Sábado, 25 de Maio de 2013
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Cultura

Cidade musical

Pró-Música e Lúdica Música! conquistaram fama e reconhecimento no Brasil e mundo afora

Texto: Ana Elizabeth Diniz | Fotos: Victor Schwaner


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Lúdica Música! contabiliza mais de 2.500 shows em 21 anos de carreira
Juiz de Fora é uma cidade profundamente musical e talvez isso explique o sucesso de dois grupos genuinamente regionais: o Pró-Música e o Lúdica Música!, assim mesmo, com exclamação e suspiros que preenchem a alma. Coloque dentro do “ludificador” uma boa dose de samba, rock, baião, bolero, blues, jazz com interpretações únicas de compositores como Chico Buarque, Milton Nascimento, Carlinhos Vergueiro, Lenine, Zeca Baleiro, André Abujamra, Ivan Lins, Luiz Tatit, Tom Jobim, Tribalistas e Beatles, além do trabalho autoral e pronto: você terá música de excelente qualidade levada aos quatro cantos pelo Lúdica Música!
 
O trio é formado por Isabella Ladeira, que se destaca pela grande extensão vocal, pelo estilo próprio no pandeiro e a “cuíca de boca”; Rosana Brito, diretora musical, voz e violão suingado e Gutti Mendes, que se incorporou à trupe há oito anos com seus efeitos especiais de guitarra e violão.
 
O grupo diz que sua música é de lazer. Tanto é que o título de um dos CDs é “Diversões lúdicas ao vivo... e a cores” (2008), gravado em Belo Horizonte ao lado de convidados ilustres como Vander Lee, Maurício Tizumba, Chico Amaral e Harém da Imaginação. O grupo surpreende, emociona e brinda o público com momentos intimistas ou explosivos, densos ou divertidos, e o convida a participar da festa num jogo musical mágico.
 
“Talvez seja a espontaneidade, a verdade com que fazemos as coisas e o respeito que temos pela música, o que faz com que tudo flua de forma lúdica e positivamente”, arrisca Gutti.
 
Em 21 anos de carreira, o Lúdica Música! contabiliza mais de 2.500 shows e seis temporadas na Europa entre Itália, Espanha e Portugal. O trio já dividiu o palco com Ivan Lins, Alcione, Carlinhos Vergueiro, Milton Nascimento, Mart´nália, Rita Ribeiro, Sueli Costa, Emmerson Nogueira e a conterrânea Ana Carolina. No total, cinco discos lançados.
 
“Não basta apenas ter talento. É preciso perseverança e respaldo do público e da crítica. O artista tem que ter amor à música e à arte. Nossa vida é meio incerta e, por isso, é preciso estar preparado e é exatamente sobre isso que a gente fala no último CD, “Mundo-Ludo” (2010), que interpreta a arte e o jogo de viver a rotina da vida”, revela Isabella, emendando que este é um trabalho mais autoral, com novas músicas do trio em parceria com Gustavo Lira, Knorr e Marilda Ladeira e com participações de Milton Nascimento, André Abujamra, Emmerson Nogueira, Marcinho Itaboray e Paulo Beto. 
 
“Há 20 anos inventamos moda e nos reinventamos. Nunca nos acomodamos, estamos sempre na estrada produzindo, procurando conteúdo e profundidade na música e sempre com uma boa dose de humor e emoção. O público também se renova sempre, e hoje atingimos gente de todas as idades”, avalia Isabella.
 
O grupo recebe aplausos também pelo belo trabalho de inserção social realizado pela “Oficina Lúdica de Ritmos”, uma escola eclética que congrega pessoas a partir de dez anos, todos juntos, em uma experiência heterogênea de leigos e músicos formados. Desde 2006, quando foi criado, já passaram pelo projeto mais de 300 pessoas que, durante um tempo curto, se encontram, ensaiam e depois se apresentam publicamente no Theatro Central de Juiz de Fora. 
 
São tantas emoções! E a fórmula do sucesso é Rosana quem dá: “É preciso saber passar por todos os modismos sem se deixar contaminar, valorizando e enaltecendo a boa música, sempre apurando nosso estilo e personalidade, buscando uma forma instigante de atuar e exercitando o lado explicitamente lúdico da música”.

