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Artigo
Desde criança jamais faltou galinha em nossa casa. Era minha mãe quem cozinhava, pois empregada não tínhamos. Também era ela quem cuidava de matar a ave, com a maior habilidade. Eu tinha horror dessa cena. Aliás, ainda hoje. Havia também o momento de colher o sangue para o molho pardo. E minha mãe era uma especialista na operação. Não restava uma gota na falecida galinha. E vinha a fase de depenar, após um banho na água fervente. E, finalmente, o esquartejamento. Pescoço para um lado, pés para outro (tem gente que gosta), coxas, externo, peito (minha parte preferida) e os miúdos. E então para a panela. Aí sim começava a parte agradável do preparo. A galinha ensopada era simplesmente divina. O aroma e sabor inesquecíveis. Ao molho pardo, eu tinha alguma resistência. Talvez porque me lembrasse da cena de decapitação. O estrogonofe de galinha, especialmente aos domingos, era o sucesso da mesa posta, onde até um vinho do Rio Grande do Sul aparecia. Meu pai, minha mãe (divina cozinheira) e meus irmãos desfrutavam daquele momento de fartura e felicidade. A galinha promovia a alegria da família reunida. Havia também o salpicão de galinha, habitualmente aos sábados.
Minha mulher mantém a tradição em casa e eu até hoje adoro o prato. Não vamos nos esquecer do empadão de galinha. Massa fina e recheio desfiado, sem pele ou pedaços de ossos, quentinho, saindo do forno. Meu Deus, como é bom. Se alguém adoecia, vinha logo a canja de galinha, quentinha, ao anoitecer. A gente só faltava agradecer a febre. Que sono bom, suando, após a canja. Os sonhos eram ainda melhores. Nunca gostei de quiabo, mas devo reconhecer que este prato, dos favoritos do saudoso presidente Kubitschek, era dos mais apreciados em casa. Minha mulher faz e gosta. E o arroz de forno? Até hoje não mudaram a receita e é sempre sucesso.
Afinal o que aconteceu com a galinha?
Enquanto moramos em casa com quintal, por menor que fosse, tínhamos sempre galinha no terreiro. Um galo velho ou novo era indispensável. E durava. Afinal ele sempre escapava da matança. Como era bom recolher os ovos nos ninhos que as próprias galinhas criavam e escondiam. Nenhuma criança confundia uma galinha com uma knoor.
Na adolescência comecei a sentir falta das galinhas em casa. Não mais havia quintal e não se cria galinha em apartamento. Surgiram então os vendedores ambulantes. As coitadas eram oferecidas vivas e penduradas pelos pés. Uma judiação.
Vieram as quitandas, mas você ainda encontrava galinhas vivas. Com o advento das geladeiras, passaram a vendê-las já depenadas. Mas eram galinhas.
Surgiram então os supermercados. Pequenos no início, mas cada dia mais sofisticados e maiores. E chegaram então os hipermercados. As galinhas sumiram de vez. Todas viraram frangos. São vendidos aos pedaços, congelados e cuidadosamente embalados. Muita água e pouco sabor. São tão diferentes das antigas galinhas que o agora chamado frango caipira é valorizado.
Já não existem penas de galinha para os enfeites de Carnaval e também ninguém mais tem pena das galinhas. Uma pena.
Os frangos passaram a ser referência de inclusão social. Mas também de inflação. A sociedade emergente passou a comer frango. O povo ficou feliz e o governo comemorou. Muito bem. Mas surgiu de outro lado a inflação do frango. Tão perigosa quanto a do chuchu. Ou do quiabo. Ou outras tantas que inventam como desculpa para a incompetência dos burocratas de plantão.
Mas onde comer galinha então? Vamos aos restaurantes. O desastre é ainda maior, nem frango têm. Pode percorrer o cardápio. Mesmo receitas francesas sofisticadas como um coq au vin ou um fricassé de poule você não encontra. O frango virou prato popular. Se quiser um frango assado, que vá procurar nas televisões de cachorro à porta de bares, supermercados, quitandas ou similares.
Estranho, por que a discriminação?
Em todo o mundo, nos restaurantes mais requintados, ou não, você encontra várias opções de frango (lá fora ainda chamam de galinha). Procuram atender o seu gosto e não o bolso deles.
Mataram definitivamente as galinhas. Sem pena...
Hermógenes Ladeira, empresário
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