Morar em cidade pequena, tranquila, nem pensar. Era convicta disso. Mas nesse vaivém da vida mudou de ideia e de casa: saiu de Belo Horizonte e foi para Brumadinho. Tudo começou quando a advogada Carolina Martins, 26 anos, em ida à casa de uma amiga no entorno da capital fez rever seus conceitos. O dinheiro que estava reservado para dar de entrada em um apartamento na região Centro- Sul de Belo Horizonte foi usado para comprar casa dentro de condomínio fechado, a 50 quilômetros de BH.
“Quando fui avaliar, vi que pagaria mais caro por um apartamento muito menor no meio de uma cidade, que está se transformando em um caos em todos os sentidos”, diz a advogada. Ela conta que em Brumadinho passou a ter mais contato com a natureza. “Ao mesmo tempo, estou próxima e continuo, inclusive, trabalhando em BH. Nunca tive relação com o interior. Nasci e cresci na capital, mas sinto que agora ganhei em qualidade de vida.”
É mais uma nessa migração da cidade para os arredores. Há quem já fez isto na década passada. A jornalista Paula Lanza, 25, se mudou com a família do bairro Gutierrez, região Oeste de Belo Horizonte, para um condomínio fechado em Nova Lima, a 31 quilômetros. Lá ela passou parte da infância e da adolescência e o que era, inicialmente, um sonho do pai, que é do interior, passou a envolver toda a família. “Eu experimentei a liberdade de morar em uma cidade pequena, de poder sair e voltar para casa a qualquer hora do dia e sozinha.”
Nem a distância e as horas a mais no trânsito atrapalham. A estudante de design de produto Mariana Severino se desloca todos os dias de Nova Lima até a faculdade, na Savassi. Para chegar à aula, às 19h, precisa sair de casa às 17h30. “Eu passei a sentir um prazer bem maior ao ficar em casa. A maior vantagem é poder viver sem a preocupação com a falta de segurança de Belo Horizonte. Aí entram também os benefícios de uma privacidade maior, ter uma área externa para poder plantar, ter animais de estimação.”
Histórias como essas se repetem. Porém, há alguns anos, morar na Região Metropolitana de Belo Horizonte podia estar no plano de aposentados ou fazer parte de projetos do futuro. Com a expansão imobiliária e o desenvolvimento do entorno, o que era apenas uma fuga tornou-se alternativa. É crescente o número de pessoas que se mudam para cidades como Nova Lima, Brumadinho, Vespasiano, Jaboticatubas e Lagoa Santa.
São muitas as vantagens de uma cidade sem trânsito, nem barulho e com menos violência. Mas a falta de infraestrutura urbana, principalmente na questão da mobilidade, põe em risco o desenvolvimento econômico, o crescimento imobiliário e a qualidade de vida desses moradores. Para que o problema não se agrave são necessárias medidas que harmonizem a expansão com a preservação do meio ambiente.
A iniciativa privada, por meio da Associação dos Empreendedores dos Bairros Vila da Serra e Vale do Sereno, formada por um grupo de empreendedores, assinou convênio para viabilizar a contrução de uma trincheira. Ela vai interligar a MG–30 com a BR– 356. A obra, com um aporte de 7 milhões de reais, compreende, além da trincheira, um viaduto e três pistas de rolamento, no sentido Nova Lima/Belo Horizonte, além do projeto de sinalização, aprovado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Ela faz parte do Complexo Viário do Portal Sul que abrange, ainda, dois outros viadutos.