Terra predominantemente de lacanianos, Belo Horizonte tornou-se, neste ano, sede de um dos maiores cursos de psicoterapia vincular-dialética, denominação dada à psicanálise bioniana. Idealizados pelo psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, professor convidado da Faculdade de Medicina da UFMG e colaborador da Faculdade de Medicina da USP, os grupos de estudo e seminários querem difundir as ideias de Wilfred Bion, chamado de terceiro gênio da psicanálise pelos seus seguidores (depois de Sigmund Freud e Melanie Klein).
Filho de ingleses que moravam na Índia, Bion retornou para a Inglaterra ainda menino, onde, mais tarde, tornou-se cirurgião. Após exitosa vida médica, resolveu dedicar-se à psiquiatria e à psicanálise. Com experiência em duas guerras mundiais, recebeu condecoração da rainha. Revolucionou a psicanálise introduzindo nela outras ciências, como biologia, física quântica, química, filosofia, pintura e poesia. Foi pioneiro em dinâmica de grupo e inovou na relação emocional entre as pessoas. “Não basta o discurso do cliente, sua linguagem. É necessário vivenciar emoções da dupla – paciente e terapeuta e paciente e grupo”, detalha José Raimundo Lippi.
A principal diferença da psicanálise bioniana, para o fiel seguidor, é a busca da verdade para a expansão do universo mental, a criação de condições para um encontro consigo mesmo. Bion pensava muito nos místicos e valorizava a intuição, o que lhe rendeu inúmeras críticas, mas também muitos admiradores.
Lippi não é divergente de outras escolas. Diz que muitas se digladiam entre si, cada uma fantasiando a ideia de trazer o conhecimento total. Mas, para ele, cada escola nada mais é do que um conjunto geral de conhecimentos. Usa a orquestra para a analogia: “O violinista é tão importante quanto toda a orquestra. Cada músico tem seu momento de fazer seu som e ser ouvido.”
Assim como o mestre Bion, Lippi não crê na existência de uma ciência fechada. Aposta na continuidade. E aplaude a inversão da ordem das coisas. “Antes dele, achávamos que só podíamos amar as pessoas depois de conhecê-las. Mas só podemos conhecê-las depois de amá-las”. E desmorona até Descartes e seu penso, logo existo. Para Bion, está demonstrado que se existo, logo penso.
A agenda do curso de psicologia vincular dialética começou em abril. Mas os seminários acontecem de 15 em 15 dias, e só terminam 8 de dezembro, com o Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa. Até lá, qualquer terapeuta, de qualquer escola, universitários, docentes ou simplesmente curiosos poderão aprender e discutir sobre temas de profunda relevância para a sociedade. “Nosso curso não é necessariamente para formar, mas para dar novas ferramentas de trabalho”, diz o doutor Lippi, do alto de seus 77 anos.
Intelectual, professor e incansável estudioso de Bion, Lippi nunca abandonou o consultório. Pelo contrário. É lá que ele consegue unir a teoria e a prática de tantos anos de estrada. “Dá pra ser piloto de avião só lendo um tratado de pilotagem?”, compara. Tão pouco reclama da idade. “O psicoterapeuta é como o vinho. Quanto mais velho e mais estudioso, melhor.”