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ReportagemA dor do amorEla existe, diz a ciência, e é comprovada por quem passou por trauma emocional. A excessiva liberação de adrenalina sobrecarrega o coração
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela | Arte: Paulo Werner
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De modo diferente, a economista V.G.V, 42 anos, viu este alarme soar alto quando o namorado, apesar de recente – dois meses de relacionamento – mas passagens compradas para férias românticas em Montevidéu, chegou de repente e falou que precisavam conversar. “Disse que pirou ao ver a ex-namorada, que precisava de tempo e estava com o coração fechado para balanço. Mas tinha seus valores e não a queria. Entretanto, no fim de semana seguinte, quando entrei no Facebook, já havia fotos dele com uma outra!” Segundo V.G.V, ia tudo muito bem, o astral do casal era o mesmo, conversavam horas a fio, mandavam mensagens carinhosas, ele se dizia encantado com ela. Pega de surpresa, passou um mês sentindo o corpo gelado, como se sofresse uma descarga de adrenalina. Sufocamento e irritação. Sem conseguir dormir, não concentrava no trabalho. “Muita coisa perdeu a graça. Dói porque acreditei em sonhos, promessas, fiz planos.”
De acordo com a terapeuta e professora de Biodanza Liliana Santos Viotti, é o apego que leva as relações com o outro a serem vivenciadas quase como uma posse. Por isto, raramente as pessoas estão preparadas para a perda e, quando ela acontece, se não estão fortalecidas, podem, sim, transformar-se em doenças psicossomáticas. “Há necessidade de superação da dor para que não fique cronificada e seja transformada numa patologia. É comum as pessoas relatarem dores nas artérias, costas, rosto e extremidades.” Para ela, vivemos tempos mais difíceis, inclusive o amor, que se tornou descartável. Como tudo.
Sendo cada ser único em seus amores e desamores, é natural que as dores também sejam vividas de modo particular. O fotógrafo Hemerson Gomes, 42 anos, conta que é no estômago que se instala o caos quando sofre de amor. Seguem-se as enxaquecas e dores musculares. “Acredito que essa é a pior sensação do mundo. De uma só vez vem uma mistura de angústias, medos, frustrações, depressão, desânimo, autocomiseração e raiva, muita raiva.”
Como dizem os poetas, parece que amor e dor, rimam, sim. Pois entre os medos do ser humano está o de ser abandonado. “O amor é o campo da contradição dos afetos. Por isto falamos que se unem amor e ódio. Há uma conexão íntima entre amor e agressividade porque o amor se ocupa do bem-estar do outro apenas até certo limite, uma vez que se ama a si mesmo no outro”, avalia a psicanalista Thais Gontijo. Para ela, tal sentimento é uma fantasia ilusória de fusão com o amado, fantasia que supre as ausências e desamparos experimentados durante a vida. Porque o amor exige trabalho, e muito. “Em última instância o amor nunca pode ser inteiramente satisfeito.”
Talvez o tempo seja um dos poucos remédios eficazes. Todos nossos personagens estão atravessando seus maus momentos, mas a cada dia melhoram um tantinho. Pouco a pouco começam a enxergar horizontes. V.G.V já consegue dormir e passar o dia sem pensar no ex-amado desde que, mês passado, ele lhe telefonou e ela teve a oportunidade de dizer-lhe poucas e boas. V.C é uma profissional muito bem-sucedida e está de mudança para um novo apartamento onde começará vida nova. Sem dores. Gomes cada vez menos rumina mágoas. “À medida que o tempo passou essa sensação tornou-se menor. Já cheguei a sofrer seis meses por conta de uma ex. Eram autênticos os sentimentos que me levaram a tanta dor de cotovelo. Neste tempo certamente deixei de aproveitar muitas coisas boas por não vislumbrar outras opções. Ficar remoendo cega. Mas isto não é nem um pouco necessário.”
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