Sábado, 25 de Maio de 2013
Logo Revista Viver Brasil - Assim é viver
 

Especial Trânsito

Vou a pé

Morar perto do trabalho é uma alternativa que arregimenta pessoas na Grande BH na tentativa de fugir do trânsito cada dia mais congestionado

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues e Pedro Vilela


Envie seu comentário


Frederico Campos: do Ouro Preto para o centro: “Minha rotina é maleável”
O trânsito muda a vida. Leva, força alterações, dá sinal verde, acelera para a regionalização nessa era entulhada de carros: fazer tudo por perto, ao lado, a pé. O empresário Ivan Ribeiro caminha no fluxo. Depois de 14 anos em um condomínio dos arredores de Belo Horizonte, volta à região central da cidade nos próximos três, quatro meses. Vai deixar a vista serenada, a segurança, a casa boa para morar no meio de prédios a um quarteirão do Minas Tênis, no bairro de Lourdes, três do apartamento da filha e a oito de sua empresa, na Savassi. “Irei a pé quando não tiver compromisso.” Decidiu e fechou a compra da nova moradia na congestionada terça-feira, dia 8 de maio, quando Belo Horizonte parou, sua mulher ficou no carro por mais de duas horas e sua secretária, no Belvedere, por quase quatro. “O trânsito limita.” Tira a autonomia.
 
Vai aproveitar os 30, 40 minutos gastos na vinda bem cedo, os 40, 1 hora, 2 ou mais da volta no final da tarde, quando quase todo mundo entra nessa luta sôfrega para chegar onde se quer. “O belo-horizontino é afável, hospitaleiro, mas, quando entra no trânsito, fica agressivo. Parece que faz terapia nesse espaço público”, diz Ivan Ribeiro. Quer sair dessa batalha involuntária, fazer sua parte para melhorar a mobilidade urbana: vai andar mais a pé, antecipou o horário de saída da secretária Isabel Drumond para que se esquive no horário de pico. É um carro a menos. “São coisas básicas. Não entendo por que todos colégios começam as aulas no mesmo horário. Não temos que só culpar, mas buscar alternativas.” Achou a sua na volta à cidade, em um somatório de fatores a favor. É mais um na turma dos que, se é difícil chegar ao trabalho, vai viver ao lado dele, do lazer, do comércio.
 
Não briga com o trânsito, sai dele. “É mais que uma alternativa, torna-se uma espécie de aspiração profunda do estilo de vida urbano do século 21”, diz o sociólogo Dario Caldas, diretor do Observatório de Sinais. Fazer o caminho de volta dos condomínios arborizados nos arredores para as poluídas regiões centrais. “Os grandes movimentos pendulares do cotidiano tornam-se os vilões da mobilidade, como o são as sacolinhas plásticas para o consumo.” A tendência, ecologicamente correta, se encaixa na valorização do bairro como território principal. “É claro que, na maior parte das vezes, principalmente para a realidade das grandes cidades brasileiras, essa alternativa hiperlocal ainda é para poucos”, lembra Caldas. Para o empresário Ivan Ribeiro, o publicitário Bira Miranda, que mora a um quarteirão da sua agência, no bairro Sagrada Família.
 
“Dá para ver onde moro da janela. São 92 metros de distância”, diz Bira Miranda. Economiza um mês que poderia ser vivido no trânsito.  “É só fazer as contas: se gastava uma hora para vir e outra para voltar são 40 horas por mês, 480 por ano, 20 dias úteis. Então tenho um mês a mais que meus concorrentes.” Sai da agência a hora que der, tarde da noite, vai lá nos finais de semana, porque é do lado, a menos de cinco minutos. Almoça em casa, faz academia por perto. “O tempo fica mais largo.” Incentiva seus funcionários a morarem na região, seleciona os candidatos pelo endereço. “Não há outro caminho, nem tem volta a regionalização da vida.”

Bira Miranda: “Dá para ver onde moro da janela”
Bira Miranda: “Dá para ver onde moro da janela”
Tomou as rédeas de seu tempo ao subtrair o trânsito, na medida do possível: tenta marcar reunião fora no horário de pico, resolve tudo no Sagrada Família, programa seu dia para ser rentável nas horas. Acredita que consegue. “O indivíduo autônomo deseja ter domínio sobre a sua vida, seus tempos e movimentos. Ele ressente a falta de controle sobre essas dimensões de seu cotidiano como algo cada vez mais insuportável”, diz o diretor do Observatório de Sinais. Ficar horas no trânsito é um atentado ao direito de ir e vir dia após dia mais restrito nas entulhadas vias públicas. O advogado Frederico Campos fugiu disto, anteviu, acreditou em pesquisas, em um irmão que trabalha na Suíça e havia mostrado que Belo Horizonte ia parar na segunda década no século 21. 
 
Mudou há cinco anos com a família para o centro da cidade, a um quarteirão de seu escritório. Deixou a tranquilidade do bairro Ouro Preto, vendeu um dos dois carros até porque na nova moradia há garagem única, como a maioria dos prédios da redondeza, nem teria necessidade. Anda a pé, de táxi, de ônibus. Corre no horário do almoço no parque municipal, vai em casa quando precisa dar uma espairecida. Vive fora do carro. “Hoje fico mais com meus filhos. Tenho tempo para ler. Minha rotina é maleável”, argumenta o advogado. Vê a congestionada realidade de São Paulo chegar a Belo Horizonte. “A gente tem que se adaptar a esse novo tempo, entender que a cidade mudou.” Há engarrafamentos mais frequentes, mover-se por ela está cada dia mais restrito, limitado, sentido pela população.
 
