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CapaMinha cara metadeAumenta a cada mês o número de cirurgias bariátricas realizadas no país e, apesar da sensação de autoestima e bem-estar proporcionados a boa parte dos pacientes, existem riscos e os cuidados devem ser para toda a vida
Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Nélio Rodrigues, Gibran Chequer, Pedro Vilela e arquivos pessoais
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Entre os riscos que os pacientes correm está a possibilidade de embolia pulmonar (coagulação anormal do sangue, com a formação de coágulos que migram para o pulmão), complicações respiratórias e ruptura de pontos. É importante que o médico esteja ligado a uma equipe multidisciplinar, pois, lembra Girundi, a obesidade é multifatorial. “Um médico que atua isoladamente, e sem a devida estrutura, é contra-indicado”, acrescenta. Além das complicações na sala da cirurgia e no pós-operatório, existem consequências que podem ocorrer depois de meses ou anos da realização da cirurgia. “Por isso os pacientes precisam ter consciência de que o tratamento apenas começa com a operação, e a partir dali ele deverá ter acompanhamento periódico, por uma equipe que inclui cirurgião, clínico geral, nutricionista, psicólogo, endocrinologista”, observa o médico Arthur Garrido. Conscientizar-se disso, acredita ele, e também dos riscos a que se está exposto, é um passo importante para o sucesso da cirurgia, a curto, médio e longo prazo. Alguns efeitos colaterais estão dentro do esperado. Entre os possíveis problemas, está a anemia. Ela acomete em maior número as mulheres, devido à alteração hormonal que se segue ao emagrecimento, com aumento da fertilidade e do fluxo menstrual, em alguns casos. A desnutrição é um quadro mais raro e irá depender, muitas vezes, da técnica à qual o paciente foi submetido. Já a colelitíase, ou pedra na vesícula, atinge 15% dos pacientes operados. Outra incidência frequente são as hérnias incisionais, que podem ocorrer após a cirurgia devido à pressão intra-abdominal aumentada, típica de pacientes obesos. “Essas hérnias são mais frequentes nas cirurgias abertas; nas laparoscópicas a incidência é muito pequena”, explica Farah. |
A administradora de empresas Karina Duarte, que se submeteu a cirurgia bariátrica em 2005, chegou a apresentar alguns desses indesejáveis efeitos colaterais: anemia, emagrecimento acentuado; pedras na vesícula; e uma hérnia incisional. Medindo 1,67 m de altura, ela viu seu peso cair de 97 quilos para 47, dois anos após a operação. Como exames detectaram pedras na vesícula, ela precisou retirar o órgão. “Durante essa cirurgia, foi verificado que o anel colocado no meu estômago havia saído do lugar; estava apertado demais, impedindo quase totalmente a passagem de comida. Foi necessário trocá-lo”, conta. Seis meses depois, apareceu uma hérnia, exigindo nova operação. Novamente, quando estava sendo operada, verificou-se que o seu organismo rejeitou o novo anel. “Hoje, meu estômago está grampeado, mas o anel precisou ser retirado”, conta. Karina não desconhece, no entanto, os benefícios que a cirurgia trouxe para ela, em termos de autoestima. “Se fosse preciso, faria tudo de novo”, diz. Aos 54 anos, a dona de casa Rita Costa Carvalho, assim como Karina, vive os prós e os contras da cirurgia a que se submeteu. Embora tenha perdido peso, o que para ela trouxe importantes ganhos em termos sociais, o procedimento trouxe-lhe vários inconvenientes. “Fiquei desnutrida. Por um bom tempo, depois da cirurgia, me sentia muito fraca, com tonteiras, só ficava na cama. Não tinha forças nem para tomar banho”, relata. Com o tempo, esse problema se foi, mas hoje ela sofre com gastrite crônica, dores de estômago quando se alimenta e apresenta duas hérnias, que terão de ser operadas. “Não acho que fiquei normal.” |
Especialistas alertam para o fato de que a cirurgia não é um milagre. Ela é considerada, hoje, o melhor tratamento para obesidade mórbida, quando os procedimentos clínicos não trazem resultados. Mas é complexa e, como todo cirurgia, agressiva. Por isso deve ser uma opção para pacientes que podem morrer precocemente, devido à obesidade, ou que efetivamente possam ganhar qualidade de vida a partir dela. “Não vale a pena trocar uma doença por outra”, pontua Girundi. O comprometimento do paciente em seguir todas as recomendações pré e pós-operatórias é fundamental para o sucesso cirúrgico.
