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CulturaO poetinha nas montanhasViver Brasil percorre caminhos do escritor em Minas um ano antes do centenário de seu nascimento
Texto: Márcia Queirós | Fotos: Divulgação e Pedro Vilela
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Outro episódio marcante foi quando João chegou do colégio e encontrou uma pessoa em sua cama. “Perguntei aos empregados o que acontecia. Esse alguém no meu quarto era o escritor chileno Pablo Neruda, que acompanhava Vinicius. Depois todos foram almoçar no Tavares, restaurante de carnes exóticas perto do Mercado Central”, conta João.
A família Lima recebia Vinicius também na fazenda em Ouro Preto, mas as hospedagens na cidade iam além. Lá, o poeta passava temporadas no Pouso do Chico Rei. É Vinicius quem abre, em 1967, e fecha, em 1972, com poemas, o livro de hóspedes exposto na pousada, que também guarda cartas escritas pelo poetinha à Lili.
Em uma das missivas, de 1967, o poeta pede à dinamarquesa para receber o badalado fotógrafo David Zingg, que iria a Ouro Preto fazer reportagem para a revista norte-americana Life. Por indicação de Vinicius, a pousada recebeu ilustres como o paisagista Burle Marx, os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, Maysa, Dori Caymmi, Maria Bethânia e Pablo Neruda.
Da passagem do escritor chileno por Ouro Preto com Vinicius, a empresária Cida Zurlo, capixaba radicada na cidade histórica, guarda história hilária. Ela conheceu o poeta aos 18 anos, no pouso de Lili, quando estudava farmácia e se tornaram amigos. Hospedou o poeta em sua casa, em 1976, em uma das últimas visitas a Ouro Preto. “Em 1968, saí com o Pablo Neruda e Matilde para andar pela cidade, mas, no caminho, Pablo pediu para eu seguir sozinha com a Matilde, pois faria companhia a Vinicius na pousada. Na verdade, uma desculpa para tomar gim tônica com o poeta”, lembra Cida.
Hoje, o Pouso do Chico Rei, que mantém intacto o quarto de Vinicius e suítes com versos do poeta ilustrados pelo arquiteto carioca Carlos Leão, o Caloca, é gerenciado pelo artista plástico Ricardo Correia de Araujo, 48, neto de Lili, e a mulher Helena. “Eu tinha 8 anos quando o Vinicius vinha aqui. Chegava dando presentes, gostava do bolo de linguiça dinamarquês feito pela minha avó. Eram muito amigos”, diz Ricardo.
Na pousada, hospedaram-se também mulheres de Vinicius, que se casou nove vezes. Uma delas, a atriz baiana Gessy Gesse, viveu horas de apuros. Indignada com o abandono do poeta, a ex-mulher Cristina Gurjão, grávida de cinco meses, teria aparecido na pousada de surpresa, transtornada. Chegou a subir até o quarto, mas, por sorte, o casal foi avisado pela recepção e Vinicius conseguiu esconder Gesse.
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Além do Pouso, em Ouro Preto, Vinicius se hospedava na casa dos artistas plásticos Carlos Scliar (1920-2001) e Ivan Marquetti. Foi lá que o também artista José Alberto Nemer conheceu o poetinha, em 1965, quando tinha 19 anos. “Logo nos tornamos amigos. Fazíamos via-sacra nos bares para tocar e cantar. Cheguei a ficar seis noites sem dormir. As noitadas terminavam às 6h, mas depois eu não dormia. Um dia, depois de seis noites em claro, capotei na cadeira do barbeiro”, lembra Nemer, que assistiu à chegada do homem à Lua em companhia de Vinicius.
Mas foi na casa de Scliar que o cineasta francês Pierre Cast gravou cenas de documentário sobre o poeta, nos anos 1960. As imagens em que Vinicius aparece com Baden Powell ao violão cantando Canto de Ossanha integram o filme Vinicius, do cineasta Miguel Faria Jr, de 2005. Entre os jovens que cercavam os músicos, estavam Nemer e João Heraldo Lima.