“Antes eu ficava mais de uma hora no trânsito. Hoje gasto 10 minutos a pé e 3 de carro para ir ao trabalho”, diz a farmacêutica Daniela Nader. Procurou apartamento próximo ao trabalho, mas ainda não pode deixar o carro na garagem porque trabalha até as 23h. “Não é seguro andar à noite.” Tem tudo por perto, não a faculdade onde cursa odontologia, que está a 20, 25 minutos de sua nova casa no bairro Santa Amélia. Conseguiu reduzir o tempo, o estresse no enfrentamento nas ruas entupidas de veículos.
 
A chef Karen Piroli quer se livrar disso. “Há um ano eu gastava 12 minutos de casa até a escola das minhas filhas. Hoje é 1 hora.” Resolveu que vai se mudar para a frente do colégio, no Belvedere, até o próximo mês. “O condomínio, onde moro há 12 anos, é um paraíso, mas longe. O balanço das vantagens e desvantagens é desigual.” Fez as contas e viu que vai poder acordar 1 hora mais tarde, estará na metade do caminho para o trabalho. “O trânsito pesa na decisão de mudança. Não só ele isolado, mas representa 50%.” Agilizará a sua vida na regionalização, do verde para a cidade, onde desenvolve as atividades cotidianas. 
Karen Piroli: “Eu gastava 12 minutos até a escola, agora é 1 hora”
Karen Piroli: “Eu gastava 12 minutos até a escola, agora é 1 hora”
Na contramão vai o casal Elisângela Guanaíra e Marcello Marques. Eles foram do bairro Gutierrez a São Sebastião das Águas Claras, Macacos, para fugir do estresse do trânsito. Não conseguiram porque a produtora de filmes, da qual são donos, fica no Funcionários. Saem de casa bem cedo, por volta de 6h20, para irem trabalhar. Gastam de 25 a 30 minutos, mas o retorno... nunca sabem. “Não há horário alternativo na volta, nem como fugir dos grandes corredores, da Raja Gabaglia, da Nossa Senhora do Carmo, das obras perto do BH Shopping”, diz Marcello Marques.
 
Analisam, têm projetos de levar a produtora para o lado da casa, em Macacos. “A gente quer ter vida melhor”, conta Elisângela. “Visitas aos clientes são esporádicas e a internet, que não tira o presencial, ajuda na aprovação dos projetos”, afirma Marcello. É, o local globalizado. “Porém as pessoas estão viajando mais, ampliando seus deslocamentos geográficos para um plano amplo entre cidades, estados ou até países, ao mesmo tempo em que entra em colapso a mobilidade cotidiana, miúda”, lembra o sociólogo. A que atravanca a vida da maioria dos brasileiros, que chegou a isto por obra dos cidadãos, que pode ser resolvida por nós. “As tendências apontam para uma preocupação crescente com segurança, sustentabilidade, flexibilidade de soluções individualizadas sem prejuízos de normatizações coletivas”, afirma Dario Caldas.
 
Cada um pode fazer a sua parte para desgarrar a mobilidade. O empresário Ivan Ribeiro libera a secretária Isabel Drumond às 17h30. Ela para o escritório às 6h, onde chega às 7. “Saía de casa, em Nova Lima, às 7h30 e por volta de 8h estava no trabalho. Se fizer isso hoje, chego às 9 ou mais.” Pensa em voltar a morar em Belo Horizonte, viver perto do trabalho, de tudo. Vai na mão da tendência, empurrada pelo trânsito que muda as cidades, atiça a vida nos bairros. 

 
Compartilhe:    Bookmark com Delicious Bookmark com Delicious  Bookmark com Digg  Bookmark com Facebook  Bookmark com /.   Bookmark com Google  Bookmark com StumbleUpon   Bookmark com Technorati  Bookmark com Linkarena  Bookmark com Yahoo  Bookmark com SEOigg  Bookmark com Spurl  Bookmark com Live  Bookmark com Rec6  Bookmark com Myspace
Versão para Impressão  Versão Impressão    Assinar NewsletterNews:    

Busca no Portal

 
  

Blog do PCO


VIVER_BRASIL PROMOÇÃO - Concorra a pares de convites para o musical "Gonzagão", no Teatro Bradesco. Acesse o link e saiba mais on.fb.me/14yHtKw:

TudoBH Mãe de Eliza quer pena máxima para Bruno - Minas jornaltudobh.com.br/minas/mae-de-e? via @TudoBH

VIVER_BRASIL "Achar mão de obra qualificada também é um dos nossos grandes desafios", afirma Paulo Castellari.


Viver Casa

© Copyright 2009, Revista Viver Brasil – MG-030, nº 8625. Torre2 – Shopping Serena Mall – Vale do Sereno.
Cidade: Nova Lima – MG / CEP:34000-000 | Telefone: (31) 3503-8888