Nada como um dia após o outro. Quando tomou posse em 2009 como prefeito de Juiz de Fora, Custódio Antônio Mattos, 64, diz ter encontrado a cidade em crise financeira e estrutural e a população com baixa autoestima. Certamente, a experiência adquirida em 1996, quando foi prefeito pela primeira vez, foi importante para que ele vislumbrasse uma luz no fim do túnel. Planejamento, determinação e ousadia permitiram que Juiz de Fora começasse a reverter esse processo de decadência e retomasse o crescimento econômico. Mas ainda há muito a ser feito. É sobre isso que o prefeito fala nesta entrevista.
O que mudou na cidade de Juiz de Fora de 1996, quando o senhor terminou seu primeiro mandato, para 2012, quando expira seu segundo período à frente do Executivo?
Acredito que existem semelhanças e diferenças importantes entre as duas administrações. Mantivemos e aprofundamos o compromisso com o desenvolvimento da cidade e o resgate de seus melhores valores. No primeiro mandato, além de garantir a manutenção da operação da Siderúrgica Mendes Júnior, hoje Arcelor Mittal, trouxemos a Mercedes-Benz e toda a estrutura necessária para dar suporte a sua operação. Tivemos um saldo muito positivo de realizações nas áreas social e de infraestrutura. Infelizmente, quando assumimos o novo mandato, em 2009, encontramos a prefeitura em grave crise financeira e estrutural e a cidade sofrendo, com sua autoestima em baixa. Trabalhamos duro no início e conseguimos reverter o processo de decadência econômica que vigorou no município nos últimos anos. Atraímos investimentos que totalizam aproximadamente 1,5 bilhão de reais, gerando mais de 10 mil novos empregos.
Juiz de Fora está saindo de uma fase difícil. Esvaziamento econômico (7% da arrecadação de Minas Gerais), perda de postos de trabalho e empreendimentos. O que tem sido feito para tirar a cidade desse lugar?
O primeiro passo foi entender o motivo do atraso econômico e, em seguida, criar um ambiente institucional e legal que favorecesse a realização de investimentos diretos. Apostamos na vocação logística do município, na qualidade de nosso capital humano, em nossa rede científica e tecnológica, na reconhecida qualidade de vida e na densidade urbana, que garantem a Juiz de Fora vantagens competitivas observadas em poucas outras cidades brasileiras. Contamos com a sensibilidade e a coragem do governo estadual em relação aos prejuízos causados pela guerra fiscal promovida pelo estado do Rio de Janeiro. Apresentamos vantagens competitivas e incentivos fiscais capazes de equalizar as condições oferecidas em outros municípios e estados da União e passamos a prospectar novos empreendimentos para a cidade. Foram então contatadas mais de 60 empresas que tinham projetos de implantação de novas unidades produtivas e tivemos a felicidade de incorporar ao parque produtivo local 14 projetos.
O setor metal-mecânico é o que sinaliza com maiores condições de alavancar o desenvolvimento da região?
A economia de Juiz de Fora é bem diversificada e o setor metal-mecânico é um dos mais importantes. O fato de essa área concentrar grande parte dos investimentos ilustra a boa situação de mercado vivenciada pelo segmento local. O setor é diversificado contemplando empresas que fabricam de produtos pouco diferenciados, como tarugos de aço, a produtos de elevado valor agregado, como automóveis e estruturas metálicas para construção civil. A tradição do setor, aliada à disponibilidade de mão de obra, à localização geoeconômica e às facilidades logísticas, habilitaram o município a se transformar em um centro metal-mecânico de referência nacional. O setor agora passa por um período de reestruturação, com os novos projetos da Mercedes-Benz, Arcelor Mittal, Votorantim, Codeme, Brafer, CBU, Açotel e Inusa, fortalecendo assim sua posição em relação ao mercado nacional. Com a expectativa de forte crescimento econômico do país, acreditamos que o setor crescerá junto, por ser o principal fornecedor para a construção civil, infraestrutura e indústrias de máquinas e equipamentos.
Que outros setores o senhor destacaria na cidade?
Juiz de Fora apresenta uma matriz econômica bem diversificada, o que reduz o risco de sucumbirmos junto à crise de um setor isolado. Dentre os setores de maior importância na formação do PIB local, destacamos, além do metal mecânico já mencionado, o de alimentos, o têxtil-confeccionista, o gráfico, o de embalagens, call center, educacional, médico- hospitalar e comércio.
Como define a Juiz de Fora de hoje?
Uma cidade madura, detentora de uma diversidade cultural e econômica, que apresenta elevado grau de civilidade, sendo apontada como uma das melhores cidades brasileiras para se viver, trabalhar e formar família. A retração econômica que atingiu Juiz de Fora nos últimos anos afetou a autoestima do juiz-forano, criando um clima de pessimismo, dando margem para alguns mitos, como o de que “em Juiz de Fora não corre dinheiro”. Aos poucos, com a retomada econômica que o município vem passando e com campanhas de valorização da cidade, acreditamos que o juiz-forano já começa a ver o município como ele realmente é: uma cidade moderna, próspera e cheia de oportunidades.
Quais atrativos a cidade oferece para novos empresários?
Vivemos a chamada “economia do conhecimento” que elegeu o capital humano como o principal ativo de uma sociedade. A cidade forma, todo ano, aproximadamente 2.500 universitários, criando uma condição diferenciada de fornecimento de capital humano para as empresas. Poucas cidades do porte de Juiz de Fora apresentam tamanha disponibilidade de recursos humanos e, considerando que o Brasil vem passando por um período de “apagão” de mão de obra, reconhecemos nossa condição como estratégica. Somam-se a isso os aspectos logísticos, de localização, infraestrutura urbana e industrial. O município possui todas as condições para se transformar em centro nacional de atração de investimentos produtivos.
Qual é o principal gargalo?
Juiz de Fora está localizada em uma região montanhosa, de topografia pouco amistosa, dificultando assim a oferta de terrenos destinados a receber investimentos produtivos. Há pouco tempo perdemos um grande investimento, por não possuirmos terrenos compatíveis com as condições técnicas do empreendimento. Como a prefeitura apresenta restrições orçamentárias para investir na implantação de condomínios empresariais, ela tem criado condições legais para que o próprio mercado possa viabilizar tais espaços. Foram sancionadas leis que estimulam o investimento em estruturas destinadas a receber edificações produtivas, ampliando dessa forma a capacidade do município em receber novos investimentos. Outra aposta da prefeitura refere-se aos empreendimentos intensivos em tecnologia, que exigem menor área física, ao mesmo tempo que garantem maior agregação de valor à economia local.