Quinta, 23 de Maio de 2013
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Reportagem

A dor do amor

Ela existe, diz a ciência, e é comprovada por quem passou por trauma emocional. A excessiva liberação de adrenalina sobrecarrega o coração

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela | Arte: Paulo Werner


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Sofrer de amor. Desde que o mundo é mundo que isto existe. Afinal, há cerca de 960 a.C, Salomão, rei de Israel, já se lamuriava aos quatro cantos porque, mesmo tendo 700 esposas e 300 concubinas, não era correspondido por aquela que era a exclusiva dona de seu coração: a sulamita. Passados milênios, a história se repete com gente de toda classe social e idade. A não correspondência ou perda da pessoa amada revela muitos relatos tão parecidos: um sofrimento tão profundo e angustiante que chega a causar falta de sono, de apetite a até dores agudas no peito, que arde, e nas articulações.  
 
Se até algum tempo creditavam-se essas sensações ao romantismo exacerbado, e até mesmo à imaginação, atualmente a ciência explica que, existe, sim, a dor de amor. Esta mesma, que oprime o peito e tira a respiração quando tomamos o famoso fora da pessoa amada. Isto porque, entre outras causas, de acordo com o médico neurofisiologista Guilherme Cunha Messias dos Santos, há uma região do cérebro, o córtex cingulado anterior, em sua porção posterior, envolvido na percepção do componente afetivo da dor. 
 
“O que os neurocientistas estão tentando mostrar é que parece haver uma intrigante ativação de áreas responsáveis pela discriminação sensorial da dor física em situações em que a rejeição social é intensa.” O interessante é que não há um mecanismo causando dor no organismo. Também outras emoções como ódio, medo, tristeza, não causam nenhuma ativação nestas áreas como a chamada dor social. O médico explica que é como se o cérebro disparasse um alarme para preparar o indivíduo para a separação. “Toda dor tem um efeito evolutivo e a função é avisar que há uma causa para ela.” Santos diz ainda que, do ponto de vista do darwinismo, os primatas são mais bem adaptados ao meio quando vivem em bando. Ou seja, somos seres sociais, precisamos, gostamos e queremos contato. 
De acordo com matéria veiculado no jornal Wall Street Journal, especialistas chamam a dor de amor de síndrome do coração partido. A partir de um trauma emocional forte, uma quantidade excessiva de adrenalina é liberada e o coração fica sobrecarregado. Não há entupimento de artérias, mas o ventrículo esquerdo fica semiparalisado. Não por acaso Bárbara sentiu o coração queimar. 
 
“Se ele tivesse morrido seria melhor. É como uma amputação. Ainda estou reaprendendo a viver. Não sofro mais por ele. Agora estou no processo de desgosto e é outra dor”, revela a designer de interiores V. C, 42 anos, separada há pouco mais de um. Segundo ela, o marido só pensava em si: no seu horário de correr, no encontro com os amigos, na própria profissão. O desgosto e o desgaste da relação foram tão grandes que detonou uma pancreatite em V. Vieram outras crises e até o agravamento de uma fibromialgia. Ela foi internada duas vezes, teve medo. “Uma dor tão funda que doía no peito. Tive crise de ansiedade. Um dia, enquanto estava dentro de uma igreja, minha lípase subiu. Fui internada de novo. Os médicos falaram que eu podia ter falência dos órgãos. Pedi a Deus para não acordar nunca mais.” 

Hemerson, 42 anos:
Hemerson, 42 anos: "A falta de beijos, carinhos, abraços. Não somos importantes para aquele famigerado ser amado."
De modo diferente, a economista V.G.V, 42 anos, viu este alarme soar alto quando o namorado, apesar de recente  –  dois meses de relacionamento – mas passagens compradas para férias românticas em Montevidéu, chegou de repente e falou que precisavam conversar. “Disse que pirou ao ver a ex-namorada, que precisava de tempo e estava com o coração fechado para balanço. Mas tinha seus valores e não a queria. Entretanto, no fim de semana seguinte, quando entrei no Facebook, já havia fotos dele com uma outra!” Segundo V.G.V, ia tudo muito bem, o astral do casal era o mesmo, conversavam horas a fio, mandavam mensagens carinhosas, ele se dizia encantado com ela. Pega de surpresa, passou um mês sentindo o corpo gelado, como se sofresse uma descarga de adrenalina. Sufocamento e irritação. Sem conseguir dormir, não concentrava no trabalho. “Muita coisa perdeu a graça. Dói porque acreditei em sonhos, promessas, fiz planos.”
 
De acordo com a terapeuta e professora de Biodanza Liliana Santos Viotti, é o apego que leva as relações com o outro a serem vivenciadas quase como uma posse. Por isto, raramente as pessoas estão preparadas para a perda e, quando ela acontece, se não estão fortalecidas, podem, sim, transformar-se em doenças psicossomáticas. “Há necessidade de superação da dor para que não fique cronificada e seja transformada numa patologia. É comum as pessoas relatarem dores nas artérias, costas, rosto e extremidades.” Para ela, vivemos tempos mais difíceis, inclusive o amor, que se tornou descartável. Como tudo.
 
Sendo cada ser único em seus amores e desamores, é natural que as dores também sejam vividas de modo particular. O fotógrafo Hemerson Gomes, 42 anos, conta que é no estômago que se instala o caos quando sofre de amor. Seguem-se as enxaquecas e dores musculares. “Acredito que essa é a pior sensação do mundo. De uma só vez vem uma mistura de angústias, medos, frustrações, depressão, desânimo, autocomiseração e raiva, muita raiva.” 
 
Como dizem os poetas, parece que amor e dor, rimam, sim. Pois entre os medos do ser humano está o de ser abandonado. “O amor é o campo da contradição dos afetos. Por isto falamos que se unem amor e ódio. Há uma conexão íntima entre amor e agressividade porque o amor se ocupa do bem-estar do outro apenas até certo limite, uma vez que se ama a si mesmo no outro”, avalia a psicanalista Thais Gontijo. Para ela, tal sentimento é uma fantasia ilusória de fusão com o amado, fantasia que supre as ausências e desamparos experimentados durante a vida. Porque o amor exige trabalho, e muito. “Em última instância o amor nunca pode ser inteiramente satisfeito.”
 
Talvez o tempo seja um dos poucos remédios eficazes. Todos nossos  personagens estão atravessando seus maus momentos, mas a cada dia melhoram um tantinho. Pouco a pouco começam a enxergar horizontes. V.G.V já consegue dormir e passar o dia sem pensar no ex-amado desde que, mês passado, ele lhe telefonou e ela teve a oportunidade de dizer-lhe poucas e boas. V.C é uma profissional muito bem-sucedida e está de mudança para um novo apartamento onde começará vida nova. Sem dores. Gomes cada vez menos rumina mágoas. “À medida que o tempo passou essa sensação tornou-se menor. Já cheguei a sofrer seis meses por conta de uma ex. Eram autênticos os sentimentos que me levaram a tanta dor de cotovelo. Neste tempo certamente deixei de aproveitar muitas coisas boas por não vislumbrar outras opções. Ficar remoendo cega. Mas isto não é nem um pouco necessário.” 

 
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