorosa. Arte, música, esporte, filantropia, preceitos morais e ideais humanos são aspectos estéticos e prazerosos de nossa cultura, destinados a encantar, atrair, seduzir.
Não são apenas os mais aptos e mais fortes que são privilegiados pela seleção natural. A escolha do parceiro, ou seja, o processo de seleção sexual, leva em conta sua capacidade mental. A seleção sexual enfatiza características que sinalizam saúde, fertilidade, além da inteligência. Escolha sexual e sedução são atividades psicológicas e destacam atividades mentais rebuscadas, que excedem fins apenas de sobrevivência. É uma forma direta de seleção social e leva ao favorecimento de alguns traços acima de outros, produzindo filhos que tendem a herdar os aspectos valorizados.
Quando pensamos na evolução conduzida pela seleção do parceiro, podemos compreender melhor a riqueza artística e intelectual acumulada ao longo dos milênios. Saber e sensibilidade são também atributos de sedução.
Há um algo mais de prazer nas relações homem-mulher que não se consegue explicar com a teoria da sobrevivência dos mais fortes – e que deve ser fruto de sobras evolutivas ligadas ao gosto estético, à sensualidade, às fantasias. A mente humana adquiriu rumos próprios, que guardam pouca relação com a história de sua evolução.
Da relação sexual com fins reprodutivos nos movemos para vivências sensuais, prazerosas: a pulsão, com seus caminhos imprecisos, marcados pelo desejo inconsciente, integra a arquitetura de nosso psiquismo, tomando o lugar do instinto, regido por necessidades fisiológicas determinadas por nossa biologia.
O amor se firma como sentimento humano e subverte qualquer biológica. A capacidade de amar é força revolucionária que subverte e submete nossa própria biologia.