Aos poucos a nação vai conhecendo o estilo Dilma de governar, que se prima, quase sempre, em rude objetividade. Para atingir seus objetivos encara e provoca tensões, notadamente no enfrentamento daqueles que fazem uso do mandato com finalidades baixas e contrárias ao interesse público. Em seu estilo, que já deixou de ser mineiro há muito tempo, incorpora características personalíssimas dos gaúchos, revelando influências de Getúlio Vargas, João Goulart, Ernesto Geisel e Leonel Brizola. Talvez por isso tenha em seu governo alguns nomes oriundos do estado que a acolheu, justificando a alcunha, não pejorativa, que vem sendo imputada ao seu mandato, de República do Chimarrão. Creio que o divisor de águas entre a imposição de sua própria personalidade, que realçou uma identidade à revelia de seu patrono, Lula, tenha sido a demissão serial de ministros, visando estancar a política do toma lá, dá cá.
Naquele momento percebi como o senso comum nos engana. Eis alguns de seus traços marcantes já revelados com destemor: a determinação com que enfrenta temas áridos e espinhosos, o pouco gosto pela política partidária, um nacionalismo realista, a intervenção do estado na política econômica e o sonho do Brasil potência, revelado através do PAC – um conjunto de obras estruturantes que, se realizadas, mudarão a história do Brasil. Nesse contexto, ela comprou uma briga com o mundo dito ambientalista, ao levar adiante a construção da usina de Belo Monte. Apesar de a política ser uma ciência de verdades transitórias, há que se reconhecer que, em termos de diagnóstico, ela é imbatível ao assumir que as taxas de juros, o câmbio e os altos impostos se constituem nas três amarras que o Brasil, secularmente, tem como entraves ao seu desenvolvimento.
No entanto, a sua queda de braço com os banqueiros deveria começar por dissecar o que sejam os componentes que impactam o custo do dinheiro. Sobre esse assunto ela mesma confessa não entender os fundamentos técnicos do spread bancário. Esses fundamentos se alimentam no custo das captações, na incidência de depósito compulsório e outras exigibilidades, que ajudam a formar o custo financeiro primário. Eis alguns tributos sobre receitas que os bancos recolhem aos cofres do poder público: 0,65% mais 4% sobre a receita líquida de intermediação financeira são recolhidos ao Pasep e ao Cofins, respectivamente, enquanto 5% sobre a receita de serviço remuneram o ISS. Provisões para garantir os pagamentos de empréstimos de liquidação duvidosa e o denominado risco de crédito, que se traduz em inadimplência, retroalimentam-se e se perpetuam na lentidão da Justiça brasileira.
Os custos administrativos registram os custos de contratação e custos de manutenção. Já os tributos sobre o resultado envolvem 25% mais 15% sobre o lucro tributável para o Imposto de Renda e para a CSLL, respectivamente. O próprio Banco Central, em estudo de 2010, disponível em seu site, revela que em torno de 29% do spread se deve à inadimplência dos tomadores de crédito e 22%, aos impostos. Os custos administrativos consomem 12,5% e cerca de 4% representam a soma dos efeitos dos compulsórios, dos subsídios cruzados e do recolhimento ao FGC. O restante, aproximadamente 32,5% do spread, é atribuído à margem líquida, erros e omissões. Essa redução de juros, que os bancos hoje apregoam, mas não cumprem, como revelam as taxas médias praticadas, caracteriza uma clara intervenção do governo nas suas administrações. Embora seja uma boa batalha, ela se dá com as armas erradas. Keynes e Adam Smith que se cuidem.
Wagner Gomes, administrador de empresas |