Maria Isabel de Sousa Santos:
Maria Isabel de Sousa Santos: "Somos conhecidos por divulgar a boa música e preservar a produção colonial"
Símbolo e referência
 
Tarde de quarta-feira. A concertista, pianista e professora Maria Isabel de Sousa Santos, seu marido Hermínio de Souza Santos e o filho Júlio César de Souza Santos,  violinista, flautista e economista, dividiam a mesma sala do Centro de Cultura Pró-Música, em plena avenida Rio Branco, centro de Juiz de Fora. Na sala ao lado podia se ouvir o ensaio do coral infantil sob a coordenação da outra filha, Maria Cristina, flautista e violinista.
 
A ligação da família com a música não para aí. Luis Otávio, 38, é violinista. Atuou durante 16 anos na Europa como concertista e spalla da La Petit Band da Bélgica. Maria Beatriz é pianista e médica e Marco Antônio, apesar da formação em flauta doce, não seguiu a carreira musical. Dos dez netos, Maria Fernanda é spalla da Orquestra de Câmara, Maria Carolina toca violino na Camerata e Artur, 20, tem uma banda de rock.
 
A história dessa trupe começa com Carmelina Machado de Souza, professora de música de Cataguases que ensinou a arte para a filha Maria Isabel que, aos 18 anos, já era professora de música, tornou-se concertista e lecionou durante 42 anos no Conservatório Estadual de Música Haydée França Americano. Não parou mais. “Nunca me imaginei fazendo outra coisa que não fosse a música”, confessa. 
 
Isabel conta que tudo começou com um pedido do pianista Arnaldo Estrella, seu professor de piano, para que ela promovesse um concerto por mês em Juiz de Fora. “Comecei em casa e tivemos que comprar um piano de cauda, que veio de Hamburgo, Alemanha. As apresentações deram tão certo que três anos depois começamos a construir a nossa sede, mas nada disso existiria sem o apoio do meu marido Hermínio, o grande incentivador. Nós dois criamos a Pró-Música”, faz questão de ressaltar.  Na inauguração do espaço, em 1974, Estrella se apresentou ao piano no teatro que tem o seu nome. Trinta e sete anos depois, os nomes mais consagrados da música como Nelson Freire, Moreira Lima, Madalena Talhaferro, Giberto Tinetti, entre muitos outros, já se apresentaram ali. 
 
“Somos conhecidos em todo o Brasil por divulgar a boa música, formar músicos, pesquisar e preservar a produção colonial brasileira e promover a interpretação da música antiga com instrumentos de época”, comenta Isabel. A cria mais famosa e de maior visibilidade da casa é o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, evento criado em 1990, e reconhecido como bem imaterial pela prefeitura de Juiz de Fora em 2010.
 
O Pró-Música é um celeiro de novos talentos. “A música transforma e dá uma superioridade mental e intelectual à pessoa. Muitos dos nossos alunos estão tocando em orquestras profissionais e filarmônicas de vários estados. Temos um spalla na Filarmônica de Belo Horizonte e oboístas na Orquestra dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro”, diz a concertista. 
 
A escola oferece atualmente 320 bolsas de estudo para estudantes de cinco a 32 anos, com empréstimo de instrumentos. “Transitamos entre o erudito e o popular. Temos  Orquestra de Câmara, que esteve recentemente se apresentado durante 15 dias na França e outros grupos como o Quarteto de Cordas e o Coral. A Orquestra Escola deu origem à Camerata Jovem e a Escola de Artes Pró-Música abrange mais de 40 instrumentos, além de cursos de teoria musical, canto, desenho, pintura, balé, capoeira, ioga, escultura, banda de rock e musicalização infantil. São 1.500 alunos entre crianças e adolescentes. O sucesso é tanto que temos lista de espera”, conta a professora. 
 
Tantas funções e dedicação não deixam tempo livre para que Isabel se dedique ao piano, como fazia no passado. “Não toco mais porque não tenho tempo para estudar”, constata com um rigor crítico peculiar aos grandes concertistas. Mas todos sabem que isso não é verdade. Fica aí uma provocação para que a grande pianista nos convide para uma performance musical no teatro onde tudo começou. 

 
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