Nemer ainda conviveu com Vinicius em Belo Horizonte. Era vizinho da família Lima, no Serra, e integrava nos anos 1960 o grupo musical Quarteto, do qual também faziam parte Tavito, Antônio Cândido Melo Carvallho e Eloy Balesteros. Como em Ouro Preto, as noitadas do poeta eram intermináveis, mas uma se tornou especial: Nemer conta que levava Vinicius para casa, quando resolveram parar para tomar a que seria a última em uma boate, na rua Aimorés.
“Pedi ao dono, Caio Lucena, para nos servir uísque. Ele permitiu, mas só no balcão, porque a casa já estava fechando. Mas, quando viu que o Vinicius estava junto, o dono quase caiu para trás e começou a ligar para as pessoas irem à boate. De repente, o espaço encheu e a festa foi até o meio-dia de domingo”, conta.
Em Ouro Preto, era no Calabouço, famosa casa noturna da canadense Gerey Kanikan, que o poetinha se esbaldava. “Eu queria esvaziar a boate às 2h da manhã para descansar, sonhava em ser um cowboy para encerrar tudo, mas, quando a turma do Vinicius descobriu a casa, foi um desastre. Eu fechava de manhã”, diz a bem-humorada Gerey. Bastava o poeta chegar para a casa lotar – sobretudo, de mulheres. “Era uma nuvem de borboletas em cima de uma flor. Meninas de 16 anos assediando Vinicius. Eu não entendia como podiam gostar de um velho barrigudo.”
De tanta gente, não dava para abrir nem fechar a porta. Gerey encontrou como solução construir uma salinha nos fundos da boate para que Vinicius pudesse tomar seu uísque tranquilo quando quisesse. “Mas ele gostava mesmo é de ficar cercado de jovens. A gente tinha tanta sintonia que nem precisava conversar, bastava um olhar para o outro e nos entendíamos”, conta a empresária.
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Do Calabouço, que marcou a noite ouro-pretana no final dos anos 1960 e 1970 e era chamado de Pedaço de Paris, restam mesas e cadeiras vazias, objetos de arte e fotos na parede com frequentadores ilustres. Entre eles, Vinicius. O espaço já fora alugado para funcionar como restaurante e pizzaria, mas jamais resgatou o glamour do passado. “Queria que fosse um espaço cultural. Fazíamos até debates aqui”, sonha Gerey.
Já a casa de Scliar, que morreu em 2001, hoje é administrada pelo professor da Ufop Romério Rômulo, que cuida do acervo do pintor. “Scliar me contava que Vinicius passava até dois meses aqui. Foi um dos grandes incentivadores da criação da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) e gostava de estimular jovens músicos”, conta Romério.
João Bosco, um desses afilhados musicais de Vinicius, lembra com carinho da convivência com o poetinha. Ele era estudante de engenharia em Ouro Preto, mas sonhava com a carreira de músico. Sabendo da visita de Vinicius, numa noite, bateu à porta do Pouso do Chico Rei. Foi recebido de bom grado por Vinicius. O primeiro encontro rendeu uma canção. “Enquanto eu tocava, Vinicius já foi fazendo a letra do Samba do Pouso, que depois foi gravadono songbook do Vinicius”.
A partir daí, nasceu grande amizade. Vinicius apresentou João Bosco a artistas no Rio, alavancando sua carreira. “Fui apenas um exemplo de pessoa a qual Vinicius ajudou. Era simples. Bebíamos muito nas noitadas, em Ouro Preto, e ao voltar para casa, sem cigarro, catávamos guimbas pela rua Direita para fumar.” Chico Buarque, no filme Vinicius, diz que o poeta não caberia no mundo consumista de hoje. João Bosco vai muito além: “De tão humano, foi quase uma utopia”.
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