Entre todos os preparativos que devem preceder uma cirurgia desse porte, o aspecto psicológico do paciente não deve, acreditam os especialistas, ser considerado apenas um detalhe. “O que se opera não é apenas o estômago isolado, mas o indivíduo, com toda a sua complexidade”, observa a psicóloga Aída Franques, que acompanha pacientes com indicação para a cirurgia desde 1996 e é coautora do livro Contribuições da Psicologia para a Cirurgia Bariátrica. Um cuidado importante está relacionado ao fato de que aproximadamente 50% dos pacientes são portadores do transtorno da compulsão alimentar periódica. Se, numa avaliação pré-operatória, o paciente é identificado com esse transtorno, ele deve ser encaminhado a um psiquiatra para tratamento. “A compulsão alimentar costuma desaparecer durante o primeiro ou segundo ano depois da operação, talvez pelo entusiasmo do emagrecimento. Passado esse período, na maioria dos casos que seguem sem tratamento psiquiátrico, a compulsão reaparece”, alerta Aída. O paciente voltará a ganhar peso. Mas, se ocorre uma substituição de sintomas, a compulsão alimentar que estava presente no pré-cirúrgico se transforma em outras compulsões, como por bebida, cigarro, compras, sexo, jogos. |
Aos 60 anos de idade, José de Souza Dias Duarte reconhece que trocou o prazer que sentia em comer pela compulsão por álcool. Ele pesava 160 quilos antes de fazer a cirurgia bariátrica, tinha hipertensão e osteoartrose nos joelhos, que limitavam muito a capacidade de ele andar. Hoje, três anos depois de operado, pesa cerca de 80 quilos, a pressão está controlada, a vida sexual melhorou, bem como a autoestima, mas a bebida alcoólica ocupou um lugar demasiado grande na nova vida dele. “Estou tentando me livrar disso”, afirma Duarte, que tem tentado vencer o vício sem ajuda profissional. Assim como ele, são muitos os pacientes que operam e não seguem acompanhamento psicológico, mesmo quando há indicação para isso. Alguns, sequer fazem o acompanhamento médico padrão. Segundo Aída, a baixa adesão ao tratamento pós-cirúrgico – em torno de 50% – é a grande dificuldade encontrada pelas equipes que trabalham com a cirurgia da obesidade. Por não manterem o devido acompanhamento, ou as devidas recomendações, muitos acabam por voltar a engordar. Escolher alimentos saudáveis e afastar-se do sedentarismo são recomendações que permanecem válidas para quem se operou. Um deslize pode prejudicar os bons resultados cirúrgicos. O empresário Gustavo Ladeira perdeu 90 quilos depois de ser operado, há cerca de sete anos – estava com 183 quilos –, mas recuperou 18 quilos, no último ano. “Eu corria 5 km por dia. Devido à falta de tempo parei”, afirma. A atriz e produtora Nely Rosa também ganhou uns quilos indesejáveis, tempos depois de operada. “Não costumo me pesar, mas acho que devo estar hoje com 80 quilos”, diz. O peso está longe dos 150 quilos aos quais ela chegou, e que acabaram por levá-la à mesa de cirurgia. O problema é que ela não abre mão dos chocolates e de beber socialmente. “Voltei a tomar cerveja. Não acho que devo parar totalmente de fazer essas coisas que me dão prazer”, diz. No entanto, os joelhos começaram a dar novos sinais de cansaço, e Nely sabe que deverá se esforçar para voltar a perder mais uns quilos. |
Outra operada, a jornalista Rebeca Lago, sabe que precisa manter um cuidado permanente em relação ao peso. O caso dela requer atenção especial, pois ela se operou sem apresentar o perfil indicado para a cirurgia – seu IMC era 32. Foi em Maringá, no norte do Paraná, onde encontrou um médico que aceitou operá-la. A cirurgia foi bem-sucedida, e hoje ela segue tratamento com um médico em Belo Horizonte. “Estou com anemia, mas a cada três vezes faço exames. Já sei os limites do meu corpo, o que posso ou não comer, o intervalo entre as refeições, o que me faz passar mal. Precisei me adaptar, mas tenho certeza de que a cirurgia foi a melhor coisa que fiz na minha vida”, declara. Esse sentimento de que a cirurgia bariátrica é um divisor de águas na vida de quem opera é compartilhado por boa parte dos ex-obesos. “A cirurgia foi, para mim, um presente de Deus”, resume Liliane Baliza Alkmin Citty, que trocou o quarto fechado, onde passava horas chorando, deprimida, pelo prazer de resgatar o corpo e a vida social. “Ganhei nova vida. Estava com 119 quilos, hipertensa, meus exames alterados. Era candidata a sofrer um infarto a qualquer momento”, conta. Ela se submeteu à cirurgia há pouco mais de um ano, e já perdeu 52 quilos. Hoje, vive a euforia da transformação. “Meus exames de saúde estão todos normais. Resgatei o prazer de cuidar de mim, de me aprontar, de sair. Estou me sentindo linda”, diz. Todas as modificações proporcionadas pelas cirurgias bariátricas, devido ao emagrecimento, não podem, no entanto, camuflar a necessidade dos cuidados e do acompanhamento médico, que deverá ser para sempre. A metáfora da lagarta, enclausurada no casulo, que emerge à vida na forma de borboleta, é uma imagem sugestiva da metamorfose gerada pela perda de peso. Um renascimento que exige aprender a viver dentro de novo corpo, com nova imagem. Um desafio que os ex-obesos abraçam como uma segunda chance. |
Obesidade- O conceito de obesidade baseia-se na proporção entre o peso e a altura do indivíduo, representado pelo Índice de Massa Corpórea (IMC)
Com a cirurgia, o paciente perde, em média, cerca de 40% do peso
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Cirurgia Bariátrica- Cirurgia bariátrica é toda aquela cirurgia que tem como objetivo levar à perda de peso Fontes: Secretaria de Saúde de Belo Horizonte, Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) Ministério da Saúde |
Como são as cirurgiasTipos de técnicas
Algumas técnicas - Bypass gástrico com anel ou cirurgia de Fobi-Capella - Bypass gástrico sem banda ou cirurgia de Wittgrove - Entre as várias técnicas disabsortivas, três são mais conhecidas:
Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM)
O Brasil possui 3,73 milhões de obesos mórbidos ou obesos graves, Em 2008 foram realizadas 30 cirurgias bariátricas em Belo Horizonte, pelo SUS. Até o dia 23 de junho deste ano, já haviam sido realizadas |
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